A voz de Kafka em La Metamorphose de Levinas

Por Filippi Fernandes.

Desde o surgimento do Cinema, ou melhor, desde tempos imemoriais, o desejo em tornar visível o invisível das sensações é uma prática constante. Quando os “curtos-circuitos” aparecem, como disse o cativante escritor polonês Bruno Schulz, não há escapatória: os sentidos grelam, gerando atualidades descoladas até da disputa interpretativa. Mas deixarei o olho, essa tão sofisticada e ocidental porta de entrada, em paz, para esvoaçar nas abas do ouvido (ou quase isso). Consegue imaginar uma adaptação da única novela finalizada e publicada por Kafka em vida, para quatro barítonos, um contra-tenor, um contralto, uma soprano e um mezzo-soprano, seguido por uma orquestra sinfônica? O compositor e pianista francês Michaël Levinas conseguiu esse feito, com grande alarde na Europa, em 2011.

Não é a primeira vez que a obra de Kafka é adaptada. O compositor Alfred Schnittke, por exemplo, rendeu várias homenagens em peças musicais pequenas, György Kurtág compôs inspirado nos fragmentos, espécie de “rastros de luz” cunhados pelo escritor tcheco. Philip Glass atualmente está trabalhando numa ópera sobre “O processo”, ideia similar a de Poul Ruders que a realizou em 2005. Para minha surpresa e encanto, esse kafkanismo não é inteiramente oriundo dos anos 60. Segundo o profuso Baker´s Biographical Dictionary of Musicians, já em 1948, o italiano Bruno Maderna experimentou verter “O processo” para soprano e orquestra (um exercício, diga-se de passagem, muito apreciado pelos românticos oitocentistas, especialmente pelos alemães – lembremos de Wagner ou de Nietzsche).

A atmosfera carregada e desesperadora na obra de Franz é um espaço a ser desfiado fio contra fio. E foi com os pensamentos em punhos que Levinas prestou homenagem a seu pai, o filósofo Emmanuel, desafiando as reticências contemporâneas na elaboração daquilo que se configuraria como sua terceira ópera. Três anos de pesquisas misturados às experimentações forjadas na ópera anterior (“Os Negros” de Jean Genet) dariam vazão às ideias: expressar a metamorfose pelo modo como a transição se dá “de um momento para o outro, de uma cena para a outra, de um significado ao outro”. O que parte? O que fica?

Haverá uma lenta metamorfose da voz, que irá também ser processada em um mix híbrido de tecnologia digital e instrumentos musicais. Não será uma questão de imitar o uivo dos animais e sim usar os princípios híbridos que eu comecei a desenvolver na minha ópera anterior (1).

Creio que desde os leitmotivs wagnerianos, o espaço engessado da ópera italiana direcionada ao belcanto, é implodido, complexificando os elementos dramatúrgicos. A ópera proporcionaria “os princípios híbridos” pela capacidade de deformação da narrativa e da cronologia. Talvez a mera orquestração das sensações numa linguagem musical e sonora possa interessar mais ao campo que a gerou, enquanto a ópera, por se tratar de uma encruzilhada de linguagens distintas (teatral, musical, cinemática), consiga respirar uma carga com o fundo estético mais politizado… Mas isso é uma reles divagação.

Início da peça-ópera: à beira do despertar, qualquer movimento, por maior que seja, é leviano e esmaece. Mas há um tempo em que a consciência chega como que revelando urgentemente uma fatalidade, para além da mera necessidade fisiológica. É aí que o monstruoso do nome ressurge assombrando possíveis despesas com aquilo que não se pode esquecer. O acerto de contas é vagaroso e cruel à medida em que a descoberta se imiscui ao reconhecimento. É o começo da voz de Gregor Samsa: estranha, asquerosa, “imiscuída, como se viesse de baixo”, segundo a tradução de Modesto Carone, tal qual vitrola antiga projetando sons inacabados, por conta de baixa voltagem.

Gregor Samsa não funciona: ronrona, chia. No lado de fora, o mundo também agrilhoado em solilóquios profundos. A voz do pai babando intolerância pelos cantos da boca por trás da débil mãe com voz de quem anda sempre de camisola branca na mais plena impotência e que roga para a normalidade de um trem que apita e ameaça desajustar uma estrutura familiar. A irmã, cretina, sobretudo. No entanto, Gregor quer apenas respirar o corpo, naquele momento, para evitar o susto e a culpa. Desmazelo é a palavra para a rouquidão. Escuta-se o instante, por onde todos esperam com seus respectivos punhais…

Quando a porta se abre, nada resta fazer senão açoitar o farelo de esperança consagrada, com ira e asco até a crucificação final de um Gregor que já não suporta mais gritar por sua existência no quarto reduzido a cinza. Ele mais vivo que o próprio coração. No fim, a rejeição de um corpo por onde um indiferenciado ruído do cotidiano chega e se apossa, naquela naturalidade típica que só os veículos motorizados entendem, na calada da noite.

Toda uma atmosfera pra lá de cruel, como a novela. Como ouvinte, posso dizer que o experimento de Michäel Levinas foi um verdadeiro sucesso. Fica aqui o convite.

(1) trecho da carta de Michaël Levinas a Valere Novarina. A versão completa pode ser lida aqui: http://www.ictus.be/metamorphose (em inglês) – tradução minha.