Não pude me despedir de Galeano/ O Sal da Terra (2015)

Por João G. Paiva.

Em termos de escritor, Galeano nunca foi de grande vocação, como foram seus conterrâneos Onetti e Benedetti. Não escreveu um romance genial ou alguma poesia genial. Seu legado não é um legado artístico. Ou melhor, seu legado não é só artístico. Se assim fosse, não sobreviveria. Galeano estava preocupado demais em fazer parte do mundo para sumir, não dar notícias, e escrever um romance que o ligasse ao mundo. Nasceu e morreu no Uruguai, morou em Buenos Aires e em Madrid. Hoje, 2015, quando assistimos impotentemente a morte de Galeano, somos obrigados a perguntar sobre ele. Sabemos que viajou toda América Latina recolhendo relatos para escrever. Era movido pelo desejo de uma contraofensiva histórica, em duas frentes, pelo passado, ao tentar recontá-lo, pelo futuro, ao tentar reconstruí-lo.

Sebastião Salgado, cujo documentário a seu respeito, O Sal da Terra , foi lançado este ano, está vivo, em Paris, e pertence à mesma geração. Quando ambos nasceram, nosso mundo estava na mesma guerra (1940 e 1944). Sebastião, criado no interior de Minas, numa fazenda, mudou-se adolescente para Vitória (ES). Depois exilou-se, na ditadura. O documentário de Wim Wenders+Juliano Salgado traça a biografia de forma linear. Por isso é politicamente perigoso. Se eu fosse o montador do roteiro, deslocaria o reflorestamento da mata atlântica para antes do genocídio em Ruanda. É uma destino muito velho, cômodo e europeu diagnosticar todo fracasso humano diante da África e, depois disso, voltar-se para o meio ambiente. Que faremos com a África? O filme pode sugerir: choque, comoção, dor, pensamentos sobre a condição humana, desespero e a necessidade de esquecer logo essa cadeia de impressões.

O que Sebastião Salgado tem a ver com isso? Pouco. Wim Wenders também, talvez. Se não teria escolhido outro título. Porque, para ambos, “as pessoas são o sal da terra”, apesar de tudo. Qual a história de Sebastião Salgado? É a história de um fotógrafo que caminhou, sofreu, comeu e dormiu com os desgraçados, assistiu as grandes misérias da época, solitariamente, acompanhado de uma câmera. Não apenas. É principalmente a história de como isso, visto por suas lentes, transformou a ele próprio. Sempre que retornava à fazenda de Minas, de anos em anos, já não era o mesmo. “O sofrimento que viu”, diz Wim Wenders numa parte do filme, “havia-o transformado”. Mas tanto sofrimento não é feito para um indivíduo suportar sozinho, apenas um Deus poderia assistir horrores assim sem sucumbir. A decisão de voltar à Minas e reflorestar a Mata Atlântica não é uma cômoda virada político-artística, mas um exercício de sobrevivência.

Eduardo Galeano tinha um problema fundamental com a literatura, ele tinha medo, em tempos de crise, da ambiguidade das palavras. Porque a indefinição costumava se parecer muito com a mentira. Sebastião Salgado não buscou histórias, nem, de maneira frontal, disputou a escrita do passado ou do futuro. Caminhou sobre o árido presente, conquanto, quase nunca, tivesse ideia do que era aquilo, além de “árido” ou “presente”. Sua obra fotográfica é muda quanto às palavras, e ele próprio não consegue narrar qualquer história com emoção à altura do que suas fotos representam. O sofrimento que testemunhou está em silêncio e guardado nas rugas, olhos, mãos, bocas e cenários em preto e branco que registrou. Galeano possui o contrário, nenhuma imagem ou esboço de imagem, apenas palavras, a imensa rede de histórias e o sopro autoral capaz de animá-las.

“Que capitão é este, que soldado da guerra do tempo?”, perguntam numa peça antiga de teatro. Para que rumos estamos indo? A luta de Galeano contra a história também o transformou pelo caminho. Tinha medo de que as novas gerações da esquerda repetissem os mesmos erros.

O que foi feito sobre o genocídio de Ruanda enquanto cresciam as árvores da Mata Atlântica recuperada? Isso não diz respeito a Sebastião Salgado, sabemos que ele sobreviveu. Isso diz respeito a nós. Por mais digno que tenha sido o trabalho do fotógrafo, ele nos leva a uma lição: virar espectador solitário do sofrimento do mundo, com o tempo, torna-se, simplesmente, uma luta contra a autodestruição.

Não pude me despedir de Galeano, ainda não li a Memória do Fogo, trilogia da América. Ainda estou em dívida com a história que ele quer recontar. Quando eu ler e terminar de ler, eu vejo se me despeço do cronista del Sur – para quem a humanidade também era o “sal da terra”. Por enquanto ainda ouço essa voz, treinada na rua, cheia de ânimo, cansaço, expectativa, mágoa, dor, utopia. São 6:17 da manhã e acabo de abrir o jornal. Se você abri-lo, como eu fiz, para um pouco. Espera. Ela também não te parece audível?

Fotografias de Sebastião Salgado salgado1 salgado2 salgado03