O Autor é um outro – assim cantam os Kĩsêdjê

Por Victor Galdino.
 
Existe uma diferenciação dentro das coisas que dizemos ou falamos de tal forma que apenas uma parte disso é considerada como nossa obra ou trabalho no interior de certos circuitos, como o acadêmico ou o artístico. O Foucault que perguntava na rua “que horas são?” não é o mesmo que escreveu sobre autoria em “O que é um autor?”. Nem tudo que ele disse em sua vida foi recebido da mesma forma, e não arriscaríamos, por conta de certa convenção do mundo acadêmico, citar suas conversas cotidianas sobre todo tipo de bobagens com o objetivo de apresentar o que chamamos “sua filosofia” ou “seu pensamento”. Já no caso da arte, alguém poderia apresentar suas próprias conversas no Whatsapp em uma exposição, mas, sem esse ato de expor com intuito de promover alguma manifestação artística, as conversas continuam sendo irrelevantes para o histórico de performances e obras desse tal artista – mesmo que sejam bastante reveladoras sobre sua personalidade, seus desejos e projetos futuros no mundo da arte. 
 
Há aqui um acordo, um contrato cultural, que, como todos os negócios fechados em uma época que não é mais a nossa, atualmente só nos pode aparecer como um sistema que nos demanda submissão em nome de antigas alianças. Certas palavras se tornarão nossas em um sentido, outras poderão também ser consideradas nossas para alguns efeitos, mas não receberão o mesmo valor, não terão de se submeter ao acordo. Temos esse sentimento de propriedade com relação a nossos pensamentos e outros processos mentais, e ele se mantém quando alguns desses processos são expressos não importa por quais meios. Mas existe uma parte disso que é submetida a normas que vão além das que garantem que nossos discursos serão compreendidos por outras pessoas. Trata-se de um sistema cultural que se apresenta de formas variadas, tendo desde uma face moral até uma jurídica. Quando publicamos um artigo, bem provavelmente estaremos submetendo aquelas palavras a esquemas de proteção legal que formam o que podemos chamar de regime de “propriedade intelectual”. Mesmo que possamos escolher publicar em meios que fujam dessas amarras, nosso artigo ainda assim será, contra nossa vontade ou não, submetido a outras. Ninguém poderá fugir de uma acusação de plágio se resolver copiar uma quantidade qualquer de um texto seu que seja considerada suficiente para uma condenação, não importa o quanto você não se importe, enquanto autor ou autora, com esse ato. Algumas coisas estão fora de nosso controle na medida em que desempenhamos essa função de autoria que não se resume à mera responsabilidade por certas palavras virem ao mundo público. 
 
Que a Autoria não seja meramente uma questão de responsabilidade pelo surgimento de coisas, podemos verificar também nas tradições anteriores a nossa (ou mesmo contemporâneas) que aceitavam o anonimato literário ou a indeterminação autoral sem grandes problemas. Atualmente, a pesquisa acadêmica busca escavar a história atrás de pistas que indiquem a “real autoria” de produções textuais realizadas sem nosso compromisso com a identificação do elemento singular por trás delas, em uma espécie de ato não-consentido que podemos realizar sem mais problemas éticos por estarmos lidando com pessoas que já não vivem mais e cuja memória não nos obriga a nenhum respeito ao anonimato. Vejamos o caso disso que atualmente chamamos “Ilíada” e “Odisseia”, nomes que foram dados a esses versos que hoje lemos bem delimitados, enquadrados e editados dentro de livros. Além da unidade sob um nome-de-obra, temos uma outra, que garante que esses dois aglomerados de cantos sejam entendidos como algo que diz respeito a uma mesma pessoa, um tal Homero. Há uma série de questões em torno desse nome – chamadas por especialistas de “questão homérica”, que se desdobraria em perguntas sobre quem era esse Homero, sobre uma possível autoria múltipla ou coletiva de Ilíada e Odisseia, sobre a composição dessas obras. Era “Homero” o nome de uma outra coisa? Registros nos contam de um grupo de poetas chamado “Homeridai” que, segundo algumas narrativas, reivindicava para si uma descendência direta do grande poeta épico Homero. O trabalho desse coletivo seria recitar e preservar a obra de Homero. Algumas narrativas dirão que o nome adotado por esse grupo não dizia respeito a uma pessoa de nome “Homero”, mas ao substantivo homeros que significava “reféns” – essas pessoas teriam sido filhas e descendentes de outras tomadas como reféns (por conta de guerras provavelmente).
 
Esse caminho pode levar a uma conclusão frustrante a nossos olhos contemporâneos, a de que nunca existiu Homero nenhum, de modo que toda nossa admiração por esses versos, para além dos versos em si, só possa ter como objeto uma multidão desconhecida de pessoas (que poderiam até mesmo ser plenamente nomeadas com o progresso quantitativo do trabalho acadêmico). Mas existe ainda a possibilidade dele ter existido e sido um “grande poeta”, mas de que isso que lemos hoje como sendo seu trabalho tenha sido realizado por outras pessoas. Além disso, podemos realmente crer que as reproduções dos versos de Homero (supondo que ele existiu e que escreveu algo da Ilíada e da Odisseia) não tenha introduzido novos versos, palavras, arranjos no que já havia sido feito por outras pessoas? Longe de querermos ofender as capacidades de memorização dos antigos poetas gregos, mas eles dificilmente tinham nossas preocupações com identidade autoral. Essa diferença diz respeito ao próprio modo como a atividade criativa e seu valor eram compreendidos por essas culturas, mas não se trata de um abismo entre o passado e o presente – talvez a questão seja mais a de uma ausência de uma construção cultural hegemônica, de forma que uma diversidade maior de modos de criação podiam circular mais livremente pela sociedade. Mas, a questão é: se a identificação da autoria de versos pode ter importado pouco ou nada para as pessoas daquela época, por que não poderia ser assim para nós que olhamos tudo isso do futuro?
 
O antropólogo Anthony Seeger escreveu um livro chamado “Por que cantam os Kĩsêdjê” (“Why Suyá Sing”), onde fala sobre a música desse povo que se encontra no Mato Grosso, no Parque Indígena do Xingu. Os cantos seriam elementos fundamentais da vida coletiva na sociedade Kĩsêdjê, e viriam de três fontes diferentes: i) de animais ou plantas, em processos de metamorfose que são descritos através de mitos; ii) “homens sem espíritos”; iii) pessoas estrangeiras, que poderiam ser indígenas de outros povos considerados inimigos ou não, mas também pessoas não-indígenas. No caso dos “homens sem espíritos”, cantos novos são introduzidos na aldeia porque algumas pessoas perdem seus espíritos devido à ação de feiticeiros, que poderiam fazer isso por vingança, inveja ou ciúmes. Acidentes, doenças e outros males ocorridos na sociedade Kĩsêdjê eram tidos como produtos desse tipo de ataque. Mas, o que acontece é que, se o espírito da pessoa for removido de tal forma que vá parar em uma comunidade vegetal ou animal, ela pode acabar aprendendo um novo canto com essa comunidade. Dessa forma, era possível manter a renovação criativa dos cantos, desde que essas pessoas “sem espíritos” passassem por uma metamorfose, de tal forma que passariam a viver de forma dupla, ambígua, na aldeia kĩsêdjê e na aldeia de um determinado tipo de animal ou planta. Assim, elas acabavam sendo apenas um veículo que levava cantos novos para a aldeia, não sendo responsáveis pela sua composição (ou “criação original”). 
 
Em circunstâncias como essas, como uma pessoa ou grupo poderia adquirir qualquer distinção social através da Autoria dos cantos? Que tipo de ansiedade ou pensamento obsessivo poderia sustentar pesquisas destinadas a mapear e identificar autores até a exaustão, em nome da verdade?
[…] sua forma exata em tudo provinha de fora da sociedade. Os cantos estavam acima de qualquer questão: eles simplesmente existiam. Qualquer dúvida sobre a letra de um canto se deparava com o impossível: encontrar e comunicar-se com o cantor original, animal ou planta, que o ensinara¹.
No fim das contas, a autoria nessa sociedade é sempre de um outro. A resposta que qualquer membro dela pode dar à pergunta “Quem criou isto?” nunca seria “Eu”. Uma pessoa com pouca imaginação poderia dizer “Olha, é óbvio que a pessoa que transmite o canto é a autora dele – afinal, pássaros e plantas não podem compor música em um idioma humano – essas pessoas primitivas que não sabem o que dizem!”. Mas isso é tão óbvio assim? São elas que não sabem o que dizem? Quem é o Autor afinal? Podemos dizer que compomos música de forma plenamente consciente, para que possamos dizer que isso que nós identificamos como dizendo respeito a nós, nosso Eu, nossa identidade pessoal, é o que está por trás da criação musical? Quem é esse Eu afinal, que se manifesta quando dizemos “Eu criei isso”? Por que falamos tanto de inspiração como se fosse algo que viesse de um outro lugar que não o palco iluminado pelos holofotes do Eu consciente? Deuses, pássaros, inconsciente – não seriam esses alguns nomes que damos para isso que não conseguimos dizer com toda precisão possível do que se trata, quando precisamos responder sobre nossos processos criativos? E também: existe alguém que possa relatar um processo criativo como o envolvido na composição de uma música sem topar com buracos, brechas e espaços escuros?  
 
Os relatos do povo Kĩsêdjê sobre a origem de seus cantos nos dizem algo importante: a composição musical não passa totalmente por isso que identificamos em nós mesmos como sendo o que somos. E o que somos, na medida em que identificamos isso conscientemente, não é a totalidade de coisas que se passam em nós, em nossas cabeças. Se associamos o Autor ao Eu, só podemos mesmo acabar falando de ilusões produzidas por feitiços poderosos. Temos um acesso tão restrito ao que se passa em nossas mentes, aos pensamentos e informações que operam em silêncio e no escuro, para que possamos funcionar do jeito que funcionamos – e mesmo assim andamos por aí proclamando Autoria sobre uma porção de coisas, como se elas tivessem nascido do nosso umbigo e não coletadas ao longo de uma vida em sociedade, armazenadas em cantos negligenciados de nossas mentes, esperando alguém lançar nossos espíritos para um outro lugar para podermos rearranjar essas coisas em algo que chamamos “criação”. Afinal, quem ou o que são os pássaros que ensinam nossos cantos?   
 
¹ Página 111 de “Por que cantam os Kĩsêdjê”, na tradução publicada pela Cosac Naify em 2015.