Goethe e o Vasco

Por Bruno Marcos.

Michel Löwy em recente apresentação do livro O capitalismo como Religião que conta com a reunião de textos de Walter Benjamin, propõe que este segue a trajetória de alguns teóricos românticos que fazem emergir figuras, em suas análises específicas, pré capitalistas ou inadequadas ao capitalismo e que portanto, segundo essa linha de raciocínio benjaminiana que considera o valor crítico e não só temporal dessas figuras, nos poderiam ensejar ou figurar imagens de superação do atual modelo capitalista. É como se fosse a velha máxima de combate: dar um passo atrás para dar alguns adiante.

Ontem assistindo uma belíssima mesa de discussão sobre arte e marxismo, o professor argentino Miguel Vedda também se fazia valer de Benjamin para sua explanação. Tratava da clássica imagem de ‘escovar a história a contrapelo’ como metáfora para a ideia de resgate, que daria conta de dar a ver aquilo que está cerrado, oculto pela penugem, pela doxa, pela história oficial. Vedda que é um rigoroso estudioso de literatura alemã resgata Goethe, o velho Goethe, que segundo seus apontamentos sofrera uma rejeição da classe média burguesa por ser tediosamente hermético. O professor revela que o descontentamento burguês coincide com a transformação formal e conteudista do autor alemão, que aos poucos, segundo ele, vai deixando as caracterizações morais como fundamento de suas obras e vai interessando-se pelas estruturas que incidem sobre os indivíduos, inclusive tendo estudado economia política. Ou seja, a ideologia burguesa que quer em imagem do mundo, um dos fundamentos da arte, o reflexo de seus condicionantes: a virtude do indivíduo é o que o leva as conquistas terrenas, não suportaria a ‘traição’ de Goethe.

Pois bem, o estágio atual do capitalismo é tão voraz que sua capilaridade adentra esferas da vida outrora menos interessantes para este, como o jogo. E em especial o futebol. Por presente não há o menor pudor em pronunciar termos como: name rights, time-marca, vender mais produtos, fidelização do sócio, clube empresa, cliente (e não torcedor) e por aí vai ladeira abaixo. O esporte já naturalizou as concepções do capital para designar os conceitos e a praxis do jogo e da conduta dos clubes. A defesa do sistema dos pontos corridos é sintoma claro disso: vence quem melhor se planeja, quem tem o melhor excel, quem especula melhor no mercado, quem tem maior rentabilidade e portanto tem mais mérito.

Nesse cenário o Vasco insere-se como corpo estranho, porque é grande o suficiente para ter rendimentos econômicos astronômicos mas é politicamente arcaico, sua inabilidade com os procedimentos de mercantilização do futebol é evidente a ponto de colocá-lo em iminente derrocada. Nesse sentido a imagem dialética projetada pelo Vasco Atual: arcaísmo despótico com cara feudal aliada a história de clube de massa nos dá pistas de sua inadequação e do incômodo provocado por ela. O Vasco (e tantos outros) é a pedra no sapato para o avanço da mercantilização do futebol, mesmo que o faça de forma inconsciente e a despeito de seu próprio fracasso.

Portanto o interesse em ‘resgate’ do vasco se dá nessa medida de estranheza às normatizações do processo capitalista, isso não significa que o clube seja o arauto de um processo de superação do capitalismo e nem que não esteja submetido a este em diversos níveis, mas como o professor Vedda benjaminianamente busca em Goethe elemento dissonantes à ideologia burguesa, podemos de algum modo perceber o desconforto que o clube da colina evidencia dos certames atuais.

E como o futebol, mesmo ante essa miséria reificadora, ainda revela suas pequenas surpresas, ontem a glória esteve do lado vascaíno e não por coincidência em um jogo de copa e num clássico, onde as noções de mérito podem por hora ser subvertidas. É como se o Vasco estivesse sempre à espera de um Dom Sebastião, que por vezes dá o ar de sua graça e concebe a glória alheia, mas que como por força dos mares revoltos pode naufragar terrivelmente. Nos resta, como amantes do futebol – não só vascaínos – não naturalizarmos o fraseologismo atual, as normas e condutas prometedoras do progresso, e os sucessos e fracassos econômicos. Um clube, assim como uma obra de arte, não é maior que a vida nem o mundo, mas pode nos dar uma imagem de quão belas ou terríveis as coisas estão.