Espólio de guerra

Por João G. Paiva.

“Às vezes me pergunto, será que a globalização significa americanização?”
Jia Zhangke

Nós, os nascidos no final dos anos 1980 e início dos 1990, pertencemos àquela geração que nasceu com a queda do muro de Berlim, fomos a primeira a crescer sob o impacto da vitória da guerra fria pelos Estados Unidos. Ter passado a infância nos anos 1990 foi ter vestido camisas da Disney e bonés com a bandeira norte-americana durante anos. Ter assistido reality shows e escutado música pop e música brasileira imitada do universo pop, ter no filme do Rei Leão e em outros importados da “Sessão da Tarde”, da Rede Globo, as mais íntimas emoções da infância. Na adolescência ouvimos pop-rock e assistimos todos os clipes de bandas transmitidos pela rede MTV. Nosso parâmetro de cultura não é o da cultura oral nem o da cultura escrita, mas o da indústria de massas em circulação plena. Crescemos com a “abertura econômica” do mercado brasileiro e absorção de todo universo de produtos reservados às periferias do capitalismo mundial. Enquanto crescíamos o Brasil de Fernando Henrique Cardoso fazia seus ajustes fiscais e privatizações e nós não sabíamos de nada porque a despolitização se infiltrava em todas as escalas da vida. Invertendo a frase de Brecht, tudo, nos anos 1990, parecia natural. Hoje essa década virou sinônimo do brega e do démodé, mas a verdade é que enquanto acontecia, ela própria, levou a si mesma demasiado a sério, repudiando tudo que era velho, ultrapassado, tudo, em suma, anterior àquele auge que parecia-se estar vivendo. A nossa geração, completamente filiada à cultura norte-americana, é a geração nascida do fim de uma guerra fria mundial. Nós somos o espólio dessa guerra. Fomos dados aos vencedores.

Estamos a léguas da influência europeia vivida durante séculos no país. Hoje as asas francesas são recolhidas ao próprio ninho tentando salvar a si mesma do declínio. Quando um jovem brasileiro médio trava relações com a França, por exemplo, é frequentemente com aquele olhar produzido pelo fetichismo norte-americano, de quem descobre o charme parisiense através de filmes do Woody Allen e está mais interessado em roupas e brasseries do que no Gótico ou Baudelaire. O brasileiro conseguiu viajar mais o mundo e percebeu o mundo com lentes concedidas pela indústira de massas dos Estados Unidos. O que se considera exótico, belo ou chato, é algo previamente importado e decidido fora do país por pessoas que mal sabem da nossa existência. O que restou de forças europeias na geração a que me refiro é a cultura do império britânico, geralmente cool, e que podemos situar mais ou menos entre as bandas dos Beatles e do Oasis. A entrada de tais produtos tornou-se, naturalmente, muito mais fácil a partir da adoção do inglês como segunda língua nacional, e neste caso específico estamos falando, claro, das classes média e alta. Os universos da cultura tornaram-se “patrimônio cultural” e “imaterial” e a relação com a arte e artistas é próxima a do fan club, indissociada de mercadorias, pôsteres, imãs de geladeira e camisas estampadas.

Ao longo do século XX, e durante a guerra fria, ainda não era assim. O Brasil passou longo tempo isolado de si mesmo, disperso em sua riqueza, e principalmente a música popular floresceu miscigenada de forma espontânea. O provincianismo, e a dinâmica ainda vagarosa do capital, fechava relativamente o país à hegemonia cultural estrangeira. Assim nasceram o baião e a música caipira. No Rio de Janeiro começamos o século XX com a perseguição ao samba em nome da cultura europeia dos salões. Aos poucos o samba tomou espaço e, enfim, mais tarde, Noel Rosa escreveu a letra de “Não tem tradução” sobre as influências externas na cultura do país.

Noel defende que o samba esteve protegido da direção portuguesa (“Tudo aquilo/ que o malandro pronuncia/ Com voz macia é brasileiro,/ já passou de português”) e da francesa (“O samba não tem tradução no idioma francês”), mas que começava a fracassar diante da interferência norte-americana. Para ele “o cinema falado é [era] o grande culpado da transformação”, o malandro deixava de sambar e estava trocando o samba pelo foxtrot.

O debate entre defesa da música-cultura-brasileiras contra as influências dos países centrais do capitalismo percorreu quase todo o século XX. Ainda se manteve vivo, por exemplo, quando os comunistas criticaram a introdução da guitarra elétrica na melodia nacional, responsável por um dos nossos melhores discos já feitos, Transa de 1972 do Caetano Veloso. A Tropicália ainda foi marcada por essas discussões ao mesmo tempo em que João Nogueira fundava o Clube do Samba no bairro do Méier, tentando cultiva-lo a despeito da música de discoteca que havia se tornado o ritmo oficial da nova juventude. Mas se isso ainda encontrava algum respaldo na realidade daquela época, hoje, para a nossa geração, nos parece algo risível e digno de piedosa ingenuidade. Nosso mundo não conhece mais uma vida sem a guitarra elétrica por detrás e sem espaços noturnos mais ou menos parecidos com as antigas discotecas.

Quais as consequências do cinema de Hollywood e das pilhas de séries de TV no imaginário de nossa geração? É impossível calcular. Tornaram-se a nossa substância. A sucessão de imagens e roteiros realizados nos moldes da indústria concedeu ao nosso imaginário o seu humor, aspirações, trejeitos, os dilemas amorosos, estabeleceu os limites do que é legal e do que não é. Conferiu-nos um modo de ser e de achar. O romance moderno europeu, mais profundo e minucioso, é infinitamente menos lido porque tornou-se estranho, entendiado, não nos parece fluido e natural como as séries de TV.

Mas não faz sentido nem fazer a crítica a partir da ótica regional brasileira nem fazê-la a partir do trono da extinta cultura europeia. Este texto não é um estudo sociológico mas antes depoimento e testemunho. É a tentativa de rabiscar um diagnóstico para o estado atual da cultura no país, que não pode mais ser dissociado da vida norte-americana. Como disse a outra colunista, Uiliana Ilza Zanon, o cinema nacional, para nós, é cinema estrangeiro, e o cinema dos EUA é o nosso verdadeiro cinema nacional. Essa fórmula poderá, futuramente, ser aplicada a outras áreas da cultura em que vivemos.

Por outro lado, reavaliar a herança europeia significa desfazer as hierarquias que edificava. O apogeu da “alta cultura” moderna na Europa pode ser reconhecido, talvez, nos salões parisienses do século XIX e no circuito vienense do mesmo período. Ali encontramos o desenvolvimento de aporias que culminarão, de um lado, no positivismo behaviorista, de outro, no esteticismo desgostoso. E o que é o esteticismo senão um disfarce aristocrático e envergonhado do próprio esvaziamento existencial a que a Europa se lançou? Não foram poucos os gênios europeus que intumesceram de desespero ao constatar o estágio terrível onde o velho mundo havia chegado. Deu fruto a toda uma escola, que transita entre Karl Marx e Friedrich Nietszsche. A colocação de Hermann Bröch parece-me bastante clara, tanto l’art pour l’art quanto o business for business foram dois galhos de uma mesma árvore. O universo dourado das óperas vienenses, apesar do alto valor artístico, foi também o espaço da derrocada burguesa pronta a converter aquela arte, que não sabiam apreciar, em valor social e instrumento tosco. Todo elitismo da tradição brasileira, suas maneiras servilistas e escravocratas, possui fundas raízes europeias, o que é indissociável do conteúdo cultural que importamos por séculos. Foram os europeus os introdutores da ideia de supremacia racial e foram eles que extinguiram milhões de índios e incontáveis culturas, para sempre, do horizonte da terra. Tudo em nome da supremacia a que se auto-dedicavam.

As nossas maiores mazelas tem relação com a Europa. E muitas delas estão sendo corrigidas por vias de importação da solução norte-americana para os mesmos problemas. Trata-se da formulação liberal que chega-nos semi-acabada, e não raro pauta os nossos próprios debates. Naturalmente as influências externas surgem mais rapidamente na classe média, por conta da proximidade entre os modos de vida, com fluxo maior de consumo, fechada em apartamentos e com seus filhos estudando inglês. Mas não isenta a penetração em todos os níveis sociais.

Já a forma norte-americana de entrada nas classes populares é mais complexa. Alguns exemplos. Pode ser vista na troca do samba pelo funk nas favelas, ou então pela troca do forró pelo pop-forró nas cidades nordestinas, na preferência por certos tipos televisivos e de entretenimento. Podemos reconhecê-la através da receptibilidade às igrejas pentecostais e universais de modelo importado. Principalmente quando falamos da teologia da prosperidade e da cumplicidade cada vez maior entre religião protestante e capitalismo.

O modo de vida menos urbano e mais provinciano do brasileiro anterior à queda do muro de Berlim, e da abertura comercial iniciada no governo Collor, deu lugar ao novo estilo semi-californiano, produzido, frequentemente, em Los Angeles, uma cidade onde a maioria das pessoas não sabe que no Brasil se fala português. A cultura foi posta em jogo pelo mercado e pela indústria de massas, fazendo com que os “melhores concorrentes” triunfassem e se disseminassem de maneira inédita. A nova etapa econômica e política foi responsável por criar as bases materias de absorção do novo estilo e abandono de todo circuito artístico-cultural do velho Brasil. Nossa geração representa e corporifica tal impulso. O que subsiste é a tentativa de resgate e salvaguardo, mas de modo algum uma relação orgânica com os antigos modelos.

Portanto é impossível para nós, os nascidos no final dos anos 1980 e início dos 1990, achar uma solução prontamente, já que fomos constituídos por algo fabricado sob medida. Nossa geração é o espólio da guerra fria, entregue aos vencedores. Não temos apego ao velho mundo para sonhar com a antiga cultura, nem tampouco nós conservamos a ingenuidade de restaurar modos de vida brasileiros à maneira popular tradicional. Hesitantes, sabemos que a única via possível no mundo de hoje é o cosmopolitismo. Talvez nossa verdadeira busca deveria ser através de um cosmopolitismo real, integrado com os demais continentes, e não apenas a absorção caricaturizada que a indústria de Los Angeles nos vende como sendo o mundo.

Hermeto Pascoal talvez seja o nosso grande jazz man que nunca abriu mão da melodia do sertão e da música de pescadores. Ele experimentou todos os sons e cunhou a ideia da “música universal”. Quem sabe ele não tenha dado um primeiro passo. A única saída para a sobrevivência da cultura brasileira é metamorfosear-se numa cultura universal. Apenas integrando-se ao invés de subservir. Só assim ela tem alguma chance de se salvar.

Berliner-Mauer