Sugestão de Programa de Verão ou Sobre o Kitsch Funerário

Por Uiliana Ilza Zanon

Voltei de Budapeste para o Brasil este fim de ano, não pelas festas, mas para um enterro. Para enterrar meu avô, no mausoléu da família no cemitério São João Batista; foi necessário exumar o corpo de minha avó, ação que presenciei.

Pra chegar lá foi necessário caminhar por uma boa extensão do cemitério, programa de verão que recomendo a todos os interessados, tenham funerais marcados ou não. As árvores e o largo espaço aberto e horizontal do cemitério deixam o clima menos agressivo do que no resto da cidade. É o ambiente perfeito para a contemplação das lápides, onde o barroco kitsch predomina. As tumbas não são obras de arte, são bregas em sua maioria, mas tumbas, assim como o kitsch, não foram feitas para serem “arte”, mas para serem verdadeiras. Não, é claro, diretamente verdadeiras, mas indiretamente. O kitsch mostra a verdade: não por aquilo que fala, mas por aquilo que se revela na sua fala. Por exemplo, a propaganda, curral do kitsch – outdoors, designs de mercadorias, capas, etc. –, ela é falsa em relação ao que diz (que tal carro ou cerveja vai melhorar sua performance “with the ladies” ou te fazer ascender social e profissionalmente), porém revela de verdade um desejo que está (sendo introduzido) no público.

É claro que não apenas o kitsch faz isso, só que ele é muito mais claro em denunciar as nuances específicas de um público, de um mercado e de um tempo – pois, como aparência fetichizante da mercadoria, se ajusta a dinâmicas específicas do mundo do consumo, que tendem a ser subtraídas pelas “grandes obras”, destacadas do próprio tempo. Isso é mais verdadeiro hoje, quando as mercadorias (principalmente as supérfluas, que são mais esponjosas, melhor retentoras dessas nuances específicas, por prescindirem de base material) vivem próximas do cidadão, que é mais cidadão quanto mais é consumidor (por isso os pobres são cidadãos de segunda classe).

É assim que o barroco das tumbas, sarcófagos, mausoléus, lápides, urnas, jazigos e tudo o mais do rico mundo dos mortos se torna um sorvedouro sociológico da história dos ibero-americanos, dos latinos, de todos aqueles que vieram para o Brasil e se não eram descendentes de portugueses, geravam descendentes aportuguesados (cultural e geneticamente). Quem já foi nos cemitérios de Portugal, como também na Espanha, pode notar as semelhanças.

O povo da península ibérica é, como todo o povo europeu, formado por diversas etnias diferentes, onde o árabe tem um peso todo especial. O povo brasileiro multiplica essa mistura, mas, ao menos até os anos 1950, se posso dizer, essa mistura só fez realçar as especificidades brasileiras, e nelas as ibéricas. Depois disso as coisas ficam meio complicadas, porque as mercadorias americanas entram com peso inédito no país, pasteurizando a nossa cara, nos tornando gradualmente um pouco mais parte de uma “raça universal” de sujeitos-consumidores, que tem a mesma boca suja de molho de Big Mac em qualquer lugar do mundo. Enfim, como as tumbas remontam, no geral, à década de 1900 e até a de 1960 e redondezas (onde meio que se reduziu significativamente o ciclo de produção de tumbas, possivelmente porque o espaço entrou em escassez), é dos kitschs esponjosos desses tempos que nasce o estilo predominante. Consequentemente, ele revela algo do brasileiro, majoritariamente o descendente de português, que eram mais numerosos na classe média e alta carioca, que tinha o poder aquisitivo para ocupar o cemitério da zona sul.

O barroco foi importante no Brasil, como mostram as construções antigas, cuja figura que se destaca mais são as igrejas, às quais a estética mortuária, por razões óbvias, acaba se ligando. Esse estilo latino-ibérico-americano é cheio da mistura entre linhas retas e ondulares, adotando também, no caso mortuário, a colagem (fotos dos mortos – e em uma lápide encontrei um desenho de criança feito do neto para o avô), a escultura romântica em sua forma mais patética (anjinhos orando ajoelhados em frente ao retrato do morto), os letreiros, com uma poética própria que merecia um texto só pra si, com poemas, citações (diversas línguas, em especial latim, mas achei também francês e hebraico), declarações do vivo para o morto (cheio de palavras como “honradez”, “fidelidade”, “ombridade”, “trabalho”, etc.), além de vasos incorporados à pedra do túmulo, nas mais diversas formas, e muito, muito mais coisas (vale a pena ver – sinceramente, é um programa mais interessante que o M.A.M. ou o M.A.R., não que isso seja algo muito difícil de se alcançar).

O português parece que é brega de nascença, se pudéssemos dizer isso (mas não podemos). Os VALORES (os VALORES) são aqueles que assumem o lugar do corpo em decomposição, na cabeça dos que ficam. Um homem honrado, ordeiro e trabalhador, uma esposa fiel… tão confiáveis e estáticos quanto os cadáveres que tudo o que eles foram agora é. Parece ser essa a memória desejada dos parentes mortos. Apesar dessa percepção confortável e conveniente, o cemitério português é cheio de melancolia e melodrama. Na tumba de Tom Jobim lê-se que “a arte é longa e o tempo é breve”, e na de Cazuza que “o tempo não pára”. A pedra enorme onde jaz o corpo de Santos Dumont é o suporte para uma escultura de Ícaro, com suas asas de cera no alto, ideia do próprio aviador, que, conta-se, teria se mortificado em vida ao compreender que sua invenção se convertia em máquina de guerra, para finalmente suicidar-se. Esse tipo de situação é comum no cemitério: o morto concebeu o próprio túmulo em vida, e prestou homenagem a si mesmo, da maneira como queria ser lembrado. A melancolia portuguesa talvez nasça da constatação solene de sua mortalidade, o que, entretanto, não é capaz de levá-lo para a resignação serena. Ao contrário, fortalece uma luta sem trégua contra o tempo, uma luta fadada ao fracasso. O que não impede o português (considerado “burro” pela nossa mentalidade por vezes mais pragmática – afinal somos uma potência mundial – de terceiro mundo) de continuar lutando, tombar lutando, erguer sua tumba lutando, como um último esforço de se manter eterno, junto com, é claro, a sua prole, menos proveniente do sangue que dos VALORES.


Quando cheguei enfim ao jazigo familiar, a exumação teve início. É um evento mais sereno do que parece, mas ainda assim catártico. Dois funcionários do cemitério realizam a exumação. Ao abrirem a tumba, não surge de imediato o defunto, mas uma antecâmara com onde se encontram cinco caixas retangulares, parecidas com aquelas caixas de ferramentas. Nelas ficam os ossos de alguns dos mortos mais recentes da família. É interessante que seja uma caixa de ferramentas que guarde ossos, sendo os ossos uma das primeiras ferramentas da humanidade. Não sei quem eram essas pessoas nas caixas, mas tinham meu sangue. Sei perfeitamente quem era a pessoa na tumba, que, na exumação, é colocada em uma caixa nova. Um dos funcionários pergunta se queremos olhar. Eu quero, os outros não. Me aproximo, mas saio rapidamente, pois o vento está mudando de direção, e eu tenho medo de ficar contra o vento e algo do morto cair na minha boca. Olho e vejo o crânio da minha avó, com a mandíbula já solta, em posição aleatória. Tem um colar de pérolas falsas. Não lembro bem se tinha mesmo ou inventei esse colar. Os ossos estão avermelhados, por causa da terra, e os poucos fios de cabelo que eu distingo parecem tingidos de acaju, como minha avó fazia. Pergunto se ela foi enterrada de cabelo pintado, me respondem que estavam brancos. A tintura, então, vem da terra. Tudo isso eu observo em poucos segundos. Resolvo olhar mais uma vez, e vejo o vestido, que agora está bastante largo em minha avó.

Os dois funcionários devem fazer isso quantas vezes por mês? Meus parentes reclamam do preço da exumação, que é em torno de 200 reais, se me lembro bem. Eu acho pouco, mesmo com a crise. Um coveiro fica de fora e o outro entra. Este é mais falante, mais prático, e o outro é mais reservado, talvez por ser bem mais velho. O que entrou na tumba deve juntar os ossos e colocar na caixa. É um trabalho sinistro, que eu não assisto, mas que imagino que deva ser pra ele como perguntar se é crédito ou débito. O outro presencia. Me afasto da exumação com medo dos germes, mas ainda posso ouvir um coveiro dizendo ao outro, em voz baixa, divagando: “A gente não é nada, né?”. Eu não sei se ele estava falando do gênero humano ou do proletariado. O debaixo não respondeu. Talvez não quisesse abrir a boca, por causa dos germes.