Estados Unidos da φύσις

Por Uiliana Ilza Zanon.

Na interpretação de um filósofo famoso que prefiro não citar, physis (φύσις) é mais que “O Físico” ou “Natureza”, sua mais habitual tradução. Ela é “tudo aquilo que escapa do âmbito do controle e da ação do homem”. Com homem ele quer dizer, é claro, também nós mulheres, mas inclusive as máquinas e tudo aquilo que serve, em tese, ao bem-estar da humanidade, à sua busca por felicidade. A physis é uma alteridade a qual, contudo, pertencemos. Ela está ligada à ideia de uma origem da humanidade e de uma essência. Por mais que o conceito de natureza, já estabelecido sobre uma crucial separação ontológica em relação ao homem (abarcado pelo campo da alma, espírito, sobrenatureza),  seja uma derivação da physis, os muitos sentidos que damos a este substantivo e ao adjetivo “natural” possuem ainda algo do termo grego.

Dizemos que algo é natural ou faz parte da natureza de algo (como no termo de Chomsky “a natureza humana”) quando queremos indicar que ali habita uma instância inquestionável, da qual apenas aceitamos a matéria-prima como dado, que podemos usar de diversas maneiras, mas jamais alterá-lo naquilo que ele é. Onde há naturalidade não há mudança (ao menos mudança humana). E, contra ideias como essas, materialistas feito Brecht vão dizer que “nada deve parecer impossível de mudar” (e devemos prestar atenção neste “deve parecer” – que não necessariamente está excluindo a possibilidade de um mundo externo objetivo, como querem alguns).

A partir de determinado momento na história – a queda dos muros em Berlim e o colapso dos Sovietes Unidos da Rússia – ganha força a ideia de pós-ideologia, que não é nada mais que a fase mais radicalmente ideológica da ideologia. O que é o ideológico da ideologia? Nos micro-moldes de uma coluna de revista eletrônica: é o processo de naturalização de uma ideia, ou quando ideias assumem a aparência (e a realidade) de coisas. A ideologia é uma ideia, um corpo de ideias, uma “visão de mundo”. O produto da naturalização levada a cabo pelo ideológico da ideologia é o ocultamento da condição de ideia da ideologia. É quando ela não é mais tratada como ideia, como perspectiva, mesmo que maximamente objetiva, sobre um objeto. Ela se funde no próprio objeto sobre o qual fala, e assim some de vista o fato da sua diferença para com este objeto (volto a dizer: mesmo que ela esteja certa em relação a ele, mesmo que ela seja uma ideia objetiva, mesmo que ela fale sobre a coisa, como a coisa é; ainda assim, ela é uma ideia que fala sobre uma coisa, e não a própria coisa).

No mundo depois do muro, a palavra de ordem é ficar em cima da muro. Escolhem-se lados mas não se sai de cima desse muro. Escolher lados de fato, lutar por macro-bandeiras, é parte de uma passado chamado de “ideológico”, e que se foi. Opiniões políticas resumem-se a opiniões. Engajamento é algo que grandes empresas podem fazer – na ecologia, justiça social, filantropia, etc., revolução é do nível da mudança de estilos de vida, e logo surgem e ressurgem coisas como “revolução do amor”, “revolução das comunicações”, “revolução da mente”, “revolução na abertura de contas de banco”.

Esse clima favorece o individualismo da pluralidade boçal das opiniões (ou seja: o plural é válido por si mesmo; algo ganha valor unicamente por ser plural, múltiplo, e por nada além disso), mas também um neo-iluminismo metafísico e muito perigoso. Com a disposição total – aparentemente – da tecnologia e principalmente da tecnologia de produção de imagens (que hoje mais que nunca servem como unidade de medida da Verdade) para “todos”, parece que podemos chegar agora, como jamais antes, de fato, à coisa-em-si, ao mundo objetivo para além do olho que o vê. De fato chegamos na coisa-em-si. Lá vimos, como na lua, as listras e estrelas. Citando Watchmen, “sim, senhoras e senhores, a coisa-em-si é americana”.

Com a vitória na guerra fria, a realidade, aquilo que se põe para além das perspectivas (políticas) que convivem e falam sobre ela, ganhou os contornos de um dos pólos da guerra. Os Estados Unidos não são mais um desses pólos, eles são o real, o natural. E é claro que nós não o vemos mais enquanto pólo naturalizado. Nós vemos apenas physis. E a physis enquanto uma extensão da realidade sobre a qual não temos nem a chance de disputar o domínio, da qual sequer estamos cientes de que podemos alterar, decidir sobre seu sentido, participar de sua constituição. Assim, Hiroshima passa a ser retratada como Chernobyl: um espécie de acidente natural, desprovido de motivações políticas e de autoria. O american way of life, lugar comum no vocabulário do século passado, não desapareceu, como parece, mas se entranhou em modos de vida diversos, se expandiu invisivelmente, de modo que localizá-lo hoje significa cada vez mais também localizar outros modos de vida. É cada vez mais difícil diferenciar o que é capitalismo norte-americano e o que não é. E por isso muitos tem desistido de tentar.

É comum o tipo de pensamento dito múltiplo, talvez cosmopolita (hoje globalizado), fincar raízes no gosto popular quando um império passa por uma era de estabilidade. Foi assim no auge/declínio do império romano retratado no filme “Ágora”, de Alejandro Amenábar, a produção cinematográfica mais cara da Espanha e que retrata de forma positiva esse cosmopolitismo. Em si, não devemos imputar nada de errado com ele. Mas, atualmente, é necessário redescobrir, interpretá-lo em suas condições concretas, não abstratas – tais condições são as condições do império. Hoje, a linha política mais afeita a esse estado de coisas, a social-democracia dita “moderada”, é dominante. Quem dita o tom da canção a ser cantada são eles. Assim, inquisidores saídos direto das entranhas da idade média falam em defesa da liberdade de expressão e das liberdades individuais; a linha de frente do progressivismo dispensou a revolução a favor de linhas de fuga internas ao capitalismo, que não buscam mais confrontar o sistema diretamente; e no meio disso tudo ainda surgem, em todos os matizes políticos, coisas que são chamadas ou que poderíamos chamar de capitalismo cognitivo, ecocapitalismo, teocapitalismo, por aí vai.

Vamos aos fatos: é realmente impossível vencer o capitalismo hoje? Sim. Mas isso não significa que assim sempre será. “Nada deve parecer impossível de mudar” (aqui devemos lembrar de Brecht e esquecer de Freixo). As condições para uma confrontação com o império nascem de rachaduras no próprio império, mas especificamente as rachaduras no mascaramento do império enquanto physis. Temos ao nosso lado o fato desse mascaramento ser de fato uma aparência: os EUA não são a totalidade das coisas, apesar de cada vez mais se aproximarem de chegar a essa condição terrível e absoluta. Enquanto a distopia não chega, nos resta buscar/criar as cicatrizes na máscara de physis do sistema. Criá-las por si mesmas e para si mesmas não é nada: é necessário direcioná-las para a superação do sistema. Sem tal direcionamento, sem uma teleologia da revolução, as marcas de polaridade na máscara de neutralidade do capitalismo americano rapidamente são maquiadas e se perdem no emaranhado de coisas distintas em que o sistema se tornou.

Não podemos confrontar o sistema agora; mas elevar este fato concreto ao status de categoria substancial do sistema é abrir as portas pra distopia. Confrontar o sistema, no nosso caso, não funciona mais no aspecto puramente negativo: só há confrontação real quando assumimos um lugar de fala. Como o próprio capitalismo  assumiu o papel de fiel da balança, de peso neutro com que as medidas passam a ser equiparadas, fazer sua crítica agora é reinterpretá-lo como um dos pesos, o que significa assumir o outro lugar da balança.

A Utopia não é mais uma regalia luxuosa ou o referencial ideal com que pautamos práticas mais modestas ou suportamos contextos desesperadores. Chegou um tempo decisivo em nossa história onde a única alternativa à Distopia é a Utopia, o único pragmatismo possível é o do impossível, a única realpolitik é a surrealpolitik.

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