Conclusões ocultas nos filmes de Adam Curtis

Por Filipe Völz.

Frequentemente me acusam de ser um esquerdista. Isso é um completo absurdo. Se você assistir The Century of the Self verá que o que estou argumentando é algo muito próximo de uma posição neoconservadora, porque o que estou dizendo é que, com a ascensão do individualismo, há uma tendência pra corrosão de uma outra ideia do que são as relações e redes sociais e comunais, porque agora cada um está por si. Bem, isso é o que os neoconservadores argumentam, domesticamente… Se você me perguntar qual é a minha tendência política, eu vou dizer que sou uma cria do meu tempo. Eu não tenho nenhuma, realmente.  Mudo minha mente dependendo da questão, mas me encontro muito mais num horizonte libertário. Eu tenho uma tendência mais libertária…

É com espanto que leio essa declaração de Adam Curtis, autor de The Century of the Self e The Trap, porém não o espanto de uma surpresa, mas sim o da comprovação de uma suspeita que eu conservava em suspenso e que agora confirmo com horror. Mas a visão que quero oferecer sobre os documentários desse diretor me apareceu antes da leitura do artigo na Wikipedia.

Ao assistir os dois filmes, é muito difícil não pensá-los dentro do horizonte da esquerda. Na verdade, a declaração de Curtis não retira os filmes desse horizonte, mas reconfigura a relação que devemos fazer entre esquerda e direita, e principalmente entre esquerda radical e direita radical (onde, talvez, ao menos parcialmente, Curtis esteja). Essa reconfiguração traz uma mensagem interessante: não só nos aspectos, mas de um modo essencial, mesmo que nunca total, a extrema direita partilha do horizonte da extrema esquerda. E, talvez, devamos aprender a aceitar isso, ao invés de se agarrar ao barco condenado da moderação.

Em Primeiro Como Tragédia, Depois Como Farsa, Slavoj Zizek concluiu que o inimigo do comunismo, atualmente, não é o capitalismo liberal, mas o socialismo. Essa conclusão já se desenha 10 anos antes, na introdução de Elogio da Intolerância, onde Zizek aponta para a estranha porém coerente proximidade entre extremas direita e esquerda (e ambos os livros procuram pensar uma situação política específica pós-queda do muro de Berlim, onde se torna dominante a ideologia conciliatória). Exatamente por seu radical antagonismo, as extremidades partilham um mesmo horizonte, cuja verdade fundamental é a de que não existe conciliação entre esquerda e direita. Nisto elas concordam.

Alan Moore, de tendência anarquista, passa uma mensagem interessante em seu Watchmen, ao menos do modo que li. A mensagem é a de que um reacionário fanático é preferível a um progressista moderado – em um dado contexto político, já pré-queda do muro. Isso parece decorrer do épico final da série, quando toda a já parca empatia por Ozymandias é perdida, e se concentra, ainda mais do que já estava ao longo da série, em Rorschach. Moore se desfaz de uma defesa ideológica de Rorschach logo desde o início, ao colocar em sua boca as mais pútridas infâmias moralistas típicas de um conservador proto-fascista. Porém, em seu terrível senso de justiça que “nunca faz concessões” existe uma verdade que vai ser de valor essencial para a esquerda radical, ainda mais se ela pretende enfrentar o novo e terrível inimigo: a esquerda moderada.

Em The Trap, a ideia do filme gira em torno da naturalização de um conceito de homem. Esse conceito, saído da mente de um matemático paranóico (John Nash), mas cultivado de forma calculista por sóbrios tecnocratas, diz que o homem é mal por natureza, reapropriando-se dos fundamentos filosóficos da filosofia política de Thomas Hobbes. “Mal” significa: ele é egoísta, interessado somente na realização de seus desejos pessoais (vinculados ao mero prazer, em última instância, de forma que esse indivíduo não é muito afeito ao pensamento abstrato, universalizante), os quais ele tenta realizar sem se importar muito com os meios ou as consequências da realização. Essa concepção da natureza humana acaba demandando uma estrutura social de contenção. A política é a arte de oprimir a natureza humana. Para funcionar, a principal tática dessa política foi aprendida na Guerra Fria. Cada indivíduo está, em relação a cada outro indivíduo, em uma situação análoga a dos EUA em relação a URSS. O outro é tomado como potencial inimigo, no qual não se pode confiar e do qual não se conhece as intenções. A única ação possível  é estrategicamente prever sempre o pior e também contar com que o outro também preveja o pior em relação a você. Retribuir o medo com medo. Só assim surge estabilidade, contenção, equilíbrio. Reproduzir o medo faz com que todo o indivíduo da tal sociedade se prontifique a agir de modo a evitar uma explosão de sua bestialidade natural, porque ela está fundada no princípio do egoísmo. Acima de tudo, cada um quer a realização privada dos próprios desejos.

Para que isso aconteça, é necessário que se evite a qualquer custo o combate social, pois ele é um risco para sua existência e realização pessoal. Por isso é do interesse de cada indivíduo que os outros também realizem em algum nível os próprios desejos. De fato, é necessário que antes de tudo hajam desejos, e desejos que possam ser realizados. Tal é a chave da concepção do indivíduo como sujeito consumidor. É assim que a natureza humana, “naturalmente” má, passa a ser moldada, como parte de um mecanismo de contenção dessa maldade, para um natureza civilizada, capaz de coexistir socialmente. Só o consumismo pode unir os homens e ao mesmo tempo impedir que eles se matem. É um Leviatã interno, e não externo como o de Hobbes.

A este segundo tópico se dedica especificamente The Century of the Self, que fala sobre as relações da família Freud (mas não especificamente Freud) e a criação do marketing, do RP, da publicidade e propaganda e da indústria da auto-realização. A tese central é parecida com a de The Trap: o capitalismo trabalhou arduamente no século passado para levar a cabo uma certa ideia geral sobre a essência do homem, sendo que essa ideia, neste filme, é a de que o homem é “naturalmente” consumista (o que não é sinônimo de “consumidor”). Essa condição está inseparavelmente associada a objetos de consumo; o homem precisa do fetiche desses objetos; ele é consumidor especificamente destes objetos.  As mercadorias são, através do fetiche, retiradas de suas condições materiais de produção e distribuição e pensadas como entidades auto-válidas. Isso acontece porque as ideias já são pensadas como auto-válidas (o que é um erro, já que as ideias também nascem materialmente) e as mercadorias, através do delírio das marcas, incorporam as ideias em si (carros significam virilidade, cigarros significam liberdade, etc.), tomando assim a condição das ideias.

O que nos interessa das teses de ambos os filmes é a constatação de Curtis de que tal plano feito pelo sistema capitalista de fato funcionou. Se Curtis aceita esse estado de coisas, ele tem de aceitar que a mentira, como queria Goebbels, tornou-se verdade. Isso quer dizer que o homem, como um projeto de si livre e histórico, ou seja, que “naturalmente” não é nada, não possui substância essencial a qual possamos alcançar e daí tirar conclusões. Ele se tornou outra coisa, uma coisa específica, moldada por esse sistema. Se a humanidade não é naturalmente má e consumista, assim ela se tornou, e assim ela é hoje, no mundo pós-guerra fria.

Se Curtis está correto, então os seus inimigos também estão. Eles não estavam quando iniciaram o plano, mas agora estão. Eles tornaram o homem um indivíduo que só pensa em sua própria sobrevivência e prazer e que se identifica através das mercadorias que adquire. Não naturalmente, mas artificialmente mau e consumista. A causa pode ser diferente, mas o efeito é o mesmo. Por isso, a solução que Curtis não dá pode ser subentendida. A situação do homem mau é usada para justificar um sistema de coerção da maldade (ou seja, do indivíduo), que já parte do princípio de que a política é impossível, de que ela deve ser trocada pela administração, que o governo deve se assemelhar a uma empresa e se submeter às corporações, que são estruturas de prestação de serviço voltadas para um indivíduo mau e consumista. Se tal situação foi antes uma ficção, mas, agora, por conta dessa ficção tornou-se realidade, então tudo o que o sistema justifica a partir daí ganha validade. É necessário um sistema de coerção, pois o homem tornou-se maldoso.

Assim, através da alteração das condições materiais, o sistema justificou empiricamente aquilo que era apenas projeção fantasmática, de viés ideológico. Isso tornou o sistema de dominação da democracia liberal muito mais eficiente. Ele se tornou de fato necessário, resultando daí que, sem ele, os homens se matariam uns aos outros (e um outro ensaio poderia relacionar isso com a emergência do antípoda desse sistema, o terrorismo).

Adam Curtis pode dar três respostas confrontadoras a esse cenário de plenitude da dominação.

Resposta libertária: Só é possível um outro ser humano fora do sistema. Vamos organizar centros de resistência, de preferência longe das grandes metrópoles, ou nas suas lacunas, nos espaços onde ainda não tomou controle total. A partir daí pode-se pensar numa confrontação com o sistema ou numa continuação indefinida da resistência, indo cada vez mais longe, não esperando jamais disputar o poder do sistema.

Resposta social-democrata: Parece decorrer dos filmes, em especial The Trap, além de se justificar pelo fato de Curtis estar fazendo filmes pela BBC. Devemos militar pelas consciências de dentro do sistema, expondo o engodo perpetrado. A única solução é a volta da política, daquilo que estava em jogo antes ou no momento em que a transformação perversa do indivíduo ainda engatinhava, a saber, a Era antes da queda do muro de Berlim e do fim da história de Fukuyama, a presente era das pós-ideologias. Devemos reconstruir a política, a figura do estadista no lugar do político CEO, do debate público de ideias e não do hermetismo tecnocrata.

Resposta estalinista: Se o homem foi artificialmente manipulado para a maldade, ele pode o ser para a fraternidade. É necessário um outro sistema de opressão, girado 180º.

As duas primeiras respostas podem emergir explicitamente do filme e das declarações de Curtis. A última está implícita. Se o homem foi moldado dessa maneira, talvez não exista um “estado zero” onde estejamos livres da ação transformadora externa. Ele sempre foi algo que “não é ele mesmo”. Se o homem não é naturalmente mal, também não é naturalmente bom. A fraternidade não deve ser esperada, como decorrência da liberdade da essência do homem. Essa essência é ausente. A fraternidade deve ser construída artificialmente.

Ainda é possível pensar uma outra faceta da resposta libertária de Curtis, que concorda com a descrição hobbesiana do homem, mas não com a solução de Hobbes: deixar o homem ser mal, deixá-lo ser o lobo de si, eliminando o sistema de opressão/contenção. Isso geraria uma crise, e da crise uma nova forma de organização poderia surgir, talvez pior que a atual, talvez melhor. De qualquer modo, seria uma forma gerida por números maiores de atores políticos, ao invés do monopólio que estaríamos vivendo. Fazer política seria fazer a aposta na possibilidade de algo melhor emergir da crise.

Mas a grande questão que vem dos filmes é se isso que decorre de uma possível quebra do monopólio de poder político (o paradoxal “império democrata”, o filho da guerra fria) pode ser de alguma foram auto-gerido. O sistema tornou o homem individualista e anti-político, e sustenta sua criação. Mina-se esse sustento com a crise e o que sobra? O homem pode naturalmente tornar-se político e fraternal? Some instantaneamente a educação para o individualismo que ele recebeu toda a vida e continua a receber?

Pelo fato de Curtis não dar respostas propositivas nos filmes, temos que imaginar para onde eles podem estar apontando. No fim, os filmes nem sempre precisam estar apontando para apenas um lugar específico; as diversas possibilidades que eles nos levam a conceber já são esse lugar.