Em busca de uma verdade acidental

(texto escrito na ocasião da Bienal de São Paulo de 2012)

Por Ian Schuler

“I want to do a piece where I go to the Alps and talk to a mountain. The mountain will talk of things which are necessary and always true, and I shall talk of things which are sometimes, accidentally true.”

“Quero fazer um trabalho em que irei aos Alpes para falar com uma montanha. A montanha falará de coisas que são necessárias e sempre verdadeiras, e eu falarei de coisas que, algumas vezes, são acidentalmente verdadeiras.”

citação de Bas Jan Ader
(em: http://www.basjanader.com/dp/Leavitt.pdf)

      A verdade como acidente: quando a razão e o corpo se desfazem, juntos, no momento da queda, uma instância aparecendo tão ridícula e fracassada quanto a outra, então se apossa do percurso o que poderíamos chamar de uma eventualidade maior, inevitável: a morte se projeta, encobrindo o sujeito-objeto (que é Bas Jan Ader) da ação.

      O curador da primeira retrospectiva de Ader nos EUA, Brad Spence, notou essa configuração de “sujeito-objeto” das quedas de Bas Jan: ele é produtor ao mesmo tempo em que está implicado nas imagens. Os exemplos dessa distribuição de papéis são incontáveis, e podemos dizer que todo realizador é também “sofredor” daquilo que invoca (Kusturica diria que, ao longo de todo o processo de filmagem, não pensa em outra coisa além de se suicidar). Creio, por outro lado, que Bas Jan atinge um ponto mais decisivo, “fatal”, nessa relação: trata-se, como performer, de literalmente apagar-se na imagem, e, no mesmo golpe, enquanto produtor, de apagar ela própria, aspirando-a.

      Sua presença em cena é a de um moribundo, alguém que veio para estragar-se. Ao mesmo tempo seu sacrifício é em nome de um “gesto”, de uma elaboração artística (a mais irrefletida e selvagem possível). Sua direção é a de um corruptor, alguém interessado em arrematar o espaço (como num buraco negro) para depois recriá-lo (o telhado da casa de onde cai reaparece partido, chorando gente; o galho e o lago ficam desgastados pela ação do alucinado…).

      Se atentarmos para algumas declarações dadas por Bas Jan, podemos entender suas propostas espirituais e artísticas a partir de dois aspectos diversos:

      Primeiro, o interesse em fundir-se totalmente ao espaço. Fazer-se tão natureza quanto as plantas, o céu, o espaço que o circunda e move-se apesar de tudo, sem consequências. Nesse sentido, a irreflexão das ações é obrigatória: a natureza, os elementos, os objetos, não pensam; logo, para introduzir-se a eles é preciso inconsequência plena, desanuviação (que acaba aparecendo como liberdade total: liberdade para morrer).

      O segundo aspecto refere-se exatamente a supressão desse espaço “aberto” da inconsequência geral: o corpo do artista, sendo o único referente que se atualiza na imagem, é também aquele que rasga-a, em um movimento, de uma só vez. O espaço, então, cujo registro em geral mostra uma paisagem, muitas vezes bonita, “amena”, torna-se nada mais do que indiferente, esgotado pelo gesto de morte que vemos produzir-se. O olhar é sugado para o buraco negro da imagem implodida. Para onde mais se poderia olhar quando a queda acontece? O ímpeto é demasiado determinante para ser ignorado, ou mesmo para dar espaço a outra visada qualquer.

      Fardo de obsessor, tomar a imagem… Cortar o mar, acabar sendo por ele dilacerado, seria seu gesto final. O último ato conhecido de Bas Jan foi desaparecer numa tentativa de atravessar o atlântico em uma pequena embarcação.

      Mas, na verdade, tratava-se de uma busca pelo milagre*. Talvez seja essa a grande prospecção de Ader, aquilo que não está visível em suas ações mas que fica evidente nas sugestões reflexivas. Ele diz que não se trata de “arte do corpo”, de perceber o desenrolar do corpo em queda, ou do gesto de cortar o mar, cortar a imagem… Mas sim de uma relação com a gravidade, com o que ela abarca de mais “opressivo” (dado que nos mantém atados, pertencentes a terra) e milagroso: o encontro com uma alteridade estranha, desorientada, uma verdade acidental.

      Pensemos no instante que separa equilíbrio do desequilíbrio, quando o controle perde-se sem retornar, até o momento do encontro da cara com o chão: talvez seja no interior desse átimo que surge a possibilidade milagrosa, o momento em que ela se manifesta. Atravessa-se um estreito portal, que passa da “vida” (enquanto possibilidade de premeditação e asseguramento do espaço) à “morte” (enquanto momento do puro devir, caótico).

      Ou a queda é puro milagre: não há mais corpo que a contenha, ela viaja para onde quiser. Essa seria uma hipótese idiota: então quem tropeça imediatamente entra em estado de graça, de milagre? Obviamente não. Mas a verdade requer algum desprendimento… Digamos que Bas Jan se aplicou com total intensidade a ele. E encontrou o quê? Nada se sabe, não caímos com ele. O testemunho que resta, pelo menos, é o de sua procura.

*Refiro-me ao último trabalho de Bas Jan, que consistia numa trilogia, e cuja segunda parte seria exatamente a viagem de barco da qual não retornou.