Para que o olhar não seja um Estado, nem desapareça… Alguma crítica ao pós-modernismo na antropologia a partir de O Céu de Lisboa

Por Ana Paula Morel.

“Do poder da criação/sou continuação”
(Paulo César Pinheiro e João Nogueira)

Os sons de uma cidade. Lisboa – um filme. A cidade mudava… No abismo do céu azul atravessavam andaimes. Outdoors e edifícios rasgavam a cena coberta de sobrados ruídos pelo tempo. No fundo do filme, ouvíamos Fernando Pessoa, lembrando que o antigo também salta do contemporâneo. As crianças sorriam, lembrando, ao mesmo tempo, que para além da nostalgia é preciso futuro.

Dentre as muitas questões que perpassam o filme O Céu de Lisboa, de Wim Wenders, que merece muitos outros ensaios pela sua bela fotografia e música, destacamos esta: como fazer um filme sobre uma cidade? Questão que traz de fundo certo debate caro para a antropologia: como falar sobre outro (nesse caso, o outro é um lugar com os seres que nele vivem)? A proposta desse ensaio é um pequeno experimento: pensar o filme a partir de determinada preocupação da antropologia contemporânea, a crise da “autoridade etnográfica”, baseada no questionamento da legitimidade do antropólogo de falar sobre outros.

O problema da representação parece pesar cada vez mais não apenas na antropologia, mas nas diversas extensões do pensamento ocidental… Para mencionar um exemplo, nos movimentos políticos de esquerda, principalmente aqueles que se dedicam a combater opressões específicas (como o feminismo, o movimento negro, etc…), há vastas polêmicas sobre o “local de fala”. Assim, surgem questões: quem pode falar sobre determinada opressão é apenas quem sofre essa opressão? Seria uma violência contra aqueles que sofrem um tipo de opressão qualquer outra pessoa falar sobre essa? Qual pode ser a participação na luta daquele que não sofre determinada opressão, mas é solidário com quem sofre? Nessa polêmica, dois lados extremos e seus perigos se opõem… De um lado, o perigo do autoritarismo baseado na reprodução dos privilégios daqueles que sempre puderam falar e decidir sobre outros (homens, brancos, europeus, etc…) – como diz o eu-lírico mulher da música Dom de iludir de Caetano Veloso ao responder as acusações do homem traído da música Pra que mentir de Noel Rosa: “Você sabe explicar. Você sabe entender tudo bem. Você está, você é. Você faz, você quer, você tem. Você diz a verdade, a verdade é seu dom de iludir”. Do outro, os perigos da “ilusão da transparência”, baseada na ideia de que quem vive determinada opressão é a única pessoa que sabe e pode falar tudo sobre ela, levando, algumas vezes, a incapacidade de composição com outros solidários e a outros tipos de autoritarismos… Estamos entre o reino da verdade e daqueles que reinam em nome dela (e da reprodução do poder) e da incomunicabilidade em nome do império da vivência – quem sabe outro tipo de reino da verdade. Existiriam outros caminhos?

No filme, vemos o diretor de cinema desaparecido em Lisboa temendo a violência do seu olhar sobre a cidade. Na antropologia, o etnógrafo tentando desaparecer para se livrar da culpa dos séculos de violência em nome de um único olhar.

A antropologia se desenvolveu durante muito tempo buscando a legitimação enquanto disciplina científica.  A imagem da antropologia como ciência implicou a possibilidade de construir conhecimentos objetivos por parte do antropólogo em relação aos povos que estudava, o que passava não apenas pela reconstrução das representações desses, mas também, muitas vezes, por apontar o princípio explicativo que estaria subjacente a essas representações. Nessa imagem da antropologia, o antropólogo aparece despido de seu próprio enraizamento cultural para se vincular a um terceiro termo que se coloca diante da ficção fundante da antropologia (nós x eles). Esse terceiro termo seria a existência de um observador externo e imparcial e, em alguns momentos, também foi identificado com aquilo que é considerado comum e universal em relação à diversidade de culturas: a humanidade. Como apontado por Pierre Clastres (1968) ao atentar para a vizinhança entre humanismo, Razão e violência, esse terceiro termo tendia a coincidir diretamente com o “nós”, local de onde fala o antropólogo, quer dizer, com a civilização ocidental. O terceiro termo na antropologia funcionava, então, como um Estado, subjugando o que diferia do Ocidente – subjugando a diferença ao mesmo.

Em momento posterior, ao ver que os povos que estudava pareciam desaparecer, a antropologia é tomada pela culpa do colonialismo, por carregar “o fardo do Homem Branco” (Latour) sustentado pela arrogância epistemológica do cientificismo. É, então, que parte da antropologia começa a se desconstruir até (quase) a morte… Instaura-se a crise na disciplina e surgem indagações tanto sobre sua validade científica, como quanto à sua própria existência. É nesse momento que se intensificam as análises sobre “a formação e a desintegração da autoridade etnográfica na antropologia social do século XX” (Clifford, p. 18) levando a séries de questionamentos: Que direito tem o antropólogo de falar pelos outros? Para quem e para que escrevem os antropólogos? Como os dados são construídos no campo? Como lidar com a polifonia dos discursos do nativo? Como dar conta da autoria dos nativos no texto antropológico?

Alguns foram os caminhos esboçados diante dessa crise, quase todos apontavam para a necessidade – mais do que legítima –  de romper com o terceiro termo, base da relação assimétrica entre antropólogo e “nativos”. Diante dessa constatação, as soluções foram diversas, muitas experimentações interessantes e novos problemas foram colocados, mas também surgiram alguns apontamentos que beiravam a paralisia e o niilismo… Podemos dizer que parte do que se convencionou chamar de “pós-modernismo” na antropologia chegou a constatação implícita da impossibilidade de se fazer antropologia, já que apontavam para a afirmação de que só as representações nativas poderiam falar por si mesmas e seria impossível falar qualquer coisa sobre (ou mesmo com) os outros. O antropólogo deveria, então, transmitir meramente o que os nativos falam.

Parece ser tomado de sentimento semelhante que o diretor do filme a ser filmado sobre Lisboa (personagem do próprio filme O Céu de Lisboa) simplesmente desaparece (até quase o final do filme)… “A cidade pertence a todos e a ninguém”, diz o poeta. Nas pistas que encontra o atordoado sonoplasta, personagem principal do filme que se aventura em solucionar o mistério do diretor desaparecido, há a seguinte frase deixada pelo diretor: “Não há sobressaltos. Tudo conta da mesma maneira. Eu não seleciono.” Um pouco como certo antropólogo descrente: uma produção sem sobressaltos, onde tudo perde seu gosto, pois tudo é igual a tudo. Onde ousar interferir nas imagens do filme, ou nas falas dos outros que compõem o trabalho antropológico é quase um crime… A busca impossível e paralisante da pureza.

Eis que depois de algum mistério o diretor é encontrado pelo sonoplasta junto com uma criança que misteriosamente carregava uma câmera perdida dentro de uma sacola de compras…

Surpreso com o encontro, o diretor justifica, enfim, seu sumiço, explicando porque se recusara a fazer o filme antes prometido ao sonoplasta: apontar uma câmera era, para ele, como apontar uma arma, toda vez que apontava era como se a vida se escondesse atrás das coisas. Toda vez que tentava filmar era como se a cidade desaparecesse, se afastasse cada vez mais… O medo de ser um terceiro termo, um Estado diante da vastidão da cidade desesperava o diretor… Pensava que o som poderia ajudar, por isso, convidou o sonoplasta, mas logo desistiu pois percebera que tudo é inútil

Diante desse misto de desespero e niilismo, a única solução encontrada pelo diretor foi deixar as câmeras zanzarem pela cidade escondidas nas crianças ou andar com uma câmera que filmava aleatoriamente pendurada em suas costas. O diretor explica: uma imagem sem a contaminação de um olho é pura e, portanto, verdadeira e bela. Esse seria o único jeito de fazer o verdadeiro filme sobre uma cidade? Retirar o olhar do diretor?

A mesma busca de pureza do antropólogo culpado: quanto menos interferência nas falas dos interlocutores melhor, mais aquela fala carregará sua essência verdadeira. No fundo, parecemos retornar a própria base do “terceiro termo” na antropologia: a busca pela verdadeira representação, porém, dessa vez, a verdadeira representação é aquela que não se separa da coisa a ser representada. Diz o diretor: enquanto nenhum olho contaminar a imagem ela permanecerá em uníssono com o mundo. E mostra para o sonoplasta atônito uma biblioteca de imagens que foram feitas supostamente sem a intervenção do olho humano: “Ninguém as viu quando foram filmadas. Ninguém as viu depois. Eu gravei todas elas nas minhas costas. Essas imagens mostram a cidade tal como ela é e não como eu desejaria que fosse.” O olhar do diretor deformaria a essência da cidade, a influência do antropólogo deformaria a essência do nativo. Em ambos os casos, o que se toca se perde. É curioso como em outro filme de Wim Wenders, Palermo Shooting, a personagem da morte diz adorar fotógrafos e fotografias.

Mas, resta uma esperança, o sonoplasta faz seu último apelo ao diretor: “Retome a confiança nos seus olhos e eles não estão nas suas costas. Você ainda pode produzir imagens”. Na antropologia, alguns fazem um chamado por outros caminhos que não o subjetivismo pós–moderno, nem o objetivismo positivista, onde o conhecimento não se estabelece como representação sobre outros, mas como criação através do diálogo com outros. Pois é no instante da morte, da captura da imagem pelo olho, da escrita em linhas estáticas sobre a vastidão de criatividades que povoa o planeta, que artista e antropólogo podem recriar mundos – “os artistas são pequenos deuses que querem reinventar o mundo”, escutamos no filme, ou no caso da antropologia, existe a possibilidade de, ao menos, na relação com o outro encaminhar a própria cultura para um novo pensamento (Clastres, 1968).

Últimas cenas do filme: sonoplasta e diretor saem para filmar e, ainda que desastrados, adentram pela cidade que invade a câmera… Antropólogo deixa de pairar por cima do que vê, adentra e constrói, ainda que frágeis, pontes…  Diz Fernando Pessoa: “Em plena luz do dia, até os sons brilham”.

Referências Bibliográficas

CLASTRES, Pierre. “Entre o silêncio e o diálogo” in Lévi–Strauss, L’arc. São Paulo, Documentos, 1968.

CLIFFORD, James. “Sobre a Autoridade Etnográfica”. In A Experiência Etnográfica: Antropologia e Literatura no Século XX: 17–62. Rio de Janeiro: EDUFRJ, 1998.

LATOUR, Bruno. “Not the Question”. Anthropology Newsletter 37 (3): 1–5, 1996.