Autobots vs. Godard

Por Victor Galdino.

O blockbuster sempre foi visto por nossa tradição de esquerda de maneira extremamente negativa devido aos elementos políticos explicitamente presentes ou escondidos como em um cavalo de Troia. A reprodução de estereótipos altamente nocivos às minorias e grupos marginalizados pela nossa cultura ocidental, os elogios à política militar imperialista dos governos-corporações, a promoção ensandecida dos valores capitalistas e patriarcais, o esquecimento voluntário de outros mundos possíveis em lições morais que visam mais a manutenção do que está dado do que empoderar as pessoas para que possam pensar outros caminhos para a civilização, e por aí vai. Toda uma máquina de produção de conteúdo binarista que visa a anulação de qualquer consciência crítica através da propaganda massiva em torno do estado atual das coisas. A própria ideia de entretenimento puro e simples acaba sendo uma última defesa para proteger as práticas atuais de Hollywood em termos das mensagens que são passadas pelas suas obras. Como se isso não bastasse, a indústria cultural empreende esforços impressionantes para sufocar modelos alternativos de distribuição de cultura, especialmente os que não retornam lucros para as corporações que dominam esse setor do mercado, cujos privilégios são garantidos sistematicamente através dos mecanismos jurídicos de controle das produções “imateriais” humanas.

No entanto, essa máquina de produção cultural em forma de “entretenimento para as massas” não se move apenas pelos esforços engravatados de meia dúzia dentro de um escritório. E, apesar de associarmos obras cinematográficas a poucos nomes (atores e atrizes que protagonizam a narrativa, pessoas que fazem parte da produção ou direção etc.), centenas e centenas de pessoas participam da produção dessas obras, realizando uma quantidade incomensurável de trabalho material e intelectual (sim, é isso mesmo). “Devido ao design intrincado dos Transformers, até mesmo a mais simples virada de pulso necessita de 17 peças visíveis; cada uma das armas de Ironhide são compostas de dez mil partes. Bumblebee usa uma peça debaixo do painel frontal do tocador de áudio como sobrancelha, partes de suas bochechas giram para aparentar um sorriso, e os olhos de todas as personagens são desenhados para dilatar e brilhar. De acordo com Bay, “Os efeitos visuais eram tão complexos que a ILM levou 38 horas para renderizar um único frame de movimento”” (trecho traduzido de verbete da Wikipedia). Há um exército enorme e praticamente anônimo que desfila pelos créditos finais em letras minúsculas, responsável por abastecer esses geradores de lucros exorbitantes. E todo esse colossal empreendimento é posto em oposição a um único Homem, a uma única Genialidade, nos embates marcados pela crítica do blockbuster em nome da reafirmação dos altos valores artísticos e teóricos que estariam se perdendo devido ao efeito nocivo que grandes corporações no âmbito da produção cultural exercem na sociedade.

Enquanto esses Autores são trazidos para o campo de batalha para lembrar às pessoas da existência de algo que é vendido como radicalmente distinto do blockbuster gerado em Hollywood, a massa anônima trabalhadora continua passando desapercebida após a interrupção de uma genialidade singular para que rolem os créditos devidos às pessoas que tornaram tudo aquilo fisicamente possível. Assim, em certo sentido, Les carabiniers é mais Les carabiniers de Godard do que Transformers são Transformers de Michael Bay. Basta uma olhada nos principais trackers de arquivos torrent (como The Pirate Bay e KickassTorrents) para ver a quantidade de resultados obtidos através da busca de termos como “Michael Bay”, “Transformers” e “Godard”. Por outro lado, não podemos esquecer que esse apagamento da Autoria no blockbuster passa por um fortalecimento da Marca, de tal forma que a obra acaba se entranhando nas próprias dinâmicas do Mercado, cujo horizonte é o lucro e a permanência de material a ser explorado economicamente para além dos limites de qualquer razoabilidade, seja esta definida à esquerda ou à direita. A saída das elites teórico-artísticas para esse impasse sempre foi estabelecer um falso embate entre o Mercado e a Autonomia da arte marcado pelo desprezo pelas “massas” que consomem de forma enlouquecida cultura que essas mesmas elites consideram de qualidade inferior (até mesmo porque não se trata do material que elas produzem). E foi assim que, nos porões mal-iluminados da República das Letras germânica, foi desenvolvida o que se pretendia ser a arma definitiva para vencer a guerra contra o público pregada por Schiller¹: a Estética Moderna.

Os fragmentos dessa bomba ainda hoje contaminam nossa cultura: alguns paradigmas de Autoria, Criatividade, Genialidade. O individualismo e o culto ao Autor, a criação vista como descolada dos processos concretos de remix do que é precedente e contemporâneo, o desprezo pelo trabalho acumulado de multidões desprovidas da genialidade tão cara a nossa elite-acadêmica-intelectual-de-esquerda; não é por acaso que esses fragmentos ecoam nas ofensas dirigidas ao blockbuster, à novela, ao reality show, ao futebol. Na pretensão de apontar para o que é verdadeiramente bom esteticamente falando, o que não falta é quem faça a passagem nem tão curiosa da crítica pomposa ao que é “popular” para a inferioridade do próprio “povo”, que se recusa sistematicamente a consumir as preferências refinadas da classe esclarecida e a participar da festa da democracia cultural. O espetáculo pobre de sentido e rico em explosões ensurdecedoras, as luzes que disfarçam a banalidade e vulgaridade da composição obra, a falta de profundidade dos clichês, a ausência de um projeto de engrandecimento individual político e moral a partir da experiência puramente estética. Não é possível entrar em um diálogo com o Autor, não é necessária a crítica de arte para validar seu valor. E ai de quem não sentir verdadeiramente essas carências ou não for capaz de saborear as diversas notas estéticas na obra anti-hollywodiana. E no meio dessa falsa dualidade, não se consegue nada além da reafirmação do status quo e da legitimação de um mundo que perdeu sua coletividade, sejam em nome do Mercado, seja em nome do Império da Autoria.

1 Em carta a Goethe em junho de 1799, Schiller escreve: “Já que não é possível ter esperanças em plantar e construir […] a única relação possível com o público é a guerra” (citação na página 29 de The Author, Art and the Market de Martha Woodmansee).