Alice no Mundo da Arte

Por Victor Galdino.

Em Through the Looking-Glass and What Alice Found There (Alice Através do Espelho e o Que Ela Encontrou Por Lá), tudo começa com Alice falando com sua gata Kitty, insistindo para que ela faça de conta que é a Rainha Vermelha de seu jogo de xadrez. “Vamos fazer de conta…”, é assim que Alice se expressa diversas vezes sobre variados assuntos – diz o narrador: “E aqui eu gostaria de poder dizer a vocês metade do que Alice costumava dizer começando com sua frase preferida ‘Vamos fazer de conta’”. Ao ser ignorada, ela resolve que vai punir a pobre gatinha fazendo-a se olhar no espelho, e, a partir daí, uma série de monólogos sobre esse espelho e o que poderia haver além dele levam a mais uma proposta fantasiosa: “Vamos fazer de conta que há uma maneira de entrar nele, Kitty […] que o vidro ficou todo macio como uma neblina, de forma que poderemos atravessar”.

E, de repente, lá está ela se encaminhando para o outro lado do espelho, onde sua interação inicial se dá com as peças de xadrez, que agora falam. Sua primeira dificuldade expressa de compreensão – como diz o narrador, “Você pode ver que ela não gostava de confessar, nem para si mesma, que não conseguia entender absolutamente nada de algo” – se dá quando ela tenta ler um poema em um livro qualquer. Sendo um livro dentro de um espelho, ela só poderia ler colocando o texto na frente de um espelho! Aqui temos uma característica marcante de Alice: ela deve sempre se esforçar por entender o que acontece nesse mundo novo, compreender suas regras, sua dinâmica, o que pode e não pode – e, a partir disso, possivelmente saber algo sobre si.

Porém há toda uma resistência por parte daquele mundo onde ela foi parar atravessando o espelho. Essas histórias de Carroll são profundamente marcadas pelo nonsense, pela ausência de sentido, ou ao menos pela quase impossibilidade de se encontrar um. Mas a ausência de sentido só faz sentido quando pensamos em algum parâmetro, um ponto de referência, que acaba por ser todo nosso mundo. O mundo do outro lado do espelho funciona, não é um caos completo ou algo prestes a desmoronar internamente por sua falta mais radical de sentido. As pessoas vivem nele, conversam nele, e por aí vai. Alice precisa jogar o jogo segundo suas regras, mas sua dificuldade maior reside no fato de que essas regras não se deixam assimilar de forma transparente e racional.

Apenas jogue! – eis o imperativo cultural maior, a regra de sobreviência máxima na sociedade. Alice também não tem muito controle sobre o modo como a caracterizam, identificam. Resta-lhe apenas não resistir tanto. Quando se depara com flores falantes no jardim, inicialmente fica perplexa com o fato de estarem falando, mas não tenta refutar a afirmação de uma delas de que ela também é uma flor – apenas se sente insultada quando falam mal de suas pétalas. Isso poderia mesmo ser considerado algo típico da infância: um certo se deixar levar pelas coisas mesmo quando elas não se apresentam para nós de forma elaborada, fundamentada, o que acaba impondo a necessidade de um faz de conta involuntário. É como se precisássemos aceitar parcialmente o que é apresentado a nós para que não nos percamos ainda mais diante de uma rede altamente complexa e vasta de informações e regras que é o mundo.

E as coisas simplesmente acontecem em uma sucessão que não permite uma pausa para que tudo que ocorre seja revisto de uma perspectiva racional, mais elaborada, justificada por raciocínios, para que aceitemos as coisas deliberadamente. Esse é justamente o problema de Alice – se a Rainha Vermelha a toma pelo braço e começa a correr desesperadamente, apenas resta seguir junto. Se, depois de uma corrida extremamente cansativa, o cenário sequer mudou – bem, essas são as regras locais. “Se você quer chegar a outro lugar, precisa correr de forma duas vezes mais rápida que isso!”. E assim Alice precisa se moldar a um mundo, pela segunda vez, pois tudo que havia aprendido em seu mundo de partida já não lhe servia tanto assim, apesar das semelhanças entre os dois mundos.

Esse tipo de história ajuda a entender como assimilamos nossa cultura a partir do momento em que começa nossa inserção social. Nós simplesmente vamos absorvendo coisas que não entendemos, coisas que não parecem ter sentido, coisas que questionaríamos em outras circunstâncias ou se tivéssemos tempo para isso. É como se tivéssemos de assinar um contrato imenso e cheio de palavras e expressões que não entendemos, e além disso tivéssemos um prazo para isso, de tal forma que a própria natureza desse contrato e das circunstâncias nos impediria de saber o que estamos assinando e com o que estamos concordando.

Essa temporalidade tem uma consequência interessante: se antes de tudo aceitamos e assimilamos certas coisas como verdadeiras, corretas, naturais etc., nossa tendência para justificar isso posteriormente, sob uma forma teórica, vai ser maior do que a abertura para outras verdades. Racionalizar uma crença é uma boa forma de lhe oferecer proteção contra a experiência e contra a mudança. Ainda mais quando essa crença envolve valores que damos às coisas, parece mais econômico, digamos assim, fortalecer essa crença com uma vestimenta racional do que revisar nossos valores.

Antes de qualquer questionamento que possamos fazer sobre o que é a arte, qual seu objetivo ou sua função, como algo se torna uma obra de arte, o que define “artista”, quais os limites da arte, ou qualquer coisa semelhante – antes de tudo isso, já “sabemos” que pintura é uma forma de arte, que Van Gogh foi um grande artista, que a Mona Lisa é uma grande pintura de nossa história. É claro que as pessoas não vão sendo educadas ao longo de suas vidas com exatamente essas informações, mas com informações desse tipo. Até porque a maior parte da população brasileira, por exemplo, não tem o mesmo acesso a capital e informações culturais que a classe média/alta tem. A educação cultural em termos de História da Arte pode ser praticamente inexistente para muita gente no país.

De todo modo, basta que essas pessoas aprendam algo sobre o mundo da arte para que possam também pensar essas questões em um momento posterior. E as respostas dadas a questões sobre como definir arte sempre terão como referência inicial as informações acumuladas que temos sobre arte. Temos livros de histórias da arte, temos cânones para variados tipos de arte, temos listas de grandes artistas, temos referências artísticas, cursos sobre arte oferecidos ao redor do mundo onde pessoas reproduzem valores e crenças sobre arte de forma industrial em universidades. Nossa capacidade de dar exemplos de belas obras de arte ou de grandes artistas é profundamente marcada e atravessada por todo tipo de “conhecimento” cultural assimilado e reproduzido de forma constante e em escala global.

Dado o fato de que os exemplos “centrais” mencionados serão sempre retirados do cânone acadêmico ocidental (normalmente um punhado de formas, obras e figuras clássicas recorrentemente invocadas justamente nesses discursos – por exemplo: escultura, tragédia, sinfonia; Homero, Rembrandt, Mozart; Rei Lear, Don Giovanni e, para indicar que também existem obras-primas modernas, Guernica), e serão tipicamente acompanhados pelo pressuposto tácito de audiências canônicas experimentando essas obras sob condições canônicas, somado à exclusão implícita de audiências (ou seja, não-ocidentais, não-acadêmicas, não-adultas ou não pertencentes à alta cultura) e condições de produção e recepção não-canônicas (por exemplo: populares, tribais ou mediadas pela massa), não surpreende em nada que “experiências essencialmente estéticas” sempre estejam em conformidade com aquelas normalmente tidas por pessoas ocidentais ou educadas no Ocidente, consumidoras da alta cultura, e que “propriedades essencialmente estéticas” e “valor essencialmente estético” sempre acabem sendo encontrados nos velhos lugares e obras-primas¹.

Ou seja, além de tudo, todo esse mundo da arte que precisamos assimilar de qualquer jeito, como Alice do outro lado do espelho, ainda é elaborado e moldado de acordo com os interesses e gostos ou de elites ou de pessoas suficientemente privilegiadas para que possam ser “consumidoras de alta cultura”. Considerando essas coisas, só pode parecer um tanto ridícula a pretensão de se definir o que é arte de maneira universal, ou seja, de uma maneira que seja válida ou verdadeira para pessoas em qualquer lugar do mundo, em qualquer época. Essas tentativas sempre foram circulares não em um sentido exatamente lógico: mas porque foram como cachorros correndo atrás do próprio rabo, perseguindo algo que poderia até parecer “externo”, neutro, objetivo, mas era apenas uma parte bem enraizada dessas pessoas.

Imagine que Alice encontrasse do outro lado do espelho alguém que dissesse: “Arte é tudo aquilo que nos irrita profundamente”. Seria estranho, não? Bem, quase tudo do outro lado do espelho parece estranho para quem racionalizou outro mundo, assimilado sem grandes questionamentos e sem uma busca de sentido anterior a essa assimilação, à assinatura do contrato.

¹ Contingencies of Value: Alternatives Perspectives for Critical Theory, de Barbara Herrstein Smith. Editora: Harvard University Press; Ano: 1991. Páginas 35-6.