Wardaddy, Carrie Matthison e o que eles nos dizem sobre gênero e guerra em 2015

Por Thais de Bakker

A hipermasculinidade das guerras e conflitos é um tema que muito vem sendo discutido por diversas vertentes de literatura feminista de relações internacionais. Situações de conflito tipicamente geram não apenas uma lógica opositora entre o eu e o Outro, aqueles que são bons e aqueles que são maus, como também uma oposição interna entre aqueles que protegem e aquelas que cuidam. Em 1984, dentro do contexto da Guerra Fria, Jean Bethke Elshtain apropriou o conceito Hegeliano de “Bela Alma” para representar o estereótipo de feminilidade com relação à guerra, estereótipo este que é exaustivamente explorado em propaganda, mídia e arte. Segundo Elshtain, o imaginário coletivo é povoado pela ideia da mulher que atua sobre o espaço privado, acima de tudo mãe e cuidadora de um lar que, no contexto da guerra, torna-se a nação. A oposição a esse estereótipo seria o “Guerreiro Justo”, a personificação da masculinidade que domina o espaço público e é responsável por proteger os seres mais frágeis de sua espécie contra ameaças externas que possam atacar seu lar/nação. Soldados são Guerreiros Justos por excelência. À mulher, é delegada a manutenção interna da nação, o cultivo da próxima geração e os cuidados aos soldados que irão protegê-las.

A guerra é um dos temas preferidos do cinema – especialmente nos Estados Unidos, que domina o setor e onde é garantida a presença de pelo menos um filme sobre guerra em cada Oscar – e o uso desses estereótipos, das mais variadas formas, é bastante comum. A figura do herói de guerra é notoriamente conhecida (e masculinizada em sua essência). Ainda este ano, foi lançado Fury, uma superprodução dirigida por David Ayer e estrelada por grandes nomes de Hollywood, que foi sucesso de bilheteria. O filme se passa em zonas de guerra na Europa durante a Segunda Guerra Mundial e acompanha um grupo de soldados Norte-Americanos em batalha, inclusive um novato chamado Norman Ellison que, ao longo do filme, vai se transformando de uma pessoa tenra e pueril, que vomitou ao limpar uma cena grosseira de violência, a alguém que sente prazer em matar com uma metralhadora de dentro de um tanque de guerra. Muito pouco se fala sobre a vida e a história de cada um dos soldados fora daquela guerra, e há muito pouca profundidade de roteiro – a maior parte do filme se passa em batalhas, com cenas explícitas de violência, sem muitos elementos que remetam a um propósito maior. O ponto é que a guerra define os homens. Existe um total de duas personagens mulheres no filme, que aparecem durante pouquíssimo tempo com uma quantidade mínima de falas, e que não possuem qualquer contexto ou profundidade, figurando exclusivamente como vítimas e/ou distrações para soldados.

As personagens são duas parentes alemães, que moravam em uma pequena cidade tomada pelos soldados norte-americanos e viram sua casa invadida por Ellison e por um soldado mais velho, Don Collier, em uma atmosfera tensa que sugere a todo o tempo a iminência de um estupro. Conforme a cena se desenrola e as ordens de Collier vão se destinando apenas a obrigar que as mulheres sirvam comida para os soldados, a sensação das personagens e de quem acompanha a cena é de alívio e mesmo gratidão pela pequena misericórdia do não-estupro. De forma no mínimo inverossímil e no máximo engraçada, a mulher e o soldado mais jovens rapidamente se apaixonam através de interações não-verbais com olhares e uma canção no piano, e acabam indo para o quarto e tendo relações sexuais. Depois disso, ela morre.

Todo o filme é a mais pura demonstração de violência, e as únicas mulheres têm sua presença como um mero recurso, ou para adicionar uma adversidade à vida de Ellison, ou para afirmar certa humanidade a Collier, que não cometeu estupro e não permitiu que elas fossem estupradas por outros, engrandecendo caráter e tornando esses soldados mais simpáticos ao público. O elemento do estupro que não aconteceu é o suficiente para colocar os soldados Norte-Americanos como violentos até o ponto necessário, mas sem cruzar a fronteira com o bárbaro, porque deve sempre haver certa superioridade moral com relação ao Outro que é inimigo (o soldado alemão). As mulheres cumprem o papel do objeto necessário para traçar a linha delicada entre o Guerreiro Justo e o bárbaro; o dominador justificado/bom e o dominador violento/irracional/mau.

Não é o caso afirmar que o papel reduzido e instrumental das mulheres nesse filme se dá devido ao fato de que mulheres não participavam de guerras no século XX, porque mulheres participavam de guerras das mais variadas formas, desde enfermeiras em frontes até prostitutas nos acampamentos. O ponto é que esse filme é apenas mais uma demonstração de uma história que é sempre contada através da perspectiva dos homens e da masculinidade estereotípica, vez atrás de outra, reforçando fronteiras entre o feminino e o masculino e a ideia de que o homem é violento (se não for de nascença, com o contexto certo torna-se), que a guerra é feita para machos e vice-versa, e também que, apesar de dura, é engrandecedora, necessária ou mesmo louvável.

Não por acaso, também, o apelido de Collier no filme é “wardaddy”. Sua figura ao longo da história é mesmo paternal com relação a seus companheiros, e também à sua nação. Collier realiza o sacrifício heróico por excelência ao decidir ficar para lutar uma batalha que não poderia vencer, se propondo a enfrentar cerca de 200 soldados inimigos sozinho e impelindo seus 3 companheiros a ajudá-lo nessa tarefa. Como uma figura paternal, seu papel é proteger com mão firme, custe o que custar. No contexto desse apelido, a guerra possui uma conotação quase claramente sexual. A guerra é mulher e é um elemento que provoca sentimentos próximos àquele de luxúria, que incita o melhor e o pior nos homens, provoca agressividade e estimula a circulação de testosterona no sangue – como bem podemos testemunhar através da evolução do jovem soldado, que de averso à violência passa a entrar no mesmo êxtase orgásmico que seus colegas, enquanto atira em alemães com sua metralhadora. A guerra exista para ser dominada e controlada (como se imagina que homens devem fazer com suas mulheres em contextos paternais e sexuais) pela figura do soldado, com suas metralhadoras e tanques, marchando em direção à glória.

Desde a Segunda Guerra, o contexto das guerras internacionais vem flutuando em inúmeros aspectos. O próprio conceito de guerra, por exemplo, é o primeiro a ser colocado em xeque, uma vez que a quantidade e tipo de conflitos que vêm acontecendo mudou nas últimas décadas e a guerra contra o terror ganha todo um novo tipo de proeminência na política e nos grandes veículos de mídia e mesmo arte; análises sobre o papel das mulheres e das ideias de feminilidade e masculinidade também encontram variações de acordo com o contexto em questão; a guerra vem incluindo cada vez mais mulheres. E as representações de guerras seguem sendo um dos temas preferidos do cinema, refletindo também, até certo ponto, as mudanças que acontecem no mundo e gerando novos locais de masculinidades e feminilidades.

Homeland é um seriado também Norte-Americano, sucesso de público e crítica, que muda o foco do campo de batalha para os lugares onde é feita a mais alta política da guerra contra o terror, introduzindo como protagonista a agente da CIA Carrie Matthison, que é acompanhada pela série em sua jornada de caça à terroristas. Carrie é uma de poucas personagens femininas proeminentes em contextos de guerra e política no audiovisual popular. As primeiras temporadas de Homeland acompanham o retorno de um soldado, Nicholas Brody, que foi feito de refém pela al-Qaeda durante 8 anos, e as suspeitas de Carrie de que Brody havia sido “convertido” e estava planejando ataques terroristas contra os Estados Unidos. Carrie ocupa um cargo de poder, mas dificilmente é o que se poderia considerar “firme”: o público observa suas suspeitas quanto à Brody cada vez mais se intensificarem até o ponto de uma obsessão incontrolável e, depois disso, desembocarem em um romance entre os dois. Em dado ponto da narrativa, o espectador descobre que Carrie possuía um transtorno bipolar que escondia.

Tudo sobre Carrie – inclusive o fato da personagem ter sido escrita com um transtorno bipolar que escondia e que em certo ponto acaba saindo de controle – evoca o mais velho estereótipo sobre mulheres como seres super emocionais e sensitivos. Carrie recolhe os mínimos detalhes sobre Brody e transforma isso em uma convicção inabalável que ele estava envolvido com terroristas, chegando ao ponto de infringir a lei inúmeras vezes para espioná-lo, e em uma reviravolta acaba se envolvendo amorosamente com ele. Carrie é assombrada por seu lado emocional, que atrapalha seu raciocínio lógico ao ponto de fazer com que ela arrisque toda sua carreira. Esse lado emocional acaba também inevitavelmente levando a um romance, porque as duas coisas estão intrinsecamente conectadas.

O lado emocional de Carrie é ao mesmo tempo sua fraqueza e sua virtude, e é exatamente o que a coloca como um estereótipo feminino. Seu lado passional fez com que ela perseguisse detalhes de forma doentia mas, por ser tão detalhista, de forma quase sensitiva (como mulheres supostamente são), ela acabou na verdade estando certa. E apesar de estar certa, justamente por ser tão passional Carrie precisa o tempo inteiro da tutela de seu supervisor e chefe Saul. Ela é completamente incapaz de lidar com a pressão de um cargo tipicamente macho, ou mesmo com a pressão de ser mãe, apesar de ter escolhido esse caminho quando tudo apontava que ela não escolheria (ou sequer poderia) levar à frente sua gravidez.

Seja em representações da Segunda Guerra ou da guerra contra o terror, o cinema contemporâneo ainda segue nos oferecendo poucas alternativas aos tradicionais locais de femilidades e masculinidades em relação a conflitos. Talvez os conflitos sejam inerentemente macho e, caso disponível outra alternativa, não fossem conflitos em primeiro lugar; talvez conflitos e masculinidade sejam dois elementos que não podem ser dissociados. O que falta é um olhar voltado aos lugares da não-masculinidade nos conflitos, aos lugares da não-glória, do não-heroísmo; às bocas das mulheres compradas pelos soldados, aos olhos das mães, às mãos das enfermeiras, às agonias dos soldados que estão ali totalmente contra sua vontade, dos filhos do estupro, das vítimas e do esquecimento.