Mallarmé e o poema a ser feito

Por João G. Paiva.

Em poucas décadas muita coisa mudou no panorama francês nos fins do séc. XIX. Sendo o fator mais decisivo a hegemonia das ideias científicas e do progresso civilizatório. A filosofia é deixada de lado para a criação da sociologia unificadora de Augusto Comte; nas cidades temos o experimento urbanístico do barão de Haussmann, que praticamente inventou a periferia ao demolir casas dos trabalhadores no centro de Paris e transferi-las para bairros distantes; na política o avanço brutal da colonização em África, ocupando o norte, leste e centro do continente africano; e na literatura há o desvio do realismo para outro movimento, mais radical, mais fechado, mais doutrinário – o naturalismo. As novas ideias passeiam triunfalmente nas ruas e nos boulevards, sempre orgulhosas de si, enquanto pintores/ poetas mirrados, e sem dinheiro (frequentemente), fecham os olhos para sonharem com um mundo perdido qualquer. Alguns se suicidam, outros vendem seu talento para os jornais, alguns caem na solidão absoluta etc. No princípio do desenrolar acelerado da época temos Charles Baudelaire. No final dela temos a morte de Stéphane Mallarmé.

Se em Charles Baudelaire a poesia ocupava mais ou menos o lugar de sempre, como para os antigos e os neoclássicos, no caso de Mallarmé há uma transformação. O que antes em Baudelaire tinha sido atmosfera, estado de espírito, em Mallarmé torna-se método. “Um livro não começa nem termina: no máximo ele simula”, é uma frase de Mallarmé que Baudelaire nunca teria levado realmente a sério. Porque em Baudelaire o projeto de escrever um grande livro teve extensão e largura bem definidas. Mas em Mallarmé ganha as proporções do ideal –  como ao escrever que a “Beleza” é um pretexto para seguir em direção à “Poesia”. A literatura é uma operação de transposição do fato ao ideal. Admitir a suficiência do fato, para alguém como ele (fin-de-siècle) que não crê num deus, seria admitir que a cadeia arbitrária de acontecimentos é tudo que resta ao espírito. Os romances naturalistas, cuja base é a força do enredo, seriam o destino da literatura. Ou seja, ela poderia ser confundida com o palavrório de notícias do jornal. Seria reduzida a um simples documento. Nada causava mais desespero em Mallarmé do que a trivialidade do cotidiano desprovida de uma significação, um destino, que fosse sublime e inalcançável. A variedade das intuições de Baudelaire, poeta cujo espectro de interesses ia mais longe, foram melhor sistematizadas no projeto de Mallarmé. Isso não significa que Mallarmé tenha tido um projeto-sistema, mas que apanhou as iluminações baudelairianas em proveito próprio. Quando diz da tragédia de Swinburne: “traçada com impecáveis linhas sobre o modelo antigo, mas inspirada num sopro de agora”, ele está se referindo explicitamente à formulação de Baudelaire sobre o pintor moderno.

Que formulação é essa?

Baudelaire utiliza de exemplo o pintor C. G. (Constantin Guys), um pintor menor, ao invés dos acadêmicos e dos consagrados, para dizer que a arte moderna é a arte que une transitório com o eterno.

Se antes Arte = Eterno, agora Arte = Eterno + Transitório.

Antes pintava-se a natureza, o rosto, o mito. Agora as cidades mudam muito rapidamente, assim como os gostos e as visões das coisas, então torna-se necessário sair às ruas pela manhã e escrever/pintar à noite, entre os livros/quadros, para ir assimilando um elemento no outro.

O que significa dizer que um duro golpe arremessou para longe toda estabilidade do conceito clássico e neoclássico de arte. No desespero do chão incerto em que agora os artistas pisavam houve quem preferisse negar e refugiar-se no passado, houve quem desejasse crer apenas no folhetim diário de notícias e de contos bem descritivos. Já o efeito que isso causou nos mais visionários poetas e pintores foi de radicalizar tanto do lado eterno como do provisório: um apego cheio de paixão no antigo navio que, a qualquer momento, daria sinais de naufrágio. A solução encontrada pelos simbolistas foi pôr dúvida na realidade para torná-la menos real. Com isto estaria melhor e mais seguro o lugar do eterno.

Charles Baudelaire, ainda antes, por sua vez, não percebia a realidade como teia de ilusões, o mundo como “miragem brutal”, embora pudesse sentir isso uma hora ou outra. Mallarmé disse ter encontrado a Beleza após encontrar o Nada. Estava convencido do Nada. Ao menos desde 1866 quando de sua crise em Cannes, onde assistiu, diz-nos, “a terrível visão de uma obra pura”. Na semana que passou em Cannes o poeta tomou conta de que Deus não existia, nem de que havia qualquer realidade na religião. Mas negou-se a cair naquela espécie de niilismo dominante da matéria: “Sim, eu sei, não somos nada além de formas vácuas da matéria, mas somos bem sublimes, já que inventamos Deus e a nossa própria alma”. Estava seguro do poder da imaginação para animar as marionetes de carbono e amoníaco que somos nós mesmos. Dentre o arsenal de armas encantatórias temos o poder da palavra. O poeta desenha então o perímetro destinado a eternizar a poesia, embora tivesse consciência de que o transitório havia crescido o bastante para devorar mais e mais rapidamente do que Baudelaire supunha. Não importa. Afastado do mundo ele precisava construir a Obra com paciência e devoção, enquanto as mercadorias eram pensadas, fabricadas, distribuídas e consumidas pelo público. Enquanto a matéria envelhecia e perecia. Mallarmé agarrou-se na ideia de que há um Poema a ser escrito, um Poema-Mãe, localizado depois do Nada, de onde tudo toma forma, generalidade da qual toda poesia deriva. Agarrar O POEMA era de tal maneira sua tarefa que antes de morrer pediu que a mulher e a filha queimassem o que tinha escrito em vida. Para Mallarmé tudo havia sido fracasso e perda, pensava assim enquanto chorava e jurava que dentro dele, escondido por detrás da muralha de silêncio, havia algo realmente belo e perfeito a ser dito.

O silêncio foi a herança que pensou ter deixado. Uma obra moderna foi o que de fato deixou. No meio dela as pistas com mil visões do Eterno e do Poema. O desespero autêntico de Mallarmé foi o último fôlego da poesia ainda inteiramente confiante na existência da sua metade eterna. Nenhuma gota de niilismo. Apenas o desespero, último trunfo do Poema e sinal formidável de fé humana.

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Neste famoso “Um lance de dados” «UN COUP DE DÉS»; o poeta monta o cenário de um naufrágio – ele odeia falar das coisas diretamente porque isso é rebaixar-se ao estilo objetivo dos jornais – onde um sujeito hesita em lançar seus dados sob um céu estrelado. Por cima do mar revolto. E isto é o começo…

Daí em diante a velha Paris venderia a si mesma para a corrosão completa. A existência do Nada, pelo menos, continua garantida. Enquanto houver o Nada o sonho do Poema não poderá ser desperto. PS: A imagem abaixo é baseada num desenho de Edvard Munch, de 1897.

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