Palácio Gustavo Capanema

Por João G. Paiva.

Quando Oscar Niemeyer morreu, a primeira imagem que me veio foi a do Palácio Gustavo Capanema. Reza a lenda que após muitas idas e vindas do projeto original — concorrido, dispensado, revisto, atropelado — o jovem arquiteto Oscar Niemeyer que, na época, era apenas um estagiário, resolveu fazer um rabisco a partir do plano traçado por Le Corbusier (mas ele era um estagiário) e amassou a folha e jogou pela janela. Um membro da equipe havia tido contato com aquele rascunho e mencionou ao chefe, Lúcio Costa, que mandou buscar a bola de papel na rua. Lúcio viu o projeto, foi humilde, e falou “vai ser este”. Possivelmente quem deu a ideia ao então ministro Gustavo Capanema de abandonar a primeira planta vencedora, de Arquimedes Memória, foi Carlos Drummond de Andrade, seu funcionário chefe de gabinete. Daí, ainda na década de 1930, ele teria convidado o Lúcio, que convidou Corbusier, que veio ao Rio caminhar à borda da baía. A inauguração do Palácio pode ser vista num vídeo curto em que Capanema discursa para um amontoado de gente, ao lado de Niemeyer e Drummond. Foi ali entre os azulejos de Cândido Portinari e o jardim de Burle Marx que o modesto poeta emendou muito de seus poemas e, seguramente, refrescou obras-primas à luz e semelhança do prédio que o encobria. Era esperado que um tal edifício inspirasse muitos de nossos artistas, é o caso de Rubem Braga, que preocupou-se em colocar o jardim do ministério como cenário para uma borboleta fugitiva, ou Vinicius de Moraes, que a ele dedicou o poema Azul e Branco, em menção aos 14 andares do prédio.

Azul… Azul…

Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco

Concha…
e cavalo-marinho.

Dia desses eu estava entrando na Rua da Imprensa, bem cedo da manhã, e me ocorreu sentar numa de suas muretas. Um belo edifício, pensei, enquanto imaginava meus pés dando seguimento ao percurso e adentrando o hall e alcançando a sala Cândido Portinari com seus murais. Estava uma porção de homens ali, vestidos ao modo dos funcionários públicos da época em que o Rio era capital federal; muitos dos nossos poetas eram funcionários públicos e muitos dos nossos funcionários públicos já haviam sonhado em se tornarem poetas. Eu estava em 1955? Havia tudo para eu continuar peregrinando entre os tempos do Rio antigo se não fosse o particular esforço da cidade em apagar e escrever coisas novas. Até mesmo recentemente um grande professor de arquitetura, chamado Roberto Segre, morreu deixando um livro quase inacabado em que se dedicou por anos a fio. Chama-se Ministério da Educação e Saúde: ícone urbano da modernidade brasileira (1935-1945). A certa distância poderíamos ter um receio de que o mais espantoso que esse edifício ainda poderia nos reservar seria, por exemplo, uma busca quase arqueológica pelos azulejos perdidos de Portinari nos recônditos de seus depósitos, ou talvez a reconstituição desta ou aquela flor tropical no terraço-jardim de Burle-Marx. Subitamente fui arrastado dessas divagações brilhantemente empoeiradas para ouvir os trompetes, sax e trombones do Boi Tolo no domingo de carnaval. Eu estava bem ali no pátio enquanto uma multidão se incumbia de avisar ao cronista que nada mais importava. Naquela mesma tarde eu escutei muitos rumores sobre um bloco clandestino cuja natureza seria revelada na manhã seguinte. Aconteceu na segunda-feira de carnaval o Boa noite Cinderela, começando já perto da madrugada, iniciou-se na Praça XV e poucas horas depois estaria sob o arranjo arquitetônico do rascunho de Niemeyer, o Palácio Gustavo Capanema. Naturalmente, refleti comigo, muitos dos que andaram pelo bloco pensarão exclusivamente nele quando estiverem, como eu, sentados na mureta do pátio na região da Rua da Imprensa. Talvez ainda encontraremos notícias suas num manual qualquer para turistas, já que os manuais de turismo estão sempre atrasados quanto ao fresco da noite e apenas registram o que um dia foi intensamente desregrado e sem chance de registro. E eu poderia acabar aqui se não tivesse me ocorrido que em quase todas as manifestações de maio, junho e julho do ano passado nós viemos pela Cinelândia e, a caminho da Antônio Carlos, estivemos ao lado do velho Palácio. Que será feito de suas histórias? Muitas delas sem dúvida ficarão perdidas como os azulejos de Portinari, ainda que sejam tão primorosas quanto seus cavalos-marinho. Eu prefiro imaginá-lo rodeado cada vez mais por multidões anônimas, seja em blocos de carnaval ou manifestações com mares de gente por todos os lados — quem sabe assim os personagens do edifício não se sentem à vontade para descer e caminhar uma vez mais sobre estas ruas? Saí da mureta e pensei no ano de 1955, pensei no jovem Niemeyer e pensei nos canteiros do terraço respirando a manhã. Nessa ordem.

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