O Buzz de Westworld ou O Labirinto Que Não nos Leva Até Nós Mesmos

Vou dizer uma coisa um tanto patética: depois de assistir o último episódio de Westworld me senti vivo. Ver um filme, série, ouvir uma música, etc., às vezes produz esse efeito em qualquer um. Como nesse gif da Gretchen: http://imgur.com/wRlDCHL

Sentir-se vivo não significa se sentir reflexivo, como se Westworld fosse uma série inteligente, produzindo a vontade de entender o mundo ao nosso redor. A própria série deixa isso claro: a pirâmide em direção à auto-consciência não possui três graus, mas quatro, sendo o terceiro ligado à reflexão. Este, o quarto, o mais alto, ligado ao sofrimento.  O ser vivo sofre, ao contrário das coisas não vivas, e é através do sofrimento que ele percebe sensivelmente a própria existência viva (e a palavra “sofrer” tem menos o sentido negativo usual do que o sentido de estar à mercê de estímulos exteriores, padecer).

Quando a obra que te faz sofrer termina, ela faz o mundo te fazer sofrer, o que significa que você se sente mais sensível, mais aberto a receber estímulos de fora. Depois de um grande filme é normal se sentir, na vida real, como dentro de um filme. Isso significa olhar para as coisas ao redor com mais atenção, com empatia.

O trunfo de Westworld é comum nas séries que são produzidas em um mundo com internet, a saber, a capacidade de estimular jogos mentais através das teorias e suposições em torno da série. Isso é fascinante, mas vem com um preço caro demais, o de ser apenas um jogo mental, que afinal é somente um jogo, um entretenimento. É um prolongamento da sensação de se estar vivo produzida na experiência da obra, mas através de um mecanismo auto-referente, enclausurado em si mesmo, cíclico, como as vidas dos anfitriões. Uma hora a gente enche o saco e vai procurar a mais nova estripulia audiovisual norte-americana pra nos fazer fritar por mais alguns dias ou meses. Por isso quem assiste série costuma assistir várias ao mesmo tempo. São os jogos mentais – quem matou quem, quem é o que, o que é o que, quando é o que – as engrenagens por detrás de Westworld e tantas outras séries. J.J. Abrams, produtor executivo da série, foi quem mais recentemente tornou explícita essa engrenagem de produção de sentimentos viciantes, através da tosqueira de Lost, numa prática que tem genealogia em Tarantino, Spielberg e até Lars Von Trier, dentre outros.

Qual o problema com jogos mentais? Conectados a outras coisas, igual a rios indo pro oceano, compõem a natureza da obra e podem enriquecê-la. Porém, como acontece nas séries, quando são apenas mecanismos auto-centrados,  eles são uma forma de entretenimento simples demais, são o contrário de qualquer promessa de “série reflexiva”, de diversão inteligente que as produtoras querem vender – e nós, definitivamente, queremos comprar.  Há algo inteligente em Westworld, só que de modo algum se trata da complexidade da trama.  Esta é apenas a capa que nos chama para algo mais profundo… Ou, nos termos da série, os jogos mentais (quem é androide e quem não é, o que é o labirinto, quem é Arnold  etc.) são o jogo de faroeste com androides, o parque de diversões temático, porém existe algo mais profundo, o labirinto, que entretanto é mais profundo ainda, pois sequer é um espaço físico embaixo da terra, e sim algo invisível, não embaixo, mas dentro, algo que o Homem de Preto entendeu, embora não o suficiente, quando abriu os androides procurando a verdade dentro de seus corpos.

Quem achou esse jogo mais profundo na série Westworld? Eu, o iluminado? Claro que não, pois está claro que não se trata de jogos mentais, de teorias, apesar de só podermos perceber o que isso é a posteriori, através de pensamentos.

O labirinto está dentro, e no centro dele não está a auto-consciência (que seria isto que estou fazendo agora, escrevendo isto), mas o sofrimento (que é aquilo que senti quando disse que me senti vivo ao terminar de ver a série). E esse sentimento todos que gostaram da série compartilham, por isso buscaram informações pra além da série, buscaram outras tramas, outras séries, buscaram manter esse sentimento genuíno, tão diferente, tão mais fascinante que a letargia dos dias, que nos faz ficar entediados e procurar séries pra passar o tempo.

A internet, no entanto, nos dá o oposto disso, quando a procuramos, afoitos, pra tentar manter por mais alguns instantes aquilo de grandioso que sentimos. A internet nos dá mais jogos mentais, mais who done it?, mais teorias fantásticas.  O rosto de Evan Rachel Wood e Anthony Hopkins, tão expressivos, tão vivos, se transformam em memes de feliz ano novo na página Westworld da Depressão e os vídeos de explicação da série são feitos por pessoas que falam sobre ela como falariam sobre pokemon go, com risinhos domésticos e truques de edição, como nos do canal O Holandês Voador (mas existem diversos outros iguais), ou hipsters bobos cheios de bonecos caros e infantis na estante como no canal Bilheterama ou, bem pior, os vídeos americanos, que parecem seguir a dicção daqueles programas de variedades matinais, aos quais Ana Maria Braga deve o formato do Mais Você. Impressiona nesses últimos o nível de complexidade da análise: são criados gráficos com as três ou quatro linhas de tempo principais da série, psicogramas dos personagens em suas diversas fases, mapas do parque e da central administrativa da Delos, às vezes análises frame by frame de cenas mostrando seus diversos easter eggs, ou dissecações cirúrgicas das expressões faciais que Anthony Hopkins faz em uma cena (buscando explicar a grandeza de sua técnica de atuação), como no vídeo do canal The Nerdwriter, com milhões de visualizações.

(Sem dúvida uma das coisas mais patéticas é quando esses vlogeiros comentam sobre o orçamento de 100.000.000 de dólares da série, como um fato curioso, como uma tática ousada de uma empresa respeitável, a HBO, como uma prova do interesse dessa empresa em fazer algo de qualidade, como se essa soma obscena de dinheiro não significasse nada além da quantidade de vontade por excelência de produtores geniais)

Westworld se trata disso, no entanto. Tudo isso está escrito no roteiro dos produtores da série. Eles querem que façamos isso, que alimentemos o buzz sobre a série, que levemos sua marca adiante, como quem paga pra usar uma camisa com o logo da empresa que a produziu. Não existe nenhuma grandeza da série que a internet vem ferir – pelo contrário, os dois se pertencem.

E, é claro, mais uma vez a própria série fala sobre isso. Westworld, como tudo o que os irmãos Nolan já fizeram, trata da situação do próprio filme, como mecanismo de encantamento do público. O Nerdwriter tem um vídeo-ensaio não tão ruim assim sobre o tema: https://www.youtube.com/watch?v=d46Azg3Pm4c. Essa faceta da série, assim como nos filmes, no entanto, é deixada de lado nas diversas reflexões de internet, que preferem focar nas também interessantes questões de inteligência artificial, ética robótica e os já falados jogos mentais. Quando finalmente se fala sobre a metalinguagem da série e da obra Nolan, como no caso do Nerdwriter, o aspecto sinistro da relação obra-público, que é claramente mostrado pelos Nolan, de forma até um tanto cínica, eu diria, é deixado de lado pra se falar sobre a grandeza da experiência da obra de arte. No vídeo sobre “O Grande Truque”, o Nerdwriter parece achar incrível o trabalho dos magos da indústria cultural, quando no filme é claro que esse trabalho se trata de pura produção ideológica de verdades artificiais. Como em Inception, se trata de pôr a ideia na cabeça do público  e fazê-lo crer que sua Origem é ex nihilo, que nós somos seu pai e dono. Nossos sentimentos de júbilo frente à experiência da obra, nosso “se sentir vivo”, é produzido artificialmente por um outro. Há beleza e terror nessa afirmação. A internet transforma os dois em um “tópico interessante”, em uma curiosidade divertida, em um click bait vulgar – mas não é isso também da própria intenção dos autores?