Matéria escura – Richard Serra no IMS

Por Ian Schuler

Double Rift, 2011

Weights, 2008

Na coletânea “Richard Serra – Escritos e Entrevistas (1967-2013)”, fica evidente o escrutínio de Serra ao preparar a montagem de suas obras site-specific. Todos os efeitos possíveis, dirigidos aos espectadores/transeuntes hipotéticos, parecem antecipados por Serra, que os vislumbra e equaciona antes de aplicar seus trabalhos no espaço. O olhar do propositor visa pontos da cidade: passeia por ela, cogita-a, propõe circunscrições ideológicas, propõe ficções do movimento para aqueles que transitam. Fragmenta a cidade em pedaços (não apenas pensantes, mas também sensíveis, estranhos. Um espaço flutuante e denso a cidade de Serra deve ser), e em seguida os recompõem. No trabalho “Lista de verbos”, Serra anota ações possíveis para a matéria, o aço, a madeira, a terra (sem, no entanto, citar qualquer objeto especificamente, o que abre margem para pensarmos que talvez esteja falando de corpos, de cérebros, de olhos, de “raspar” e “dobrar” e “vincar” virtualmente qualquer coisa), como numa proposta pedagógica para fazer da cidade sua própria causa experimental. Quando enfim define as qualidades observacionais e sensíveis de seus trabalhos, quando confia no sistema de operações meticulosamente (i.e., monstruosamente, terrivelmente) concebido, então eles estão prontos para o espaço, e recaem sobre eles – intervenções escuras, pequenos enigmas pesando toneladas.

Cheever, 2008

Double Rift #4, 2011

Mas não são obras site-specific que estão expostas no Instituto Moreira Salles, e sim o que o artista denomina como seus “desenhos”. O fato de que prefere essa nomeação a outras possíveis (pinturas, esculturas, instalações ou mesmo site-specific parecem, afinal, atribuições aceitáveis para os trabalhos expostos), talvez venha do fato de que os problemas que as obras abordam, seu mote conceitual, pode-se dizer, talvez esteja mais próximo do desenho do que dessas outras áreas. Na verdade, no belo e preciso texto “Notas sobre o desenho”, Serra faz questão de registrar em termos boa parte de suas intenções com esses trabalhos. Citemos alguns deles: pensar o corte em matérias rígidas, como o aço, na forma de linhas, de traços, e não exatamente como modulação de um material tridimensional, a princípio escultórico; usar as formas geométricas e os próprios suportes dos desenhos para organizar esquemas espaciais que redefinem as salas de exposição; pensar, em suma, o plano bidimensional das telas em relação a suas condições intrínsecas, mas sem deixar de entendê-las na situação de um espaço dado.

Weights, 2008

Cheever, 2008

De fato, os trabalhos abordam particularmente a linha, o traço, em geral configurando simplificadas formas geométricas – círculo, retângulo, quadrado, ou simplesmente abstrações “acidentais” na superfície da tela. Há ainda a escolha sobre como preencher tais formas (a densidade, a espessura dos materiais), ou sobre como lidar com o plano onde são arranjadas – até onde se estende a matéria escura. O uso do bastão oleoso como técnica primordial de diversos trabalhos adiciona uma informação visual curiosa, se pensamos especificamente em termos de desenho: o preenchimento das formas parece ter sido realizado por um grafite hiper-dilatado, conferindo-lhes, assim, uma dimensão que pode ser chamada de escultórica, onde a textura densa desses corpos plásticos entra em tensão com a simplicidade do traço que define sua geometria. Em “Cheever” (2008), por exemplo, notamos o rastro do bastão oleoso que parece espalhado pelos lados, sobrando nas beiradas da grande massa circular que recobre boa parte da tela.

Talvez seja precisamente esse o aspecto mais intrigante em diversos desenhos de Serra: a tensão entre a simplicidade das formas e a espessura da matéria com que foram realizadas. Em alguns deles, onde a matéria aplicada é mais espessa, criando uma camada grossa e ressaltada, podemos supor uma sincera densidade emocional nesses volumes desencontrados, uma fuga da matéria física, que aparece em contraste à matriz conceitual das obras. O uso do preto, segundo Serra, seria uma forma de evitar interpretações equivocadas. A cor daria margem a falsos conteúdos metafóricos, quando o que importa são outras implicações, mais conceituais: o volume das formas sobre as telas, o jogo entre figura e fundo, vazio e cheio, centro e periferias da superfície. Mas a espessura desses corpos acaba criando uma informação adicional, ou que ao menos assim pode ser sugerida: são confusos, perturbados, aludem a uma vivacidade da matéria, que escapa às formalizações rígidas determinadas pela linha.Essa relação, entre a figura e o material que a compõe, deve ser equacionada ainda com o fundo, a tela, de onde decorrem múltiplas relações. Mas é a “falta de controle” do material que compõe as formas que me interessa aqui: talvez seja essa a “paisagem” dos desenhos de Serra, similar às cidades onde ele aplicou suas obras site-specific. Pois o site-specific propõe operações ao corpo e ao olhar, desmontando relações costumeiras com pontos da cidade, ao mesmo tempo em que procurando mediá-las. Mas à paisagem, e ao corpo que a percorre, resta ainda o movimento indeterminado, o tempo e espaço modulados de forma imprevisível. O contraponto às áreas determinadas pelos desenhos, às operações conceituais que equalizam o olhar, parece ser o aspecto febril da matéria sobre a tela.