Poemas solares de D.H. Lawrence

Tradução de Filipe Völz

Mais conhecido pelo famoso romance O Amante de Lady Chatterley, obra censurada em sua época (conferir nesta postagem o poema “Censores”), David Herbert Lawrence também possui significativa produção na poesia e na pintura expressionista. A obra poética de Lawrence é marcada por uma liberdade de estilo que faz muitas vezes seus poemas não parecerem com poemas, mas aforismos ou pequenas notas enciclopédicas. Pelos títulos de suas poesias é possível ver que Lawrence possui um teor catalogador da realidade, procurando descrever, a seu modo, diversas entidades do mundo, como animais, classes, sentimentos, lugares etc.
Pansies (1929) é o livro que contém a sequencia de poemas aqui traduzidos. É possível ver uma forte influência de Nietzsche na “ontologia social” que Lawrence propõe; o poeta, no entanto, transita entre a forte hierarquia dos homens em relação a afirmação da vida (representada pelo sol) e uma motivação democrática forte. O imanentismo e a adoração lúcida da existência natural ressoam uma certa retomada do paganismo, recorrente em autores da época, e que em Lawrence já estava presente no famoso romance.

d h lawrencce

Espaço

O Espaço, é claro, é vivo
eis porque se move;
e é isso que o faz eternamente espaçoso e descompacto.

E em algum lugar ele possui um coração selvagem
que envia pulsos mesmo através de mim;
e eu chamo-o de sol;
e me sinto aristocrático, nobre, quando passa por mim um pulso
do coração selvagem do espaço, que chamo de sol dos sóis.

Homens-sol

Os Homens devem agrupar-se em uma nova ordem
de sol-homens.
Cada um direcionando sua respiração direto para o sol dos sóis
no centro de todas as coisas.
e de seu próprio pequeno sol interior
acenando para o maior.

E recebendo do maior
sua força e seus sussurros,
negando os sussurros mesquinhos da fraqueza
humana.

E caminhando cada qual em sua própria glória solar
com pernas brilhantes e nádegas não-servis.

Mulheres-sol

Como seria estranho se algumas mulheres tomassem a frente e dissessem:
Nós somos mulheres-sol!
Não pertencemos nem aos homens, às nossas crianças ou mesmo à nós mesmas,
mas apenas ao sol.

E como é delicioso sentir a luz do sol sobre uma delas!
E como é delicioso! abrir como uma calêndula
quando um homem examina uma delas
com o sol em sua face, de modo que uma mulher não pode mais que abrir
como uma calêndula para o sol,
e excitar-se com seus raios brilhantes.

Democracia

Eu sou um democrata na medida em que amo o sol livre nos homens
e um aristocrata na medida em que detesto pessoas possessivas, de estômago estreito.

Eu amo o sol em qualquer homem
quando o vejo entre suas sobrancelhas,
claro, sem medo, mesmo que minúsculo.

Mas quando vejo estes homens de grande sucesso,
tão hediondos e cadavéricos, totalmente sem sol
como rústicos escravos bem-sucedidos rusticamente bamboleantes,
me torno mais que um radical e quero usar uma guilhotina.

E quando vejo trabalhadores
pálidos e maldosos e insectóides, correndo como ratos
e vivendo como piolhos em centavos,
nunca olhando para cima,
desejo então, como Tibérius, que a multidão tivesse apenas uma cabeça
para que eu pudesse cortá-la fora.

Acho que quando as pessoas se tornam totalmente sem sol
elas não deveriam existir.

Aristocracia do Sol

Para ser um aristocrata do sol
não é necessário que um socialmente inferior te exalte;
Você colhe sua nobreza direto do sol;
deixe os outros serem o que quiserem.

Eu sou o que sou
através do sol,
e os outros não são minha medida.

Talvez, se começamos direito, todas as crianças possam crescer solares
e aristocratas-sol.
Não precisamos de defuntos, escravos do dinheiro e vermes sociais.

Consciência

Consciência
é apercepção solar
e nosso instinto profundo
de não se opor ao sol.

A Classe Média

A classe média
é sem sol.

Eles tem apenas duas medidas:
a Humanidade e o dinheiro;
Não possuem de modo algum referência ao sol.

Assim que se deixa as pessoas serem sua medida
você faz parte da classe média e se torna essencialmente não-existente.

Porque, se a classe média não tivesse os pobres para ser superior
ela colapsaria de uma vez só na inferioridade de classe.

E se também não tivesse as classes superiores para ser inferior,
se tornaria nada.
Pois a classe média é apenas uma ficção separando duas realidades.

Sem sol, sem terra,
nada que transcenda a medianidade burguesa,
a classe média é mais inexpressiva
que dinheiro em espécie quando o banco faliu.

Imoralidade

Só é imoral
ser morto-vivo
sol instinto
e se ocupar tirando o sol
de outras pessoas.

Censores

Censores são pessoas mortas
postas para julgar entre a vida e a morte.

Pois nenhum homem vivo, iluminado seria uma censor;
ele simplesmente riria disso.

Mas censores, sendo homens mortos,
tem uma visão severa da vida.

-Esta coisa está viva! É perigosa. Desfaça-se disso! –
E quando a execução é encenada
se ouve a respiração estertorosa, farisaica dos
homens mortos;
os censores, respirando aliviados.

A Imagem do Homem

Que pena, quando um homem se olha no espelho
não late para si como um cão,
ou afofa-se com fúria indignada, como um gato!

Que pena que ele veja a si mesmo tão magnífico,
pouco abaixo dos anjos!
e tão interessante!