Carta fictícia para uma ex-guerrilheira

Por João G. Paiva.

Rio de Janeiro, maio de 1976

As últimas notícias pareciam como se tivessem botado uma rolha no meu pulmão, tive que ir correndo até a janela e depois respirar fundo. Sinto saudades de você, pequena, estamos tentando reerguer tudo, desde o começo, e em todo momento que minhas pernas cedem, quando acho que não será mais possível, que não vai dar, eu ouço você apertando as minhas mãos e falando comigo naquela tarde em Santiago, no banquinho da Adolfo Ossa. Você sempre foi o nosso norte e a nossa justificativa pra tudo. Mesmo no amor, quando a gente ainda estava no colégio, e você caminhava por horas todos os dias, pra chorar sozinha pelas ruas e soluçar sem pressa, hoje sei que no alto do Estácio, enquanto nenhum de nós sabia onde te encontrar, mesmo no amor, você foi a mais entregue e a mais verdadeira de todos nós. Eu não nego o seu desespero nem o seu desgosto. A verdade é que estivemos nadando essa lagoa escura há tanto tempo, por tantos dias, que é de admirar como a gente não cedeu nada, nem na segunda nem na terceira vez, onde a gente enfrentou aqueles dias imundos, apertando os caninos numa certeza de pedra. Não entregamos ninguém. E agora que você está aí, de volta à universidade, podendo ler os seus livros, passear nos cafés, você se deu conta do pântano em que nos metemos, que mesmo nós, eu, você, o Dudu, a Lisa, a Dorinha, estamos enterrados de lama e de lodo nas mãos. Mesmo nós, pequena. Um pensamento que nunca esteve distante de mim e que não me repugna. Quem poderia negar que já estive a salvo um dia? Assim como você esteve. Deixamos tudo para trás, feito numa fuga, enquanto vinham as perseguições, as derrotas, até mesmo o Che… mesmo o Chile… quando achei ter encontrado uma nova casa. Nós renunciamos a tantas coisas, Myrian, por que ao remorso também, não dirigimos um pensamento de renúncia? Por mais longe que tenhamos sonhado antes, muito antes de tudo ter início, por mais longe que tenhamos ido, nada pode modificar que nascemos, os dois, em 1944 e 1945.

“Ah, os que quisemos preparar terreno para a bondade/ não pudemos ser bons”, você nunca notou, não é? Você desviava a cara e fingia que não era com a gente. Quando Bert escreveu isso ele estava embrulhando com força o papel, com esse poema nas mãos, com toda força, e arremessando no espaço, onde ele deve ter sentido essas galáxias incógnitas, que flutuam no breu do breu, e então ele disse para o tempo futuro “lembrai-vos de nós/ com indulgência”. Mimi, eu sei que o amor não saiu exatamente como você previa, quando vocês pegaram o avião pra Bélgica, sei que as lembranças ruins não foram serenizadas pelo tempo, porque também não foi assim comigo. Mas sei que agora nós alcançamos uma compreensão, um sentimento de tudo, e que me faz hoje, com 31 anos, pensar naquela garotinha de 21, 22 anos, e ouvi-la ainda mais atentamente do que eu ouvia na época. E perceber que as nossas palavras trocadas, tão docemente, tão ingenuamente, naquele tempo, elas estão mais robustas, mais sábias, e mais rejuvenescidas do que nós. Elas são o que nós temos. Nenhuma solidão miserável em Berlim ou onde quer que seja tem qualquer chance contra elas, Mimi, ditas, como foram, inscritas no tempo e imprimindo seu selo nas nuvens.

Esta carta fictícia é inspirada em histórias reais e principalmente na história de Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dodora, militante da VAR-Palmares, que acometida de várias crises, como consequência de prisões e perseguições sofridas pelas ditaduras latino-americanas, suicidou-se em Berlim em junho de 1976. A carta é a tentativa de um amigo íntimo tentando reavaliar o passado e convencê-la a desviar os rumos que parecia tomar. Algumas cenas da ex-guerrilheira e de outros exilados no Chile podem ser encontradas neste documentário feito na época, dos norte-americanos Haskell Wexler e Saul Landau.