2015, algumas reflexões

Por Viviane Moraes

Todo fim de ano é a mesma ladainha. Dentre todas as coisas pseudointeressantes que este momento proclama, grita, obriga-nos, há uma delas que tenho especial carinho: a análise do ano que passou e o que poderíamos pensar em mudar para o ano que vem, tanto no âmbito pessoal quando social. – tá bom, neste momento você se pergunta por que achar esta joça interessante, com tantas comidas, bebidas e piadas sem graça neste dia familiar.

O interesse, neste caso, está no fato do ano em questão ser o de 2015. Claro que coisas positivas aconteceram, contudo tivemos também grandes e importantes retrocessos. Nem vou começar por Cunhas e impeachment, iniciaremos por algo mais simples: a inexistência do respeito.

As pessoas esqueceram o que é respeito. Nesta lógica da lei do mais forte – ou do mais rico, do mais branco, do mais hétero –, caminhamos, a passos largos, em direção ao passado. E, infelizmente, não é para refletir sobre o que passou, mas para repetir os mesmos erros.

Lanço, então, algumas questões relacionadas às bitolagens de 2015:

1- Por que as domésticas não podem ter os mesmos direitos e deveres trabalhistas que qualquer outro profissional? – se você acha que vai haver maior desemprego, ou que a classe média não pode arcar com esses impostos (então não arque, simples assim), ou, ainda, que se elas, deixando de serem domésticas, não terão o que fazer da vida, tente olhar mais amplamente. Será que você não está com medo de ter que lavar a própria privada?

2- Por que negros em papéis de destaque incomodam tanto? Já reparou que quando lemos um livro, por exemplo, se o protagonista não tiver uma descrição de seu fenótipo ou cor da pele determinada, dificilmente lhe imaginaremos negro. Os negros, assim como indígenas, homossexuais, transexuais, não estão inseridos nas artes (e na sociedade) de maneira normal, corriqueira e, sobretudo, positiva. Se eles são protagonistas, tenta-se justificar suas presenças.

Já deu tempo para mudarmos de temática. Há muitas questões para se discutir, mas não poderemos caminhar se não começarmos a aceitar que o Brasil é um país racista, que veste suas babás de branco, que se espanta (ao invés de ter orgulho) ao ver o filho de uma faxineira se formar na universidade pública, que acredita que bandido bom é bandido morto e que não se solidariza com a dor alheia. Algo tem a ver com a “carne mais barata do mercado ser a carne negra” ou que “todo camburão tem um pouco de navio negreiro”. Este ano, o meu coração foi fuzilado 111 vezes.

3- Por que as mulheres não têm direito de abortar? Se a resposta tem relação com Deus, pelo que me lembro, ele tinha a fama de ser justo e compreensivo, principalmente com as mulheres. E nem vamos falar sobre o tal filho, Jesus. Olha que nem preciso ler a Bíblia para chegar a esta simples conclusão. As mulheres, se por acaso estiverem pecando, vão “acertar as contas” depois, não é isso? Então, por que você se importa se ela vai tirar o filho ou não? Você vai estar presente em seu julgamento como anjo inquisidor-mor? Nós temos o direito de fazer o que quisermos com nosso corpo. Talvez tenha alguma relação com o que se entende por livre arbítrio.

4- Por que os homossexuais e transexuais não podem ter uma vida tranquila, sem que ninguém os encare como algo negativo? Por que se pergunta quem é o homem e a mulher na relação? Será que, talvez, eles não estejam interessados nestas definições? Se a resposta, mais uma vez, se relacionar a Deus, basta reler a questão anterior e mudar os atores. Pense bem, será você o companheir@ desta pessoa? Você estará presente na hora do sexo ou qualquer cena de amor entre eles (nem venha com essa história de beijo e agarramento na rua, poupe-se, viu)? Provavelmente a resposta será não. Então por que se incomodar tanto com a felicidade alheia? Aceite o mundo! Os homossexuais e transexuais não vão desaparecer só porque você quer, pois acredito que eles também gostariam que você desaparecesse, não é mesmo?

Desta forma reflexiva, desejo um 2016 mais crítico para todos nós. Pensemos.