Três Interpretações sobre “Interestelar”

Por Filipe Völz.

Antes de tudo é importante resumir quem é Christopher Nolan: um diretor de blockbusters cult inglês com carreira nos Estados Unidos. Nolan tem dois interesses principais: metalinguagem do cinema e política existencial conservadora (indivíduo-liberdade x exterior opressivo-Estado, comunidade, história, natureza etc.). Nolan lembra o também inglês Adam Curtis, que se declara conservador, apesar de fazer filmes de esquerda (??!). Um dos últimos filmes de Curtis, All Watched By Machines Of Loving Grace, poderia servir como uma carta de princípios de Interestelar.

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Sobre Nolan

Aqui estão três interpretações sobre o filme:

1. A colonização dos Estados Unidos da América

Nolan, cineasta da Inglaterra que migra para os Estados Unidos, faz um filme sobre ingleses migrando para a América, o novo mundo. Os astronautas são colonos lidando com uma questão crucial, referente à sua identidade enquanto nação. Com o nascimento da América o que acontece com a Inglaterra?

Plano A é levar os ingleses para a América – quer dizer, fazer do novo território uma extensão do território inglês, salvar a Inglaterra (economicamente).

Plano B é fazer da América um novo país, abandonando a Inglaterra.

Gargantua é o buraco negro de Interestelar. Esse nome vem do gigante Gartantua, do escritor Rabelais, que no livro sobre Gargantua antecede a ideia do “faça o que tu queres pois é tudo da lei” (lei de thelema), presente na filosofia demoníaca de Aleister Crowley (favorito dos astros de rock). Gargantua, como um buraco negro, devorava tudo o que econtrasse, e fazia o que bem entendia, sempre que quisesse. Na cabeça de Nolan talvez este nome lembre Ayn Rand, que nos parece por trás de algumas ideias de Interestelar (como a da sociedade distópica onde todos são igualmente medíocres e a invenção e criatividade são publicamente coibidas). É em Gargantua que as leis quânticas misteriosas podem ser compreendidas o suficiente para salvarem a população da Terra/Inglaterra, da extinção. Gargantua aparece na obra de Rabelais escrita no século XV, algo como 50 anos antes do início da colonização britânica do que seriam os EUA. Rabelais e sua obra representam um desenvolvimento mais radicalizado da mentalidade predominante na época, o humanismo desbravador, catapulta das colonizações e do mercantilismo.

2. O século XX e a Apollo 11

No começo e fim do filme, vemos entrevistas com idosos, sobre o que, seguindo a história do filme, seria o começo do apocalipse rural que exterminou a possibilidade de gerar novos alimentos na Terra. Como as entrevistas são obviamente não ensaiadas, fica claro que não são atores, mas pessoas que passaram por algum tipo de evento no início do século XX.

Nolan usa um documentário sobre o Dust Bowl em Interestelar, mudando seu sentido original. Mas e se mudarmos o sentido de volta? e se esse uso for a indicação de uma linha interpretativa do filme? E se Interestelar trata metaforicamente dos EUA no século XX? E se a Nasa no filme representa… A Nasa na vida real?

A disputa entre inovação x mediocridade, no filme, estaria presente nos EUA do século anterior. Essa disputa foi o clima que precedeu a viagem do homem à lua. Muitos condenavam os gastos da NASA, sobretudo com o argumento de que eles deveriam ser preteridos em comparação à necessidades mais importantes e imediatas, como a fome. O mesmo tipo de discussão sempre esteve presente na área da cultura e arte, onde Nolan se insere. Para quê gastar milhões com um filme enquanto tantos morrem de fome etc. Interestelar parece desejar oferecer uma resposta a essa discussão.

3.Cinema do Cinema

No Tesseract, Copper tem acesso ao quarto de sua filha em todos os momentos do tempo. Na 4ª ou 5ª dimensão, Cooper se relaciona com o tempo de um modo espacial, caminhando pelos diversos instantes como se eles fossem salas, gavetas ou, mais apropriadamente, estantes de uma biblioteca imensa. “Eles”, os humanos da geração que se formou a partir do planeta distante colonizado em Interestelar, ascenderam através da tecnologia à 5ª dimensão. E por isso podem “caminhar pelo tempo”. Eles construíram o Tesseract e o Wormhole, de modo que, no estilo Exterminador do Futuro, Eles são pais de si mesmos, pois possibilitaram a própria colonização inserindo coisas no passado.

A montagem cinematográfica lida com o tempo dentro do filme dessa mesma maneira – como se, em relação a dimensão do filme, fossemos seres de uma dimensão superior (ler sobre a 4a dimensão do cinema).

Através da montagem podemos passar de um momento a outro com um corte. Instantaneamente mudamos de visão, e podemos voltar ou prosseguir. Um dos exemplos mais famosos é o corte de um tacape de osso na era primitiva para uma nave espacial em 2001 (a utopia pensada em 1968), no filme 2001: Uma Odisséia no Espaço. Interestelar também possui muitos desses cortes (por exemplo Cooper na caminhonete e logo em seguida no foguete, saindo da Terra – ou ainda Murphy passando de uma imagem reproduzida na base americana no planeta de gelo à Murphy no momento em que gravava o vídeo enviado, num tempo e num espaço completamente diferentes e distantes.

O Tesseract é, então, uma enorme sala de edição de videos. Como se o Tempo fosse um rolo de filme na mão do editor, que passa os diversos momentos pela mão, escolhendo como alterar o resultado final. Apesar de podermos conceber a realidade do filme como completamente submetida à nossa criação demiúrgica (do nada), a verdade é que isso é apenas uma concepção abstrata. A realidade do filme não é criada livremente por nós, factualmente. Ela está remetida a diversos fatores, sendo, os principais, a nossa emoção e as condições materiais (sobretudo no cinema americano, que necessita de muito dinheiro, precisando tanto se adequar ao gosto do público quanto ao dos financiadores). No filme, Cooper não recria o passado, ele apenas pode alterá-lo de modo muito débil; assim como no cinema, é a emoção, o amor, o sentimento e a entropia o que guia a edição de Cooper.