Copacabana babilônica

Por Viviane Moraes*.

Rio, cidade desespero, já dizia a música “Zerovinteum” de Marcelo D2 e BNegão, nos áureos tempos do Planet Hemp. Outro trecho da letra me vem à cabeça: “aqui fazem sua segurança assassinando menor”… Lançada em 1997, no álbum Os cães ladram mas a caravana não para, essa música me parece ter sido escrita ontem. A sensação de que o Rio de Janeiro é uma cidade com “dois pesos e duas medidas”, fica cada vez mais latente, quando a própria autoridade governamental, que tem (ou deveria ter) a obrigação e o dever social, profere e legitima a condição de pobreza criminalizada, para o gozo da classe média, ávida por palavras a serem usadas como alívio para suas consciências.

A partir deste discurso raivoso e preconceituoso, criam-se mecanismos para separar os pobres da Zona Norte/Oeste e do Subúrbio, da Cidade Olímpica que receberá estrangeiros e que, por um mês, terá os olhos do mundo mirando, atenciosamente, cada feito esportivo e, também, cada deslize em sua maquiagem de cidade do desporto. Afinal, queremos ver Olimpíadas! Superação no esporte! E não um monte de gente de condições inferiores atrapalhando nossa foto na praia de Ipanema. Se quisermos ver pobres, pagamos um favelatour ou nos engajamos numa ONG que ajuda as pessoas do local, mas que também só trabalha nas comunidades da Zona Sul… o transporte aqui é meio caótico, sabe?! Não queremos que o gringo que vem nos ajudar, passe horas nesse trânsito e não aproveite as belezas da cidade.

Ando pelas ruas de Copacabana, a música vem e grita “segurança é subjetiva”. Quanto este bairro é a síntese do esquema social em andamento. Bairro babilônico. Todas as classes, cores, características, credos, profissões, gostos, medos, preconceitos… Copacabana se quer Leblon, quando está mais para Glória com sua beleza simples e decadente. Para os do asfalto, urge mostrar o quanto se distinguem, em tudo possível, dos moradores dos maciços logo atrás. Porque é muito mais fácil pensar na vida “de frente para o mar [e] de costas para a favela”.

A Princesinha do Mar é um bairro em que converge a nata da malandragem, atualmente ressignificada em figuras de “justiceiros” da Zona Sul ou de menores infratores do Subúrbio, e as famílias tradicionais, assim como os artistas e as prostitutas. Flanando pelas ruas de Copacabana você pode apreender, sem precisar se esforçar muito, os elementos que fazem a personalidade deste bairro: os velhos babões e pedófilos passando o tempo em praças ou botecos pés sujos; as pessoas e seus cachorros caminhando na praia em uma competição de qual tem a raça melhor; os porteiros reprodutores de um comportamento preconceituoso, que constrange as pessoas a partir de sua aparência, cabendo a eles decidir qual elevador deverá utilizar; a vovozinha com olhar fascista que elogia o bebê e quer ver morto o moleque preto que passou por ela e tinha uma cara de trombadinha…

Andando pela “Cinco de Julho” assaltam-me as leituras de Frantz Fanon, Aimé Cesaire, Leopold Senghor e passo a refletir sobre o que eles diriam se estivessem aqui, no Rio, em Copacabana, em 2015, vivendo um regime higienista e segregador… Talvez nos usasse como exemplo de síntese do grito do opressor e a submissão do oprimido; veria que as máscaras brancas são mais que impostas, elas são pregadas em nosso rosto com a desculpa de não sermos tomados como ladrões… afinal, “preto é tudo igual mesmo… pode ser facilmente confundido”.

É um bairro curioso… muito curioso…: “ei, cuidado com sua carteira! Vi uns pivetinhos estranhos andando pela Nossa Senhora”, me puxa para a realidade uma dessas senhoras com sobrancelhas arqueadas pintadas de azul e cabelos vermelhos acaju, um sentimento de volta a ditadura, porque no meu tempo era melhor.
Em meio a todo o caos babilônico neste bairro que se quer Gávea, mas se encontra Cinelândia, o fascismo e o racismo dialogam e caminham de mãos dadas para um mergulho feliz nas águas da internacional Copacabana. De resto… a vida que segue.

* Viviane é professora doutora de literaturas africanas e língua portuguesa pela UFRJ.