Morreu, aos 83 anos, o poeta Tomas Tranströmer

Por João G. Paiva.

Mas isto não é um necrológio de Tomas Tranströmer. Alguns anos atrás peguei numa biblioteca seu único livro em prosa As minhas memórias observam-me, li com tranquilidade e não tive muito com que me espantar. Não possuo esse livro. Minha memória talvez me traia. Ele deu toda ênfase ao tempo da infância e da adolescência, tinha um professor de latim, um professor old school cheio de ódio pelos poetas modernos, que transmitiu ao jovem Tranströmer um insistente carinho por Horácio. Dois anos depois, quando soube que o seu aluno-pupilo andava escrevendo poemas surrealistas, ficou tão frustrado que brigou e rompeu relações. Nesta última semana também morreu Herberto Helder, o poeta português que fugia dos noticiários e dos prêmios. Tranströmer era recluso, mas aceitou o Nobel. As perdas, infelizmente, não param por aí, nós perdemos Manoel de Barros e Ivan Junqueira. Se voltarmos para 2014, já de início, morreu o grande argentino Juan Gelman. Foi um ano catastrófico. Indubitavelmente. Melhor não darmos mais nenhum passo para trás porque, ainda tão perto, em junho de 2012, morreu Wislawa Szymborska. E o misterioso nisso é a estranha duplicidade da morte dos poetas. Porque os poetas são habitualmente bastante preocupados com a morte, seus versos, frequentemente, são lacônicas e meditadas conversas com esse pensamento obscuro. Poetas conversam tanto sobre ela que às vezes nos iludimos achando que nunca morrerão. Isso depende do nosso humor e da nossa esperança do momento. Porque às vezes também nos surpreendemos com a morte de um velho poeta cuja existência não dávamos conta – ele parecia estar morto há muito tempo! há anos! possivelmente décadas, até mesmo séculos. O que sentir quando morrem os poetas? Se passam a vida inteira conversando com a morte, sem nunca convencê-la a mudar de planos. Mas o monólogo interminável é capaz de causar aquela impressão inversa, a de que falaram tanto e por tanto tempo do assunto que, afinal, já pareciam ter morrido antes mesmo de nós nascermos. O livro de Tranströmer me volta à mente. Tento pensar no jovem sueco de dezoito anos, cheio de metáforas de neve em seu coração, imagens que se alastrariam por todos aqueles poemas ágeis, ainda mudos, ainda desaparecidos do mundo. A morte tem a duração de um fôlego. A música dos poemas não redime ninguém, quando um poema dá certo não acontece nada. É como se o mundo continuasse rodando o seu eixo, tranquilamente. É como aliás o mundo em geral se comporta quando morre um poeta. Mas por que Tranströmer iria querer outra coisa? A poesia só precisa que o mundo siga o seu curso, não precisa detê-lo. Ele gostava de comparar paisagens de neve com “páginas em branco dispersas em todas as direções”. Ele se foi, elas continuam lá, nós aqui, com mil versos por fazer. E isso eu me peguei pensando enquanto lia os poemas surrealistas do jovem Tranströmer, mas poderia ter sido com Herberto Helder, Szymborska, com Horácio. Porque o tema dessas montanhas de verso não é a morte, afinal. É um fôlego, a vida. Naturalmente.