A Nossa Empatia Não É Inteiramente Nossa

Por Filipe Völz.

Pensemos em todos os mortos do mundo. É impossível chorar por todos eles. Não existem hashtags suficientes no mundo pra todos eles. Não existem escritórios de publicidade suficientes pra todos eles. Não existem coberturas midiáticas suficientes pra todos eles. Como resultado, não existe empatia suficiente para todos eles.

A empatia, como o petróleo, é escassa. A empatia não dá em árvores. Essa cota limitada é gasta de acordo com uma economia que não é gerida inteiramente por nós mesmos, que somos apenas alguns dos diversos acionistas da nossa empatia. O país em que vivemos, as pessoas que nos cercam os meio de comunicação que usamos (e que não necessariamente escolhemos) disputam a economia da nossa empatia. É pelas notícias que recebemos, quase unicamente, que podemos conhecer os casos de mortes, acidentes, atentados. Algumas notícias repercutem mais que outras – e as razões não estão nas mãos do público consumidor de notícias tanto quanto estão na mão daqueles que controlam o fluxo das notícias. Esses órgãos podem definir a pauta das discussões da semana, do mês, do ano. Às vezes, e somente às vezes, eles são obrigados a engolir pautas que não os interessam. Quando isso acontece, recorrem a uma segundo modo de controlar o debate público: reinterpretam a notícia do seu jeito, normalmente com o auxílio da fragmentação da notícia em diversos sub-temas, nos quais eles aplicam novamente a lógica de selecionar algumas partes em detrimento de outras. Foi assim, por exemplo, que notícias sobre as manifestações de 2013 focaram na destruição do patrimônio público, apenas um dos acontecimentos dentro do evento maior. Ou então, com o decorrer das manifestações, deram voz a certos movimentos dentro do movimento, e progressivamente fizeram vingar, como imagem, a ideia de que essas correntes específicas expressavam a unidade daquela revolta.

Não existe algo como uma empatia desprovida de contexto. Só é possível se compadecer daquilo que vemos. Mais que isso, existem diferentes níveis de compadecimento. Aquilo que podemos visualizar de forma mais complexa, rica, nos torna mais próximos, facilitando o trabalho de se pôr no lugar do outro, que é o ato intelectual que precede a empatia, mesmo que o seu primado não seja visível pra nós. Esse é o método básico de criação de empatia usado pelo cinema de ação, por exemplo. Em um clássico filme do gênero nós ficamos conhecendo a família do herói, seus amigos, seus hábitos, os hábitos das vítimas, sempre mostrados como se “flutuassem no ar”, como se não dependessem de mais nada além de si para existirem, como se fossem “naturais”. Os vilões, muitas vezes estrangeiros, não tem família, nome, personalidade, vontade individual, etc., e muitas vezes as suas motivações são simplificadas ao extremo. Na série Power Rangers, esse formato chega ao máximo: os vilões são chamados de “bonecos de massa”, seguem ordens cegamente, possuem todos o mesmo rosto e formas, balbuciam no lugar de usarem uma linguagem, quando morrem desaparecem no ar.

Num momento de comoção nacional e internacional, a primeira coisa a se fazer é pensar friamente. Nenhum luto é inválido, mas devemos tomar cuidado para não tornar o luto uma arma de despolitização. É possível se compadecer e ao mesmo tempo se perguntar pelas razões de nosso compadecimento, buscando tais razões não apenas na nossa vontade ou história pessoal, mas principalmente fora de nós mesmos, no aparato que nos cerca, e que nos abre o horizonte daquilo que nos aparece ou não aparece. É preciso pensar um atentado não como um acidente, como um tornado, um terremoto, mas sim como o que ele é, um evento político, formado historicamente, a partir de razões discrimináveis. O luto não deve nos fechar o campo político, mas abri-lo. Deve nos fazer procurar os culpados onde eles de fato estão, não nos fantoches e espantalhos que tanto interessam àqueles que procuram esconder sua culpa. E, acima de tudo, deve nos fazer entender a culpa não através da moral, mas da política. A arma mais simples da criação de empatia é a doação de um rosto. Os terroristas são ótimos vilões porque, apesar de mascarados, dão um rosto, uma figura, uma imagem que fala mais que mil palavras, como se diz. As mil palavras são escondidas atrás do rosto, para que não possamos ver o que elas dizem.

Por que as sitcoms usam risadas fabricadas depois de cada piada? Por que os programas de auditório mostram rostos de pessoas emocionadas durante uma apresentação emocionante? Porque nós sentimos vontade de rir quando vemos alguém rindo, e de chorar quando vemos alguém chorando. Todos ao nosso lado estão emocionados, logo nos emocionamos. Todos estão indignados, assim nos indignamos.

http://noticias.r7.com/internacional/incendio-destroi-acampamento-de-refugiados-na-franca-14112015