Ed Motta: Vida e Obra

Por Uiliana Ilza Zanon.

Não seria nenhum (nenhum) exagero se referir à obra de Ed Motta como uma caspa no terno velho da História. Daqui a 20 anos ou menos a História vai soprá-la pro esquecimento e nossos netos saberão de Ed tanto quanto nós sabemos de… Bom, ninguém me vem a cabeça (ninguém).

Ed Motta começa sua carreira com um disco chamado Ed Motta e Conexão Japeri (1988), cuja primeira faixa é “Manuel”. O disco é absolutamente popular, e chega até a ser bom. Apesar da pompa “vinho & europa”, só haveria pompa com os royalties de “Manuel”, “Colombina” etc. Ed esnoba, mas deita a bunda obesa num montinho de grana financiado pelo povo sem cultura que considera seu nêmesis pessoal.

Ed é jazzeiro, mas musicalmente é uma letra numa sopa de letrinhas que a História devora sem ler. Ele diz que tenta se livrar do estigma de “Manuel”, mas faz comercial de tv, quando dá, e participação em reality show musical da Rede Globo, que contribui gordamente pro que tem de pior na música brasileira que é a produção industrial de Whitney Houstons que plasma todos os gêneros, timbres, técnicas diferenciadas em uma mesma coisa pasteurizada com gosto de plástico e carregada no sódio. Apesar de Ed não ser ele mesmo parte disso, já que tem uma voz linda e apurada, seu estilo de canto já é uma decadência típica da década de 90. Desde Aretha Franklin, quando o gospel entrou no pop, é possível notar uma progressão exagerada dos princípios do canto emotivo do gospel americano. Onde se construía empatia pelas histórias bíblicas através de um canto emocionado, que na canção preservava com cuidado cada sílaba até o último instante. Na década de 80 e, principalmente, 90 esse estilo decai numa masturbação simplória da sílaba, produzida em larga escala, em diversos cantores e grupos que agora disputam olimpicamente quem vai berrar mais alto, mais forte, com mais emoção fingida. Música se transforma em esporte, as letras decaem demais, tudo se transforma no germe disso que hoje a gente chama de música mainstream, ou pelo menos no pior que essa música pode gerar. Ed com certeza não é o mais desgraçado exemplo que esse maneirismo de um estilo pode gerar, mas por certo não está entre os melhores; se sobressai num lamaçal, mas nunca o suficiente pra chegar até a terra firme.

É por isso que a História, essa Vênus das Peles cruel, vai continuar seu passo esnobe sem saber quem é Ed Motta, por mais que ele tente chamar atenção com uma ou outra declaração infantil, com um ou outro chilique despropositado; a casca do “grande artista”, mas sem nada (nada) por dentro. E é claro que Ed responde que o jazz não rima com a fama, que a lógica do “grande artista” não teme o esquecimento, porque o que é bom é pra poucos. E é claro que as grandes referências de Ed são figuras eternas, os preferidos da História, essa Madona das Rochas acolhedora, como Miles Davis, Coltrane, Corea, Zappa, o Steely Dan (esplendidamente radiofônico),  Tim Maia (preferido dos pedreiros), Gismonti, Pascoal, todos nomes que, em menor ou maior grau, serão reconhecidos por uma vasta gama de seres humanos durante ainda séculos e talvez milênios, dependendo de onde o capitalismo nos levar. Podendo espernear o quanto quiser, Ed não consegue esconder o intenso desejo de ser grande (um psicanalista diria que o seu inconsciente, pela incapacidade de realizar de fato o desejo, responde a ele realizando-o fisicamente), exemplificado nas sua referências e na sua pompa. Seu tio Tim, mesmo afogado em cocaína, droga que, segundo Elke Maravilha e experiência própria, dá ao usuário uma significativa sensação de poder – ainda por cima, Tim mesmo era dono de efetivo poder,  trazido pelo seu sucesso de público e crítica – nunca infligiu o peso desse poder nos elos mais fracos. Nunca tentou se sobressair destratando os destratados, os oprimidos, aqueles que não tem “cultura” porque a cultura não é uma condição de espírito, mas de economia política. Seu alvo sempre foram as grandes emissoras televisivas, as grandes gravadoras, os outros supostos grandes artistas, tão cheios de si que tornaram seu espírito inflado, flácido, gordo.

Tim era um síndico que brigava com o proprietário em prol dos moradores, e com os moradores em prol dos funcionários. Era um síndico sindical, mas não quero inventar com isso um Che Guevara do Soul que nunca existiu. Em 1975 escreveu um verso: “Quem aprendeu não sabe nada”. Quando seu sobrinho começou a “estourar”, o tio escreveu:

“Meu sobrinho Ed Motta, que eu vi nascer, dei violão, dei microfone para ele brincar. Daí a pouco o cara ficou besta pra caramba, nem fala mais comigo. Se deixar, ele manda o Tim Maia pra casa do cacete e me apaga. Ele não quer ser o sobrinho do Tim Maia, ele quer ser mais do que o Tim Maia — nada dessa história de continuar amigos e parentes. Levou meu conjunto pra tocar com ele, inclusive um músico que estava comigo há 10 anos. Só que este já está louco pra voltar porque acha que meu sobrinho não está com essa bola toda. Bem que eu avisei ao menino: ‘Vai devagar, que isso é só uma explosão’. Acho que a explosão dele já deu o que tinha que dar. Gravadora é a maior ilusão. No começo, é retratinho na parede, aquele cheirinho de limpeza e, depois, é puro escravagismo, tipo Sargentelli [o empresário da noite Oswaldo Sargentelli].”