Fela ícone negro

Por Viviane Moraes.

“Não acredite em ninguém que só ouve jazz bebendo vinho.”
Fela Kuti

Fela Anikulapo Kuti, ou simplesmente, Fela Kuti foi um cantor, compositor e performer nigeriano que sacudiu o mundo musical com suas letras fortes e musicalidade inovadora. Para além da militância e arte, as entrelinhas de sua trajetória são fortes, controversas, difíceis, criticáveis. Fela, entretanto, merece figurar o hall dos ícones da história e da cultura do século XX, junto a Bob Marley e James Brown, outros representantes contemporâneos da rebeldia negra.

Carlos Moore, na biografia Fela esta puta vida – Biografia autorizada (2011, Nandyala), nos dá dimensão política do artista. Cito Moore:

Nos inícios dos anos 1970, Fela abandonou uma vida de conforto e passou a residir no coração de uma das favelas mais miseráveis da África, compartilhando o sofrimento com os pobres que chamava de “meus irmãos”. Talvez ele tenha feito a escolha mais poderosa que qualquer reformador social poderia fazer ao rejeitar exatamente aquilo que as elites pós independência representavam: a ganância material, o egoísmo individualista, o esnobismo de classe, os costumes puritanos (cristãos e muçulmanos) e a submissão aos padrões estabelecidos pelo Ocidente (MOORE, 2011, 17).

Neste ícone, vemos a militância em uma dimensão mais profunda, pois as consequências de sua postura, que rompe com a lógica ocidental, leia-se europeia e americana, custa-lhe a carne. Vítima de torturas que o levaram a esterilidade, suas mulheres foram estupradas pelas forças do governo e sua mãe idosa foi arremessada pela janela. Cito depoimento do cantor na biografia já citada:

(…) tudo aconteceu muito rápido. Os militares tacaram fogo no gerador, assim como fizeram com o ônibus e os carros. Usaram gasolina para começar os incêndios. Depois, entraram, arrombaram o portão, derrubaram a porta… correram para todo canto da casa…. detonando… batendo… chutando… dando coronhadas… A primeira que eles trouxeram foi Najite, umas das garotas. Aaaaaaaaa! Espancaram ela! Quando vi aquilo, pensei: ‘Do jeito que tão batendo nela, vão me matar hoje!’ Espancaram todo mundo, retalharam – usando baionetas, garrafaas quebradas… estupraram as mulheres! (MOORE, 2011, 155).

Atentemos também para as outras faces de Kuti, quando muda seu nome de batismo Olufela Olusegun Oludotun Ransome-Kuti para Fela Anikulapo Kuti; ou ainda para a dimensão de resistência da “República de Kalakuta”; percebemos uma lógica, mesmo que complicada aos nossos olhos latino-americanos, ao visitá-lo na intimidade com as suas 27 mulheres.

O Afrobeat, movimento musical que vai influenciar o HipHop e o Rap, é criado por Fela Kuti na década de 1970, tendo como base o Funk, inequivocadamente étnico de James Brown, que também pode ser criticável, à luz do século XXI, no que versa a coisificação do corpo negro, no caso, masculino, entendido como uma sex machine.

Já de Bob Marley ele apreende, segundo Moore, os sons hipnóticos do reggae, acrescidos de poéticas letras contestadoras. O tom de protesto contra as injustiças e a Babilônia “eram expresso por meio de metáforas enigmáticas, criando um discurso filosófico inteiramente novo através da música. (MOORE, 2011, 19).

Quando me pergunto por que essa face de pobreza e de tragédia ainda pode estar acontecendo, eu ouço as músicas de Fela que vão vigorosamente denunciando as elites responsáveis pela opressão dos povos africanos em todo o mundo; ou as multinacionais que violentam um continente inteiro com a cumplicidade ativa de ditadores locais, postos no poder por meio de acordos convenientes para as elites europeias e americanas.

A música é realmente uma arma na voz de Fela Kuti. Não à toa, há o documentário Fela, música é arma, que dá conta deste uso da arte na sua dimensão ideológica. Os seus discos (mais de 70 álbuns) são o reflexo do momento político na Nigéria. Os exemplos mais contundentes são Confusion de 1975, lançado para criticar o estado de confusão pós-colonial, a falta de infraestrutura de Lagos e para acusar diretamente a liderança política adequada no momento e Zombie, cujas músicas foram usadas por estudantes ganeses para zombar de seu governo militar.

Neste momento de insatisfação política e ânimos exaltados, me pergunto o que Fela Kuti diria se vivesse no Brasil de 2016, talvez ele ainda preferisse a Nigéria dos anos 1980, onde, pelo menos, o autoritarismo era explícito.