Poemas de Paul Éluard

Tradução de João G. Paiva

Paul Éluard nasceu em Saint-Denis, França (1895-1952). Participou de movimentos de vanguarda no início do século XX, engajou-se, posteriormente, no Partido Comunista Francês. Após a Segunda Guerra foi conhecido como um dos “poetas da resistência”.

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A árvore-rosa

O ano está bom e a terra inchada
O céu transborda nesses campos
Nos matos curvam como um ventre
O orvalho queima de florir.

L’arbre-rose

L’année est bonne la terre enfle
Le ciel déborde dans les champs
Sur l’herbe courbe comme un ventre
La rosée brûle de fleurir.

A aventura suspensa no pescoço do inimigo…

A aventura suspensa no pescoço do inimigo
O amor cujo olhar se encontra ou se extravia
Nos espaços dos olhos desertos ou povoados.

Todas as aventuras do rosto humano
Gritos sem ecos signos de tempos mortos sem memória
Tantos rostos belos tão belos
Ocultos pelas lágrimas
Tantos olhos também seguros de suas noites
Como amantes que morrem juntos
Tantos beijos sob a rocha e tanta água sem nuvens
Aparições surgidas de ausências eternas
Tudo era digno de ser amado
Os tesouros são muros e suas sombras estão cegas
E o amor está no mundo para o esquecimento do mundo.

L’aventure est pendue au cou de son rival…

L’aventure est pendue au cou de son rival
L’amour dont le regard se retrouve ou s’égare
Sur les places des yeux désertes ou peuplées.

Toutes les aventures de la face humaine,
Cris sans échos, signes de mort, temps hors mémoire,
Tant de beaux visages, si beaux
Que les larmes les cachent
Tant d’yeux aussi sûrs de leur nuit
Que des amants mourant ensemble,
Tant de baisers sous roche et tant d’eau sans nuages,
Apparitions surgies d’absences éternelles,
Tout était digne d’être aimé,
Les trésors sont des murs et leur ombre est aveugle
Et l’amour est au monde pour l’oubli du monde.

Adeus tristeza…

Adeus tristeza
Bom dia tristeza
Tu inscrita nas linhas do teto
Tu inscrita nos olhos que amo
Tu não chegas a ser a miséria
Pois os lábios mais pobres te denunciam
Por um sorriso
Bom dia tristeza
Amor de corpos amáveis
Potência do amor
Cuja amabilidade surge
Como um monstro sem corpo
Cabeça desapontada
Tristeza belo rosto.

Adieu tristesse
Bonjour tristesse
Tu es inscrite dans les lignes du plafond
Tu es inscrite dans les yeux que j’aime
Tu n’es pas tout à fait la misère
Car les lèvres le plus pauvres te dénoncent
Par un sourire
Bonjour tristesse
Amour des corps aimables
Puissance de l’amour
Dont l’amabilité surgit
Comme un monstre sans corps
Tête désappointée
Tristesse beau visage.

Meu amor

Meu amor por ter figurado meus desejos
Deixado teus lábios num céu de palavras feito um astro
Teus beijos em plena noite
E a fuga de teus braços ao redor de mim
Feito uma chama em sinal de conquista
Meus sonhos estão no mundo
Claros e perpétuos

E quando tu não estás
Sonho que durmo eu sonho que sonho

Mon amour

Mon amour pour avoir figuré mes désirs
Mis tes lèvres au ciel de tes mots comme un astre
Tes baisers dans la nuit vivante
Et le sillage de tes bras autour de moi
Comme une flamme en signe de conquête
Mes rêves sont au monde
Clairs et perpétuels

Et quand tu n’es pas là
Je rêve que je dors je rêve que je rêve

O amor é o homem inacabado

Todas as árvores todos os ramos todas as folhas
A erva na base das rochas e as casas acumuladas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia após o outro
Os vícios e as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos pedestres nas ruas do acaso
E os pedestres emanando suas buscas obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo dos lábios virgens
Os vícios e as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares permitidos com os conquistados
A confusão dos corpos dos cansaços dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios e as virtudes tão imperfeitos

O amor é o homem inacabado.

L’amour c’est l’homme inachevé

Tous les arbres toutes leurs branches toutes leurs feuilles
L’herbe à la base les rochers et les maisons en masse
Au loin la mer que ton œil baigne
Ces images d’un jour après l’autre
Les vices les vertus tellement imparfaits
La transparence des passants dans les rues de hasard
Et les passantes exhalée par tes recherches obstinées
Tes idées fixes au cœur de plomb aux lèvres vierges
Les vices les vertus tellement imparfaits
La ressemblance des regards de permission avec les yeux que tu conquis
La confusion des corps des lassitudes des ardeurs
L’imitation des mots des attitudes des idées
Les vices les vertus tellement imparfaits

L’amour c’est l’homme inachevé.