Do Amor ao Próximo

Por Uiliana Ilza Zanon.

A máxima cristã de “dar a outra face” já teve tantos usos reacionários que fica difícil notar nela sua capacidade de ser comunalmente comunista. No sentido que me parece mais habitual, poderíamos ignorar várias passagens bíblicas, em especial no novo testamento, onde se fala em “trazer a espada e não a paz” e que um camelo passa por dentro de um buraco de agulha antes de um rico entrar no céu, e imaginar o cristianismo clássico como uma “moral do escravo”, aos moldes de Nietzsche, uma instigação reacionária à subserviência e à aceitação do julgo imposto pelas condições materiais, e pelos outros homens, às outras classes.  Porém, dar a outra face também possui um sentido condizente com o lado mais radical da bíblia, um sentido revolucionário. A radicalidade dessa revolução, no entanto, é mais concreta do que idealista, como se poderia imaginar, se tratando de religião. Dar a outra face é uma extensão da ideia-mestra de “amar ao inimigo”. Longe da conciliação das classes, amar ao inimigo significa entender que a alma do inimigo transcende as condições de classe em que ele se encontra – o que, traduzido em termos menos metafísicos, seria dizer que há potencial revolucionário em qualquer um.

Pensemos em um reacionário (todos conhecem ao menos um). Concebamos amá-lo. Insuportável? Talvez, mas a magnitude do esforço é a da recompensa: a conversão de mais um sujeito político construtivo. Amar o inimigo é o começo – tanta situação para apenas dar a partida em um motor! – mas nós mulheres sabemos da dor do parto. Amar é o início (ao contrário de muitos, não quero dizer que é também o fim – o fim ninguém conhece, o fim é assunto para o futuro, para aqueles que nascerão dos partos de milhões de mulheres, ou de milhões de coisas, eu não sei, não sabemos o que será o futuro) porque é através de uma aceitação da separação entre o sujeito e seu meio material (separação cristã, e a princípio anti-marxista) que podemos visualizar nele a possibilidade de superar – como nós, comunistas burgueses – essas condições, e de não ser vítima do behaviorismo social que só é do interesse de quem quer que tudo seja como sempre foi. Há duas causas da mente não-comunista: a ignorância e a maldade. A elite está possuída quase sempre da maldade, que não é nada mais que uma forma mais aguda de ignorância (mas aqui estamos chegando ao conturbado sótão do mundo, onde conhecer e querer são uma e mesma coisa, e para onde o espírito de Platão – que aqui é o mesmo que o corpo – foi depois do filósofo ter morrido).  A maioria das pessoas, entretanto, apenas repete o que o ritmo trabalho-tv comanda hipnoticamente. Os artistas gostam de falar em possessões, daimons e inspirações abruptas e raras, mas a verdade é que a epifania é uma condição cotidiana. Ela não é o fora, é o dentro. Ela já está aí, e não à espreita, escondida. Se a epifania, por acaso, nos é oculta, é apenas no mesmo sentido que a luz ofuscante do sol é oculta ao olhar fixo. Vivemos imersos na magia e no encantamento, somos outra pessoa todo dia. Amar o inimigo é intuir de forma onírica, em que ele se encontra enquanto mera expressão da vontade de sua classe (que é por sua vez expressão de uma outra classe, a dominante), a capacidade inerente a todo o oprimido de odiar diretamente o seu opressor. Mas para despertar esse ódio marxista é necessário o amor cristão. É necessário suprimir estrategicamente a verdade básica do materialismo histórico – “as vontades estão subordinadas a processos históricos” – para poder reativá-la, para poder estendê-la àqueles aos quais sua luz normalmente não alcança, aqueles que vivem no sonho dogmático do Estado Democrático de Direito. É necessário inserir nesse sonho o pesadelo marxista, porque o pesadelo, ao contrário do sonho, evoca no cérebro dormente o desejo de despertar.

Despertar deve ser um desejo do próprio sujeito. Não é possível desejar pelo outro. Mas, mais do que isso, desejar por si mesmo é uma forma mais forte de convicção. Aquele que participa ativamente está mais apto a se envolver de fato com uma ideologia, a vivencia-la plenamente, o que cria militantes mais capacitados. Aquele que ama uma ideia é capaz de odiar uma ideia. Para que tudo isso seja possível, é necessário antes amar pessoas. Não porque isso é bom por si mesmo, mas porque amar é supor a liberdade do outro, é ver nele não suas opiniões, suas crenças, mas a possibilidade de ter opiniões e crenças. Quando se enxerga isso em alguém, só essa possibilidade e nada mais, é possível amá-la pelo que ela é, sendo que ela é isso que todos somos – no amor de um, o amor de toda a humanidade. E aqui, enfim, cristianismo e marxismo dialeticamente se encontram, depois de estarem longamente separados: nas margens da igualdade universal dos homens.