Excerto da entrevista de Orson Welles à Playboy em 1967

orson welles

  • O que você pensa dos diretores da nouvelle vague francesa tão admirados por essas revistas?

Orson Welles: Estou querendo ver faz tempo! Eu deixei de ver muito pelo medo de inibir meu próprio trabalho. Quando faço um filme prefiro não me referir a nenhuma outra obra: gosto de imaginar que tudo o que crio está sendo inventado pela primeira vez. Eu falo com o Cahiers du Cinéma sobre filmes em geral porque eles gostam dos meus e isso me agrada muito. Quando eles querem fazer entrevista longas comigo meu coração não me deixa recusar. Mas é tudo um teatro. Sou uma fraude; até falo sobre “a arte do cinema”. Eu não falaria com meus amigos sobre “a arte do cinema” – eu prefiro andar nu pela Times Square.

  • O que você acha dos filmes de Antonioni?

De acordo com um jovem crítico americano, uma das grandes descobertas da nossa época é o valor do tédio como tema artístico. Se isso é verdade, Antonioni merece ser chamado de pioneiro e fundador. Seus filmes são cenários perfeitos para as modelos do mundo da moda. Talvez não existam cenários tão bons na Vogue, mas eles deveriam ser. Eles tem que chamar o Antonioni pra desenhá-los.

  • E Fellini?

Ele é tão talentoso quanto qualquer um fazendo filmes hoje. Sua limitação – que é também a fonte de seu encanto – é o fato dele ser fundamentalmente muito provinciano. Seus filmes são o sonho de um garoto do interior sobre a cidade grande. Sua sofisticação funciona porque é a criação de alguém que não tem sofisticação nenhuma. Mas ele mostra sinais muito perigosos de ser um artista superestimado com muito pouco a dizer.

  • Ingmar Bergman?

Como disse algum tempo atrás, não compartilho nem de seus interesses nem de suas obsessões. Ele é muito mais estrangeiro a mim do que os japoneses.

  • E os diretores americanos de agora?

Stanley Kubrick e Richard Lester são os únicos que me dizem alguma coisa – além dos velhos mestres. Com “velhos mestres” quero dizer John Ford, John Ford e John Ford. Eu não considero Alfred Hitchcock como um diretor americano, apesar dele ter trabalho em Hollywood tantos anos. Ele me parece tremendamente inglês, na melhor tradição de Edgar Wallace, e nada mais. Tem sempre alguma coisa meio anedótica nas suas obras. Seus artifícios continuam artifícios não importa o quanto eles sejam maravilhosamente concebidos e executados. Eu realmente não acho que Hitchcock seja um diretor cujos filmes possam ser apreciados daqui a cem anos. Já com Ford no seu melhor você sente que o filme viveu e respirou em um mundo real mesmo que tenha sido escrito pela Senhora Machree*. Com Hitchcock, é um mundo de fantasmas.

Entrevista à Playboy, de 1967, retirada do livro da série Masters of Cinema, do Cahiers du Cinéma, dedicado a Orson Welles.

*Referência à “Minha Mãe” (Mother Machree, 1928), filme mudo de John Ford.

Tradução de Filipe Völz.