Blow a kiss, fire a gun

Por Uiliana Ilza Zanon.

“OUT NOW! THE OFFICIAL MUSIC VIDEO FOR “LEAN ON” Major Lazer &DJ SNAKE FEAT. . INSPIRED BY THE PEOPLE, CULTURE, AND WARMTH WE EXPERIENCED IN MUMBAI”

Com essa mensagem em seu Facebook, a cantora dinamarquesa MØ lançou o seu novo clip de tecno-pop, Lean On. Segundo sua página, o “vídeo oficial’ foi inspirado pelo povo, pela cultura e pelo calor, pelo carinho do povo de Mumbai (Bombaim), na Índia, onde ele foi gravado. Bastam alguns segundos do vídeo (de qualquer parte dele) pra se entender o que significa a inspiração para os industriais da cultura, que são norte-americanos, mesmo que não nasçam nos E.U.A.. Nesse sentido, “Lean On” não é nada mais que mais um exemplo claro de uma prática comum.

Os vídeo-clips no geral são obras Kitsch que neutralizam imagens completamente ridículas com uma música envolvente. É simples enxergar isso: basta assistir um clip sem o som.  Isto é a condição própria do clip, e não é necessariamente sempre uma experiência medíocre. Existem clips fantásticos, alguns deles pelas razões do cinema; hoje em dia, porém, a maioria dos bons clipes não são bons mini-filmes, mas bons clipes mesmo. Assim acontece porque o futuro do próprio cinema é o video-clip, como já mostram filmes como o franco-canadense “Mommy”. Não há muito pra onde fugir, por isso é necessário se reapropriar dessa estética.

De qualquer modo, a estética é um assunto à parte. É o significado de “inspiração”, para os americanos, que assusta de verdade. É uma aula prática sobre globalização assistir um vídeo desses. Mumbai é filmada em seus sítios ancestrais, palácios, templos, e partes periféricas das novas cidades, com construções ainda inacabadas. Tem cavalos, ônibus, e pessoas estereotipadas. Se fosse filmado no Brasil, seria como se todas as pessoas na rua andassem com aquelas roupas de carnaval na Sapucaí. Mas o que é de fato assustador é que os templos históricos e a cidade são usados como uma grande boate temática. Lembra muito mais Las Vegas que Mumbai. MØ e seus comparsas, três homens que possivelmente compuseram a música e nunca tiram seus óculos escuros (parecem três cafetões), ficam olhando pra câmera e se balançando como bonecos, se sentindo em casa.

Quando a América visita qualquer lugar, ela nunca sai de casa. Um parasita não toma consciência do organismo que utiliza para sua sobrevivência. Em todo o ser que parasita, busca uma mesma coisa: o combustível para a sua própria existência. Precisa plasmar à sua própria condição tudo aquilo com que se relaciona. Quando termina, o que sobra daquele organismo é uma casca que se assemelha a tantas outras, a casca de algo que um dia foi rico, múltiplo, vivo.

Depois da teoria da evolução, se diz que o seres que se adaptam melhor sobrevivem mais. Isso pode ser verdade em um cenário vivo, cheio de possibilidades. Mas em um cenário apocalíptico, onde as possibilidades vão à zero, onde não há nada para parasitar, quem sobrevive é o tardígrado (ou urso-d’água). Algumas espécies se mantém por milênios, mas outras, como a o do tardígrado, duram eras. A Terra sofreu ao menos 5 apocalipses durante toda a sua existência. As criaturas que sobreviveram a todos esses apocalipses são os verdadeiros Senhores da Vida. Sua pedra filosofal não é adaptação, mas auto-sustentação. A quase completa falta de necessidade do mundo externo.

Com um mundo de cascas vazias, o que vai restar pra ser parasitado? O sistema vai ter de abandonar a tática do parasita e adotar a do tardígrado. Em um surto de esquizofrenia universal que vai durar pra sempre, o sistema não vai mais diferenciar o outro de si mesmo. Voltando a música pop…

…o próprio nome MØ já é uma estilização de uma visão de fora sobre a Dinamarca, com suas letras estranhas e mulheres pálidas. Como Shakira, ela é um produto de exportação. Mas será que existe algo que já não seja assim hoje? Nós produzimos um vídeo num quintal e no dia seguinte ele pode estar passando num apartamento no Sri Lanka. Na verdade, junto com toda a informação distribuída pelos satélites, ele sai do planeta  e começa a emanar pelo espaço. Um dia, quando só os tardígrados e o capitalismo existirem em uma Terra-cemitério, vai chegar até os limites do universo observável, quem sabe encontrando no caminho as ruínas de outro cemitério ancestral, o planeta original de uma raça inteligente que descobriu o capitalismo, e de onde surgiram os tardígrados.