Alma no olho

Por Viviane Moraes

A primeira que vez que Zózimo Bulbul entrou na minha vida foi com o filme Alma no olho de 1973. A performance, em formato de curta de 11 minutos, é uma homenagem ao jazzista John Coltrane, além de ser musicada pelo mesmo. Delírio para nossos ouvidos. Somente O ascensor para o cadafalso havia mexido assim comigo em termos de jazz e cinema.

Alma no olho surge após a leitura de Soul on ice (Alma no exílio) do pantera negra Eldridge Cleaver, que referencia nomes como o do pensador negro martinicano Frantz Fanon e do movimento Pan-africanista.

Performático, expõe as relações do homem negro, africano ou afrodescendente em diáspora, com o mundo. Por meio da história, percorremos as fases do homem negro, da África até o movimento Black Power, ou melhor, do encontro com o “mundo civilizado” até as décadas de 1960/70.

O uso das roupas brancas – apontando para um simbolismo que ainda vemos no resquício escravocrata das babás negras usando uniforme – contrasta com um cenário igualmente branco, que, agora, me permite entendê-lo quando o vejo em peças negras como “Namíbia, não!”, do Aldri.

O mais vigoroso do filme está em seu final, quando, já espoliado (ou melhor, mais uma vez espoliado), rompem-se as correntes.

As imagens em foco dos dentes de marfim, as axilas com cheiro negro peculiar, cabeça/crânio que, via Gobineau, comprova a inferioridade raça, suor do trabalho erotizado e a sexualização deste corpo que remete ao falo de Exu, grande e grosso, são pontos sensíveis discutidos nesta premiada obra-prima.

Zózimo é surpreendente. Após tal encontro, fui atrás de outros filmes: Samba no trem, República de Tiradentes, Renascimento africano e Pequena África foram os acessados por mim. Estou procurando Abolição.

E, de repente, me veio a consciência de que estava entrando em contato com os meus. Com um cinema que não se comenta. Para nós, negros, que não temos referências positivas em nossa raça, assistir aos filmes de Zózimo é uma grande massagem na nossa auto-estima.