A “Empáfia Santista”

Por Filipe Völz.

O melhor filme do festival CineFoot tem um nome que é um número, “95”, em referência ao ano de 1995, quando o Botafogo foi campeão brasileiro. Às vezes, quando a realidade é tão fascinante que deixa a imaginação com vergonha de sua limitação, um filme pode se dar ao luxo de usar a técnica cinematográfica como um programinha de tv, como um trabalhinho escolar no power point, porque os fatos não precisam de ajuda pra produzir o maravilhamento do cinema.

Primeiro jogo da final do campeonato de 1995 foi no Maracanã, não a Arena Maracanã que hoje rasga o solo sagrado do Rio de Janeiro como uma ferida aberta, gotejando resíduos e secreções, sintomas de uma doença maior e quem sabe fatal. Não. Estamos falando do Maracanã, o berço dos deuses. Nele o espetáculo invertia de lugar com o cotidiano: era lá, no jogo, que a vida era mais real. E foi lá que o Botafogo derrotou o Santos nesse primeiro jogo da final de 1995, onde algo muito estranho aconteceu.

Quando o Botafogo sagrou sua vitória no apito firme do juiz (que errou para os dois lados, assim como faria a arbitragem no próximo jogo), o gol de diferença deixava o Botafogo a 1 empate do título – vantagem que no fim seria revindicada. Se o mesmo acontecesse com qualquer outro time, 2+2 seriam 4. Mas o Botafogo, para o Bem, para o Mal e para o Desconhecido, é um time à parte. A torcida, em casa, ao invés de comemorar a possibilidade insinuante do título que se abria, preferiu refletir. O jogo terminou, os jogadores tiraram a camisa e se abraçaram, mas ao redor a torcida do Botafogo permaneceu calada, pensando. Não era, contudo, o silêncio que reinava. Era a minúscula torcida presente do Santos, gritando a plenos pulmões, comemorando, talvez, a fragilidade da vantagem conquistada pelo Botafogo (e talvez o Botafogo meditasse sobre essa fragilidade).

O zagueiro Gonçalves nota o que está acontecendo. Sozinho, vai até a beira do campo, irritadíssimo, convocar a torcida. Por que vocês não cantam? Não viram que demos o sangue por vocês? Não viram que colhemos sangue por vocês, em oferenda? A torcida, como um deus iconoclasta, parecia não responder. Poderia se pensar que não estava satisfeita, como é típico do botafoguense. Porém talvez seja mais certo o seguinte: depois de décadas longe do protagonismo, à estrela solitária era permitido novamente brilhar, e só então, no fim do penúltimo jogo, a torcida se deu conta disso. Ela estava atônita; ela não estava ali. Milhares meditavam. A verdade é que nunca existiu a possibilidade do Santos levar esse título.

Alguém tinha que ser mundano. Há dignidade nisso também, a torcida sabia. Logo a orgia santista seria sufocada. O instante de silêncio precedeu o júbilo maior. Qualquer um com o mínimo de fibra, com um rascunho de vigor moral (eu estava procurando uma oportunidade de usar esse termo cafona e finalmente consegui) entenderia o que estava acontecendo no Maracanã, ágora dos servos. Mas, como é esperado, esse não foi o caso da imprensa.

A imprensa, a cafetina da Prostituta da Babilônia (estou adorando escrever esse texto), ejacula com as sombras de promessas de certos times. Fez isso com determinado time neste mesmo 1995. Litros e litros de esperma infértil por causa de um suposto trio de atacantes, Pai, Filho, Espírito Santo e o diabo a quatro. Todos bezerros de ouro. E, na véspera da final do campeonato, resolveu cantar a vitória e o favoritismo de um dos times, por razões que só a razão desconhece. A torcida do Santos, também anos distante do protagonismo (que dividiu com o mesmo Botafogo três décadas atrás), entrou na onda, sem saber que dessa vez iria tomar um caixote.

Giovanni, o camisa 10 do Santos e maior jogador daquele campeonato, cantava que já estava escrita a vitória do Peixe. Eles achavam que a vitória era como Jonas, que ela estava na barriga do Peixe, que apenas estaria aguardando o momento certo para aparecer. Achavam que ela pertencia por direito ao time do Rei. Mas o direito não é herdado, ele é adquirido. E que é um rei perto de um anjo – um anjo de pernas tortas? Tudo estava às claras, para quem quisesse ver. Mas ninguém viu. No caso do Botafogo, não viram porque viram além. Vou explicar.

Paulo Autuori dá um entrevista depois desse jogo onde ele usa o termo “empáfia santista”. Ninguém usa um termo como empáfia no futebol, é raro. Usar esse termo na década de 90 então, onde, ao contrário de hoje, o que reinava era a brutalidade, é de fato esquisito. Mas é oportuno, e não é heterogêneo ao espírito da zueira que era senhor. Com essa frase, Autuori, com sua típica elegância, coloca as coisas nos seus lugares. O que ele diz, entretanto, vai além, além da crítica da soberba do Santos: ela vai em direção à crítica a toda a soberba do futebol. Isso é claro, não estou inventando. Qual o contexto do termo? O técnico falava que mais importante que ganhar títulos no futebol é ganhar na vida. Apesar dos termos, não tem nada mais anti-futebol moderno, anti-arena, anti-Leifert. O inferno é o reino dos números: títulos, vitórias, gols, estatísticas, ibope. A direção desses números é o acúmulo, o excesso, o movimento mecânico, irrefletido, de puro crescimento – mas para onde? O diabo é o rei desses números: o lucro. Nesse mundo, quem quer saber de algo inumerável como “vida”? Autuori diz: a vitória numerada não é o fim do futebol, nem o começo. Ela não é o mais importante, apesar de muito importante. O mais importante é um outro, que só o campo e o trabalho (não aquele de Muricy Ramalho) conhecem, e guardam o segredo pra si. Ali não vinga o número, só aquele nas costas dos jogadores.

A vida é mais importante que o jogo. Mas Neném Prancha já dizia que treino é jogo e jogo é vida. E averiguamos que no Maracanã, laboratório da transformação, a vida era mais vida.

É que no jogo a vida só se dá quando o número está superado. 3 pontos não é um jogo, nem 1 ponto. 10 finalizações não é jogo. Que finalizações foram essas? 20 faltas, 5 cartões amarelos, 2 substituições: de quem? Pra quem? Como? Resenha não é jogo – narração é. Tira-teima não é jogo – acerto do bandeirinha é. O futebol está sendo destruído pelos mesmos que fomentaram a empáfia santista. O erro deles não era contar vitória antes do tempo: era contar a vitória (“contar a vitória” tem 13 letras).

(“futebol moderno” tem 14 letras; “futebol antigo” tem 13 letras; “futebol” tem 7 letras)

O torcedor do América F. C.                                    

O desábito de vencer

não cria o calo da vitória;

não dá à vitória o fio cego

nem lhe cansa as molas nervosas.

Guarda-a sem mofo: coisa fresca,

pele sensível, núbil, nova,

ácida à língua qual cajá,

salto do sol no Cais da Aurora.

(João Cabral de Melo Neto)