Alguns poemas de Nicolás Guillén

Tradução de João G. Paiva.

Nicolás Guillén foi um dos mais eminentes poetas cubanos do século XX. Nascido na província, no ano de 1902, muda-se para Havana já adulto. Em 1937 realiza sua primeira viagem à Espanha, em plena guerra civil, o que lhe toca e o convence da ideia comunista. Volta para Cuba engajado na política, tentando integrar suas preocupações com a cultura cubana, também com os debates da negritude, aos novos ideais comunistas – causas manifestas nos periódicos Hoy e Frente Nacional Antifascista, que dirigia na época. Depois da segunda guerra mundial realiza nova viagem para a Europa, os conflitos políticos da ilha o impedem de voltar, torna-se um exilado. Está em Buenos Aires no ano de 1958, quando do triunfo da revolução cubana. Retorna imediatamente e atua nos debates do país até morrer em 1989. A trajetória politicamente ativa às vezes se sobressai, no entanto a carga lírica dos poemas de Guillén é impressionante, o poder rítmico dos poemas torna-o mais difícil de traduzir. É um grande poeta latino-americano, que deixa transparecer, na construção da obra, todo um agarramento à vida, à história, e um encanto com os dramas mais simples e humanos.

nicolas guillen

Um poema de amor

Não sei. Ignoro.
Desconheço o tempo que andei
sem novamente encontrá-la.
Talvez um século? Acaso.
Talvez um pouco menos: noventa e nove anos?
Ou um mês? Poderia ser. De qualquer forma,
um tempo enorme, enorme, enorme.
Ao fim como uma rosa súbita,
repentina campânula trêmula,
a notícia.
Saber logo
que iria vê-la outra vez, que lá teria
perto, tangível, real, como nos sonhos.
Que trovão surdo
rodando-me nas veias,
estalando acima
em meu sangue, em uma
noturna tempestade!
E o achado, em seguida? E a maneira
que ninguém compreendera
ser nossa própria maneira?
Um toque apenas, um contato elétrico,
um aperto conspirativo, uma visão,
um palpitar de coração
gritando, gritando com silenciosa voz.
Depois
(Sabes mesmo desde teus quinze anos)
esse tatear de palavras presas,
palavras de olhos caídos,
penitenciais,
entre testemunhas e inimigos,
todavia
um amor de “te amo”
de “você”, de “bem quisera,
mas é impossível…” De “não podemos,
não, pense melhor…”
É um amor assim,
é um amor de abismo em primavera,
cortês, cordial, feliz, fatal.
A despedida, logo,
genérica,
na tempestade de amigos.
Vê-la partir e amá-la como nunca;
segui-la com os olhos,
e já sem olhos seguir vendo-a longe,
bem longe, e ainda segui-la
mais longe todavia,
feito a noite,
de mordidas, beijos, insônia,
veneno, êxtase, convulsões,
suspiro, sangue, morte…
Feita
dessa matéria conhecida
com que amassamos uma estrela.

Como não ser romântico e século XIX

Como não ser romântico e século XIX,
sinto muito,
como não ser Musset
olhando-a esta tarde
tendida quase exangue,
falando longe,
muito longe do fundo de si mesma,
de coisas leves, suaves, tristes.

Os shorts bem shorts
permitem ver suas coxas escondidas
mais fortes,
a enferma blusa pulmonar
convalescente
tanto como seu queixo-fino-Modigliani,
tanto como seu pé-margarida-trigo-claro,
Margarida de novo (é preciso),
naquela cadeira ocasional tendida
ocasionalmente usando o telefone,
me devolvem um busto transparente
(Nada mais que um pouco cansado).

É sábado na rua, mas em vão.
Ai, como amá-la de maneira
que não me quebre
de tão espumado tão soneto e madrigal.
Me vou. Não quero vê-la.
De tão Musset e século XIX
como não ser romântico.

Cana

O negro
junto ao canavial.

O ianqui
sobre o canavial.

A terra
sob o canavial.

Sangue
nos vai!

Não sei por que pensas tu…

Não sei por que pensas tu,
soldado, que te odeio eu,
se somos a mesma coisa
eu,
tu.

Tu és pobre, como eu,
sou de baixo, como és tu;
de onde tiraste tu,
soldado, que te odeio eu?

Me dói que às vezes tu
te esqueças de quem sou eu;
caramba, se eu sou tu,
o mesmo que tu és eu.

Mas não por isso eu
hei de malquerer-te, tu;
se somos a mesma coisa
eu,
tu,
não sei por que pensas tu,
soldado, que te odeio eu.

Já nos veremos eu e tu,
juntos na mesma rua,
ombro a ombro, tu e eu,
sem ódio nem eu nem tu,
mas sabendo tu e eu,
onde vamos eu e tu…
Não sei por que pensas tu,
soldado, que te odeio eu!