Uma reflexão sobre o amor romântico a partir de Kim Ki-Duk

Por Alexandre Loreto

Ser Homo implica ser igualmente demens: em manifestar uma afetividade extrema, convulsiva, com paixões, cóleras, gritos, mudanças brutais de humor; em carregar consigo uma fonte permanente de delírio. Em crer na virtude de sacrifícios sanguinolentos, e dar corpo, existência e poder a mitos e deuses de sua imaginação. (Edgar Mourin. Amor, Poesia, Sabedoria)

Segundo Bertrand Russell, devido aos esforços da moral da igreja católica durante a Idade Média, os homens foram convencidos de que o sexo era inerentemente impuro, fazendo com que qualquer sentimento poético por uma dama fosse considerado intangível. Para que tivesse beleza, o amor tinha que ser platônico. Com esses valores em relação à mulher, a dificuldade de conquistá-la deu origem ao de “amor romântico”. O autor ressalta que não seria correto afirmar que tal sentimento foi desconhecido na época pré-medieval, no entanto, foi apenas na Idade Média que foi reconhecido como paixão.

A essência do “amor romântico”, para o filósofo, é a áurea de preciosismo em torno do objeto amado, visto também como algo muito difícil de possuir. Logo, desenvolvem-se grandes esforços de várias espécies para sua conquista. É o amor da impossibilidade de consumação, que leva à tristeza, ao desespero ou mesmo à obsessão.

Maria de Lourdes Borges mostra que, devido à impossibilidade de consumação, o amor romântico tem suas manifestações na arte mais ligadas à morte – é o caso de Romeu e Julieta de Shakespeare, Os sofrimentos do jovem Werther de Goethe, o mito de Tristão e Isolda, dentre muitos outros. No caso de Werther, o suicídio é tido como uma saída para a “doença da alma”, é como se a morte fosse a única maneira de pôr fim a essa insuportável dor física, uma doença sem cura. Em relação ao que chama de “amor idealista”, Jurandir Freire Costa afirma que essa busca pela posse do outro está ligada à incapacidade de amar a si. O jovem Werther parece concordar:

Nossa imaginação, inclinada por natureza a exaltar-se, e, ainda, excitada pela poesia, dá corpo a uma escala de seres onde ocupamos sempre um lugar o mais insignificante. Tudo o que está fora de nós parece mais belo, e todos os homens mais perfeitos do que nós. E isto é natural porque sentimos demais nossas imperfeições, e os outros sempre parecem possuir precisamente aquilo que nos falta. Desse modo, nós lhe concedemos tudo quanto está em nós mesmo e, para coroar a obra, lhes atribuímos também certas qualidades ideais. E assim criamos nós mesmos um conjunto de perfeições que por sua vez cria o nosso tormento.

O sociólogo Zygmunt Bauman discorre sobre essa forma de amar como uma busca por uma ponte para transpor-se à alteridade. Contudo, o amor será sempre marcado pelo medo da perda do objeto amado, o risco não só é parte como talvez possa ser tido como a essência desse sentimento. É o que chama de thin ice – uma alusão às partes finas de um lago/oceano congelado suscetíveis à ruptura.

O amor, para ele, é a vontade de cuidar, de preservar o objeto cuidado; de ingerir, absorver o sujeito no objeto. Amar diz respeito à auto-sobrevivência através da alteridade, um ímpeto, por isso, ao mimo, à proteção. Uma vontade de guardar, de cercar, de encarcerar, de estar à disposição. Percebe-se, portanto, que daí decorre o ciúme, sintoma mais doloroso dessa doença da alma que levou, inclusive, Werther ao suicídio.

Bauman, diferente dos autores supracitados, teoriza sobre a atualidade, a chamada “era pós-moderna”, em que “tudo que é sólido se desmancha no ar”, a era “líquida”. Para ele, vive-se a cultura de consumo, a supressão tempo/espaço, o uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, o hedonismo. Uma era em que, em oposição ao amor, reina o desejo, isto é, a vontade de consumir, absorver, aniquilar (ingerir e digerir), uma cultura em que descartar é mais importante do que acumular.

Em outros termos, nada mais é do que um estágio avançado do sistema de produção capitalista que afeta diretamente as relações humanas. Dentre as inúmeras consequências da “aceleração de giro do capital”, como caracteriza David Harvey, alteram-se as formas de pensar, de sentir e, com isso, de agir. Cada vez mais acentuam-se a volatilidade e a efemeridade de modas, produtos, técnicas de produção, ideologias, valores e costumes. A descartabilidade decorre dessas novidades constantes que engendram uma obsolência instantânea. E tudo isso implica profundas mudanças na psicologia humana.

Para Bauman, a velocidade de “giro do capital” é tamanha que sua influência na psicologia humana às vezes não permite sequer o desenvolvimento de desejos, a prosperidade do amor, então, seria impossível. O que se sente é “instinto” e as relações de amor refletem isso: desenvolve-se cada vez mais o “sexo casual” (one night stand) ou ainda as chamadas “relações de bolso” (pocket relationships). É extremamente plausível, portanto, mostrar que a voracidade consumista vem modelando as relações humanas.

O desejo de adquirir objetos no mercado de consumo e o desejo de possuir completamente um ser humano são isomorfos, isonômicos. O amor romântico é mostrado como um ideal emocional cujas raízes estão na ganância e na voracidade e não no altruísmo ou na disposição para dividir afetos. Na atualidade, a ideia de philia, de Aristóteles – um desejo mútuo entre cônjuges de fazer o bem um ao outro – perde-se nos confins de um individualismo exacerbado.

Nessa conjuntura, surge Time – O amor contra a passagem do tempo do cineasta sul-coreano Kim Ki-Duk proporcionando uma reflexão sobre o amor romântico na atualidade. O filme conta a história de um casal apaixonado que sofre o desgaste do amor, revelado pelos ataques de ciúme da namorada (See-Hee) devido à atração que seu namorado (Ji-Woo) passa a sentir por outras mulheres. Convencida de que seu amado irá deixá-la, See-Hee desespera-se e resolve mudar suas feições faciais na esperança de tornar-se mais atraente aos olhos dele. Segue um excerto de diálogo:

– Eu sou louca, não? Quero arrancar os olhos das garotas que olham para você. Me desculpe por ter sempre o mesmo rosto sem graça.

O filme coloca o tempo como fator principal às mudanças e ao enfraquecimento do amor do casal, tendo como reflexo a trivialização da aparência da amada. Em outras palavras, a atração de Ji-Woo por outras mulheres faz com que See-Hee sinta-se feia, culpando a si mesma pelo desgaste da relação. Vem à tona, mais uma vez a questão do indivíduo não amar a si mesmo, querendo transpor-se ao outro. Evidencia-se a inclinação ao mimo, à proteção, ao encarceramento – como todas as demais características previamente citadas do amor romântico, inclusive ciúmes doentios. Voltanto a Bauman: “Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir”.

See-Hee, vivendo o medo da perda de seu amado, decide fazer cirurgias plásticas com a ilusão de que se tornaria uma “outra mulher”, com a ilusão de que se tornaria mais atraente, uma espécie de “devir”. Então, um dia some e, secretamente, tem seu rosto completamente transformado. O filme faz ainda uma crítica à obsessão com a beleza física que ganha proporções diferentes na Coreia do Sul. A ditadura da estética é tão forte que cerca de 25% das mulheres já passaram por procedimentos estéticos. Devido à globalização, existe uma enorme padronização de instituições, uma enorme ocidentalização da cultura de corpo motivo pelo qual é cada vez mais comum cirurgias para a retirada de traços “puxados” dos olhos, por exemplo.

Buscando repensar conceitos chaves da sociologia clássica, como indivíduo e sociedade, Anthony Giddens rompe com a dicotomia Durkheimniana ao afirmar que o individual também é social. Para ele, as instituições modernas afetam os aspectos mais pessoais dos indivíduos que, com hábitos e tradições, se interlaçam com o self. Assim, as influências globalizantes estão diretamente ligadas às disposições individuais, ou seja, uma espécie de sociologia relacional em que a existência de um depende do outro. Posto de outra forma, o self se relaciona com as instituições e é formado por elas, assim como elas são legitimadas pelas disposições pessoais.

Na atualidade, ou, como denomina o autor, na “modernidade tardia”, as identidades são construídas reflexivamente em um meio de instabilidades em que as tradições perdem cada vez mais as forças. É a previamente mencionada era de grande “velocidade de giro do capital”, na qual, devido à fraqueza das tradições, os estilos de vida assumem um significado particular. O self é formado a partir de uma relação dialética entre global e local, em que apesar da diversidade de opções existentes, há fortes influências padronizadoras. É a cultura do consumo delegando ao estilo de vida o caráter de mercadoria.

Com a evolução da medicina e a popularização das intervenções estético-cirúrgicas, o corpo se torna cada vez mais uma questão de escolhas. Entretanto, as opções não se limitam somente aos indivíduos, há conexões entre os aspectos pessoais e globais, a relação dialética que constrói o self. A influência dos sistemas abstratos sobre as disposições individuais afetam, portanto, o corpo e o processo psíquico, tornando o corpo cada vez menos um elemento extrínsico à modernidade. O que a priori aparenta uma preocupação narcisista – como no caso de See-Hee que se achava feia apesar de ser bela – tem na verdade raízes muito mais profundas. Há, na atualidade, uma estreita relação entre a identidade e a construção do corpo, seja através de cirurgias, seja através de regimes corporais específicos. Segue um diálogo que evidencia esse “devir” da personagem:

– Eu estava com medo do tempo, o tempo faz tudo mudar. Achei que mudando de rosto você me amaria mais, mas você não esqueceu sua namorada do passado e eu não suportei o ciúme

– Isso não faz sentido, as duas são você!

– Não! Não sou sua mulher do passado, sou uma nova mulher!

Como que em uma tentativa desesperada de parar os processos gerados pelo tempo e recriar a si e com isso a paixão em sua relação, a protagonista, extremamente insegura e com baixa auto-estima – ainda que visivelmente bela –, se submete a “sacrifícios sanguinolentos” e dá “existência a mitos de sua imaginação”. Se mostra demens ao manifestar sua afetividade extrema, colérica e com mudanças brutais de humor sendo, por isso, Homo.

O filme, passível de diversas abordagens, ressalta o tempo como culpado pelas mudanças da vida, como o fluir do rio de Heráclito. É curioso notar as cenas em lugares repetidos, como rituais, e a presença de elementos resistentes à passagem do tempo, como as esculturas do parque, resistindo às diferentes estações do ano. Ou ainda as cenas em que os personagens aparecem dando pancadas em uma enorme árvore, como se tivessem raiva de sua durabilidade, de sua resistência ao fluir da vida.

A protagonista não consegue acreditar quando seu namorado lhe diz que a ama e ao mesmo tempo deseja satisfazê-lo, optando por fazer a plástica. Já o homem não compreende as ações de sua namorada e não sabe como reagir ou se sentir. Os dois fazem tudo que lhes parece necessário para poderem ficarem juntos, mas no final estas ações apenas os separam, fazendo com que sempre estejam um à espera do outro. Destaque também para a cena da perseguição que os dois personagens protagonizam no metrô, na qual aparecem, em primeiro plano, dois belos pássaros enjaulados: são escravos de seus sentimentos. É o amor romântico, humano e imperfeito, como indica o filme diversas vezes marcado pela frase “Nós somos humanos afinal”.

Referências bibliográficas

BAUMAN, Zygmunt. 2004. Amor Líquido: a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

BORGES, Maria de Lourdes. 2004. Amor. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

COSTA, Jurandir Freire.1998. Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico. Rio de Janeiro: Editora Rocco.

GIDDENS, Anthony.2002 Modernidade e Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

GOETHE, Johann W. 2006. Os sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Martin Claret.

HARVEY, David. 2007. A condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola.

MORIN, Edgar. 2008. Amor, Poesia, Sabedoria. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

RUSSELL, Bertrand. 1977. O casamento e a moral. São Paulo: Companhia Editora Nacional.