Pietro Nassetti e a originalidade da tradução

(este texto foi originalmente apresentado como palestra no I Seminário da Revista A!)

Por Vinícius M.R. de Carvalho

Quem ainda hoje procurar por Pietro Nassetti usando a ferramenta de busca da rede social Orkut encontrará uma comunidade cuja descrição diz:

Comunidade em homenagem a esse patrimônio da nossa nação, homem de inefável erudição, filósofo, matemático, teólogo, botânico, compositor, poeta, decorador de interiores e tradutor venerandíssimo, que contribuiu ao corpus editorial brasileiro com obras do etrusco, do grego eólico, do sânscrito védico, do hebraico pré-bíblico, do eslavo eclesiástico antigo e do chinês da dinastia Wú.

Pietro Nassetti traduziu para o português o Bhagavad-Gita, o Alcorão, os Analetos de Confúcio, o Livro dos Mortos egípcio, a História dos Reis da Noruega de Snorri Sturluson — numa edição belíssima da Martin Claret, e, direto do Pali, a opera omnia de Buda.

Pietro Nassetti fala braile e lê Linear-B.

Vale a pena também conferir a linda tradução que ele fez do Orlando Furioso para LIBRAS.

Quando Pietro Nassetti acha algo muito fácil, ele diz  “Tis Greek to me!”

Quando a comunidade foi criada, ainda em 2008, a Martin Claret possuía em seu catálogo editorial quase uma centena de títulos sob a autoria tradutorial de Pietro. Dentre eles, as traduções (para o português!) de obras como Quincas Borba, de Machado de Assis, A Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente e A Encarnação, de José de Alencar. Diante desta produção tão diversa quanto curiosa, alguns colegas de profissão, talvez movidos pela inveja, colocaram-se a tarefa de analisar minuciosamente a arte de Pietro Nassetti, a fim de tentar encontrar o segredo de sua proficuidade excepcional. Logo se descobriu, para a surpresa de todos, que a totalidade das traduções de Nassetti eram suspeitamente semelhantes a traduções anteriores que circulavam a décadas no mercado nacional (com a exceção óbvia daquelas que vertiam o português para o português). A tradutora Denise Bottman cotejou diversas traduções de obras que figuravam no corpus nassettiano e concluiu, após ampla amostragem, que via de regra os períodos comparados entre uma determinada tradução e a contribuição de Pietro diferiam apenas na substituição de algumas palavras difíceis por sinônimos populares. Some-se a isto o fato de que Pietro é um ilustre desconhecido da academia; como é possível que um homem que traduziu Platão e Weber, o que exige considerável erudição linguística e esforço conceitual, nunca tenha participado de ao menos uma conferência?

É seguro responder que Pietro Nassetti provavelmente não existe ou, ao menos, que este não é o verdadeiro nome de um indivíduo. Pietro Nassetti é em realidade um coletivo profissional da editora Martin Claret, cuja obra consiste em usurpar o texto de traduções já publicadas e camuflá-lo usando da sinonímia e da paráfrase. Mais: Pietro Nassetti não é o único, mas faz parte de uma família que conta, entre outros, com nomes tão suspeitamente falsos quanto Jean Melville e Alexandre Boris Popov. O primeiro é formado pelo apêndice ao sobrenome do famoso escritor do prenome do filho do sr. Claret, Jean Claret, e é também autor de uma vasta obra tradutorial; o outro figura como tradutor da edição claretiana de ‘Irmãos Karamazov’ que é quase idêntica à famosa de Boris Schnaiderman.

Diante desta lista não exaustiva de evidências, todos somos obrigados a concordar que a Martin Claret é autora de algum crime, mas ainda não sabemos precisar que crime é este e qual o seu real ônus social. Está claro que a dimensão individual do plágio, que consiste na usurpação da glória alheia para engrandecimento pessoal diante de outros homens, não pode existir no caso de Nassetti ou dos outros tradutores/usurpadores da Martin Claret, pois não há ali nenhum indivíduo para gabar-se individualmente do fruto do trabalho de outro. O crime é fruto da concorrência entre editoras e da maneira como a Martin Claret decidiu reduzir os seus custos de produção. Primeiro, elegeu apenas obras disponíveis em domínio público para explorar comercialmente. Depois, diante da realidade da legislação brasileira, que resolve o problema metafísico da tradução com a caneta, ao escrever, como simples norma, que esta se define como “criação intelectual nova” ou “criação do espírito dotada de originalidade”, dotada, portanto, dos seus próprios direitos autorais, ainda que derivada de obra previamente depositada em domínio público; diante desta realidade, pois, a Martin Claret decidiu camuflar as suas “criações de espírito dotadas de originalidade” de modo a não cometer o crime muito explicitamente. Finalmente, contando com a redução de seus custos de produção, a Martin Claret vendeu os seus livros a preços excepcionalmente baixos no mercado e foi aceita no Programa Nacional do Livro de Baixo Preço, a partir do qual vários dos seus títulos abarrotaram as estantes de mais de 2.700 bibliotecas públicas.

Antes de aplicar uma sentença, um juiz deve sempre medir cuidadosamente o ônus social do crime. Não se trata aqui de acreditar piamente no slogan que encima o website da editora Martin Claret: “Revolucione-se culturalmente, leia mais para ser mais”, mas apenas de investigar as consequências reais. Se é verdade que não existe nenhum Pietro Nassetti, é também verdade que os tradutores usurpados deixaram de ter o seu trabalho reconhecido. Isto se pode explicar pela necessidade do programa da Martin Claret em camuflar a usurpagem ao anonimizar o usurpado. Isto é injustificável, tanto de um ponto de vista ético quanto de um tático. Igualmente verdadeiro é o fato de que as outras editoras perderam com a concorrência desleal da Martin Claret. No país onde a literatura popular de Górki pode ser lida nas edições de luxo de Charles Cosac, as editoras sofreram. Sofreu também a qualidade das edições da Martin Claret. Denise Bottman mostra vários exemplos onde a sanha parafraseante de Pietro Nassetti acaba por evaporar o sentido das passagens usurpadas. Trata-se aqui, novamente, de camuflar o crime. Mas também de erro técnico. A Martin Claret deveria fazer cópias tão fiéis quanto possível das melhores traduções. Argumentou-se também que milhares de leitores entrariam em contato com obras literárias importantes sem tomar conhecimento dos seus verdadeiros tradutores. No país onde a literatura popular de Górki pode ser lida nas edições de luxo de Charles Cosac, isto é realmente terrível! Ademais, já podem ser encontradas monografias e dissertações de mestrado em que Pietro Nassetti figura nas bibliografias, o que é inadmissível, pois todos sabem que o valor de um trabalho teórico pode ser medido pela qualidade de suas referências bibliográficas.

Martinho Lutero, o mais importante tradutor da história, tinha isto a dizer sobre as cópias não autorizadas:

Estes miseráveis e gatunos editores piratas manuseiam o nosso trabalho de forma herética! Pois em sua ganância não se preocupam em saber se o texto que copiam está correto ou não. Muitas vezes passei pela experiência de não reconhecer o meu próprio trabalho em diversas seções de uma cópia pirata!

Mas nem mesmo ele escolheria retirar as palavras de Cristo e seus apóstolos de circulação pelo direito de reconhecimento tradutorial. Para ser mais preciso, é necessário distinguir, no caso Martin Claret, aquilo que atenta contra o direito de reconhecimento (que é um direito moral) daquilo que atenta contra o mecanismo econômico do direito autoral. Este último é apenas um empecilho, um resquício da era da reprodução mecânica, no caso das obras culturais, à reprodução tecnológica cada vez mais massiva permitida pela digitalização e computação geral. Muito já foi dito sobre a forma como os direitos autorais e a propriedade intelectual geram escassezartificial. Não nos cabe repetir os argumentos. É mais interessante discutir a sua justificativa ideológica, que passa por uma concepção da relação entre autoralidade e originalidade; e como estas interagem no caso da tradução.

Como vimos, é um pressuposto do direito autoral que as obras por ele abarcadas sejam criações intelectuais novas. No caso das traduções, que isto é o caso é decidido por um fiat legislativo completamente injustificado. Na filosofia, a relação entre tradução e originalidade sempre esteve em litígio. Consideremos a posição de Walter Benjamin:

Os fragmentos de um vaso que se destinam a ser colados devem ajustar-se aos outros nos mais pequenos pormenores, ainda que não precisem ser semelhantes uns aos outros. Da mesma forma, uma tradução, em vez de se assemelhar ao sentido do original, deve cuidadosamente incorporar o modo de significação do original, tornando assim tanto o original como a tradução reconhecíveis como fragmentos de uma língua maior, tal como os fragmentos fazem parte de um vaso.

A passagem de Benjamin tem dois objetivos. O primeiro deles é tornar clara a distinção entre sentido e modo de significação, de modo a que o trabalho derivativo do tradutor não seja aplicável ao que chama de sentido do original, mas simplesmente ao modo de significação ou apresentação desse sentido. Assim, o tradutor estaria liberto em determinado nível da mera repetição de um conteúdo, ao mesmo tempo que deveria jurar fidelidade ao modo de apresentação deste conteúdo. Seja como for, esse não é o objetivo mais interessante para nós. Ao fazer tal distinção parece-nos que Benjamin não resolve o problema da originalidade da tradução, mas só o deixa em termos mais claros. Pois, ainda que a tradução consista justamente nesse transporte fiel de um “modo de significação” de uma língua para outra, se supõe que o tradutor empreende tal tarefa tendo em vistas o sentido original da obra e nunca a uma “criação do espírito dotada de originalidade” própria. A solução do legislador brasileiro ainda é mais eficaz.

Mais interessante é a idéia de uma língua original que tanto a obra quanto sua tradução compartilham como mãe. A idéia de uma língua maior, do que Benjamin também chama de uma língua pura e de uma ur-língua, serve como instância equalizadora do original e sua tradução. Diante da ur-língua, tanto uma como a outra estão equidistantes e a tarefa filosófica da tradução é mostrar justamente isso. A tradução serve como lembrete ao original de que ele mesmo é a derivação de uma instância mais distante e realmente original. Dado isto, o problema desta passagem é a identificação de tal instância original a uma língua pura. Isso é fruto das concepções teológicas de Benjamin e aponta para a desesperança de uma língua adâmica perdida ou de pelo menos uma realidade pré-Babel. Mas ela é muito espectral, muito mística e esfumaçada para ser levada a sério como pré-condição da produção artística. Falta a Benjamin a real dimensão material do problema. O que é isto que condiciona de forma primeira tanto a tarefa do tradutor como a do narrador, como a do artista em geral? Deve ser algo que exista previamente e independentemente desses homens, mas que só possa receber um foco e um acabamento, por assim dizer, através deles.

A economia política clássica, com a categoria de trabalho, está muito mais próxima de farejar a real natureza dessa instância primeira do que o conceito de uma Ur-Língua. Ao estabelecer o direito à propriedade a partir da idéia de transformação autoral, ela deu ensejo ao conceito de exploração. Assim, quando o fruto da transformação do trabalho não pertencia ao seu autor, dizia-se que este era explorado por outro e que a situação atentava contra tudo o que é justo. Mas tal concepção de trabalho individual era incapaz de derivar teoricamente a sociedade que efetivamente existente e era obrigada pela força de suas próprias conclusões a vaticiná-la como aquele local onde “a vida de um homem é solitária, pobre, bruta e curta”, onde a justiça enquanto ordenamento solidário em tempos de paz não poderia existir. Foi necessário introduzir a noção de trabalho social para remediar o problema e justificar a generalização do trabalho assalariado, mas tal noção deveria redundar em uma modificação de igual monta no conceito de exploração: agora atentava contra o bom senso a idéia de uma exploração individual, dado que o trabalho só se constituia em comunidade. Deu-se um passo decisivo em direção à teoria moderna das classes sociais. O desenvolvimento desigual e combinado das idéias, entretanto, decidiu que as conclusões da teoria do trabalho não poderiam valer para as “criações do espírito dotadas de originalidade”. Herbert Spencer, ao defender a lei de copyright da acusação de monopolismo, já no século XIX, insistia em confundir trabalho e propriedade individual.

Se eu sou monopolista, você também é; e todo homem o é. Se eu não tenho direitos sobre os produtos do meu cérebro, você também não tem sobre aqueles da sua mão. Ninguém pode tornar-se o único dono de qualquer coisa e toda propriedade é ’roubo’.

A alusão a Proudhon, ainda que sarcástica, revela que Spencer partilha da mesma disfunção teórica daquele autor: a idéia de que o fato da propriedade deve acompanhar o exercício do trabalho. Ora, se o critério de justiça econômica é o uso de toda a sociedade dos seus produtos socialmente constituídos, porque deveríamos abrir exceção para os produtos do cérebro do sr. Spencer ou de qualquer outro cérebro? É o trabalho socialmente constituído essa instância primigênia que Benjamin tentou capturar. Ele revela não só a paridade entre original e tradução, mas também que o critério de justiça socialista deve ser aplicado a ambos. As várias peças do vaso de Benjamin representam a complexidade de todas as partes móveis da produção e reprodução social, seu entrelaçamento e dependência mútua. Nenhum homem pode ser considerado suficiente diante dessa malha. Não existe o grande gênio. Se fosse possível reunir todas as peças do vaso de Benjamin, notaria-se nele não a ilustração de um Adão nomeando despreocupadamente os animais, mas a do homem paleolítico pintando a caça nas paredes de Lascaux ou Altamira.

A idéia de trabalho social, ou, melhor dizendo, o fato do trabalho social, que norteou a divisão das fábricas e dos campos em 1917, deve nortear agora a construção de um novo direito de reprodução e livre-uso do produto cultural. A propriedade intelectual foi criada para defender o inventor da concorrência desleal e garantir a defesa de seu interesse econômico. Hoje, as velhas mídias e o modelo centralizado de reprodução mecânica sofrem concorrência desleal de uma rede descentralizada capaz de reproduzir em um dia mais do que a população do planeta em cópias de um documento digital, tornando o interesse econômico tão caduco quanto a escassez (os axiomas da economia só se aplicam onde há escassez). Elas sofrem a mesma concorrência desleal que a gleba sofreu da acumulação primitiva, ou o cavalo do motor a combustão, ou a trincheira do tanque e da aeronave bombardeira. Até os liberais já se deram conta disso. Cory Doctorow, em seu artigo “Todo ecossistema complexo tem os seus parasitas” relata:

A um par de semanas atrás, eu ouvi o vice-presidente de tecnologia da Warner numa apresentação em Dublin, onde ele argumentava pela adoção de medidas restritivas para a TV digital e o slide que pensava ser o mais convincente dizia: “Com avanços na velocidade de processamento, no espaço de armazenamento e no acesso à banda larga… TODOS SE TORNAM UMA EMISSORA!” Deus nos livre.

Finalmente, nós, da ultra-esquerda claretiana, manifestamos-nos contra as distorções do programa rebaixado da Martin Claret, declarando:

Primeiro, que o trabalho de usurpação deve anonimizar o usurpador, se necessário, para ocultá-lo da lei, mas nunca o usurpado, respeitando sempre o seu direito ao reconhecimento.

Segundo, que a Editora é um órgão tão ultrapassado quanto a reprodução mecânica no contexto das obras culturais e deve ceder espaço à transmissão direta entre pares.

Terceiro, que a paráfrase é o erro grosseiro do copista e que o computador é um copista perfeito.

Quarto, que o livro de baixo custo é um ideal caduco diante da reprodução maciça pelo computador e do transporte internacional pela internet.

Só assim perdura realmente o legado de um Pietro Nassetti socialista.