Oito Odiados e Um segredo

Por Filipe Völz

O oitavo filme de Tarantino foi anunciado como oitavo filme do Tarantino. Além disso ele condicionou a história e o título ao número oito. Não há nada de cabalístico, o oito foi o número que calhou de cair quando o diretor resolveu que era a hora de fechar um ciclo. Por causa disso, o filme, passado quase todo num mesmo lugar, com ocasionais flashbacks, onde encontramos bandidos de variadas estirpes em intervalo de tempo único, remete rapidamente ao primeiro de Tarantino, Cães de Aluguel.

Isso tudo leva-nos a crer que se trata de um meta-filme, em dois sentidos: tanto um filme “paródia”, onde Tarantino, o rei moderno das paródias de filmes e gêneros, faz paródia de si mesmo (ou seja, de suas paródias), quanto um filme sobre o próprio cinema e, em um grau mais fundamental, sobre a própria arte, e indo mais longe ainda, sobre a própria retórica e os atos universais de encantar, voltando agora pra mais perto, os atos de encantar através de narrativa, e mais perto ainda, através de narrativas imagéticas.

Há também dois modos de observar isso no filme, um relacionado à forma do filme, a maneira como sua história é narrada, outro ao conteúdo, a história propriamente. Nela podemos encontrar pistas, nas ações dos personagens, que nos levam a pensar a forma, ainda quando inconscientemente. Então, na história que é contada, se presentifica a forma de contar essa história (e a forma de contar histórias em geral). Isso é fácil de ver, porque o espaço temporal e físico limitado do filme o obrigam – acima de tudo por ser “entretenimento” – a saturar a ação. Significa: criar, sem muita economia, ganchos narrativos que cooptem constantemente a consciência emocional e a atenção do público. Entretanto uma série excessiva de acontecimentos na realidade da cena limitada espaço-temporalmente poderia ter efeito reverso, entediando ao invés de cativar.

Os acontecimentos do filme são como blocos que se encaixam numa unidade, durante a passagem das cenas, o que só pode acontecer se o filme deixar espaços entre os blocos, espaços sem nada significativo neles. Como lembrava Anatol Rosenfeld, o próprio dispositivo técnico do cinema é uma sucessão de imagens (fotos) passando em alta-velocidade, não obstante contendo um espaço escuro minúsculo entre si, imperceptível ao olho.

Em Os Oito Odiados (talvez Os Oito Odiosos fosse uma tradução melhor), não apenas diversas histórias são contadas por diversos personagens, numa vitrine de histórias sucessivas, como elas também guardam uma função para a trama, pelo seu particular conteúdo, pela sua forma. Não acrescenta em nada a história odiosa contada pelo Major Marquis sobre o seu “big black johnson” – no entanto, o ato de contar essa história, que possui um próprio conteúdo fictício modelado para o público alvo (o General Smithers, interpretado por Bruce Dern), causa um acontecimento na trama. O não-ato da Prisioneira não contar algo também causa um acontecimento, dessa vez significativo, e é porque ela não foi capaz de convencer seus ouvintes que foi morta, no final. Por isso, não é apenas o conteúdo das histórias que leva a trama adiante ou provoca os fatos, mas o próprio ato de narrar coisas. Ninguém sabe nada sobre o outro, as histórias podem ser falsas ou verdadeiras, e em qualquer um dos casos podem ou não ter os efeitos desejados pelo narrador – o que, por sua vez, também pode ou não se encaixar em uma estratégia mais ampla.

E não é este também o lugar em que todos nos encontramos, soberanamente hoje, onde, como nunca, nós somos e “escolhemos” ser bombardeados por histórias, dos jornais onipresentes e dos filmes, séries, livros, posts, tweets e tudo mais? Cada história dessas é contada também por um “narrador odioso” (lembremos que o 8 é o número do infinito – ∞), do qual não sabemos as intenções, mas que, com certeza absoluta, possui intenções (mesmo que ocultas para si) – algo que definitivamente não queremos saber. Nós sabemos, sim, nomes de personagens, eventos, acontecimentos, cenas, temporadas, vidas reais e imaginárias, curiosidades, etc. E nós mesmos, mais do que nunca, estamos contando histórias, hoje, nos diversos mecanismos que foram criados pra isso. Isso nos dá mais uma ilusão: a de que participamos todos em igualdade do processo de afetação narrativa universal.

Além do conteúdo, podemos ver Os Oito Odiados como meta-filme, observando sua forma. Pode ser só impressão, mas parece que Tarantino vai um passo além dentro do estilo. Os atos violentos, os ganchos, os palavrões, a incorreção política, a agilidade da história, tudo vai longe demais. Sempre que um estilo se exagera, que vai além dos seus limites – ou ao menos até eles – acaba chamando atenção para estes mesmos limites. Ou seja, ele é crítico, meta-linguístico, parodia a si próprio. Com essa forma Tarantino se deixa ser visto fazendo seu trabalho. Ele imprime na catarse do filme o uso da técnica que faz, ele deixa o público sentir tonalmente (usando o termo do semi-pavloviano Eisenstein) que existe um autor no controle das nossas emoções. O susto que sentimos, sentimos porque alguém assim quer. O carinho por algum personagem, sentimos porque alguém assim quer. A tensão, o ódio, a volúpia, sentimos porque assim o diretor quis. E ainda, quando saímos do cinema, dizemos que gostamos do filme (ou não), que fomos nós que preferimos tal cena ou detestamos outra. Saímos nos sentindo livres, e foi por isso mesmo que primeiramente entramos no cinema. Assim nos relacionamos em geral com as imagens que nos cercam totalitariamente a cada momento. Nossas ações parecem, de fato, somente nossas, do mesmo jeito as nossas impressões das coisas e as decisões que daí decorrem.

Mas Tarantino parodia também o cinema americano, indo direto ao gênero mais importante desse cinema e ao momento mais importante de sua história, a guerra civil. Com um desfecho conservador, porém historicamente acurado, une sul e norte sob a égide do Estado, da lei. Com seu estilo exacerbadamente catártico, oferece uma observação sobre o american way de fazer cinema, ratificando a sua participação. O público é um cliente, mas um cliente que compra muito mais do que acha que está comprando. Major Marquis leva consigo uma carta de Lincoln falsa, uma espécie de carta de cidadania para negros naquele tempo, que muitas vezes o impede de se dar mal. A narrativa é falsa, poderia ser verdadeira, não importa, de qualquer modo produz um efeito desejado pelo seu narrador. John Ruth se entristece quando lhe contam a mentira, mas sua emoção foi genuína ao ler o texto de Major Marquis, assim como é a nossa ao assistir A Mocidade de Lincoln, de John Ford.