Sobre 13 Reasons Why, selfies e vanguardas

Por Uiliana Ilza Zanon.

Todos os personagens de 13 Reasons Why só conseguem pronunciar seus pensamentos em público através de ironia, cinismo e auto-consciência (que, incrivelmente, só se torna consciente de superficialidades). Os diálogos são cansativos, porque ninguém fala nada num sentido literal. Vocês não poderiam simplesmente falar ao invés de sempre tentarem dizer algo?, pergunto mentalmente enquanto assisto. Todos os personagens, quase 100% deles, são “espertinhos”, com específico tom de voz, com aquelas metáforas nonsense, de quem é maior do que qualquer tribo, maior do que estereótipos; simplesmente por terem consciência de que fazem parte de uma tribo, fazem parte de um estereótipo – afinal, estão no colégio, a igreja da tipificação social.

Isso lembra um fenômeno muito comum na internet, que acompanho há bastante tempo. Nós, espertinhos, sabemos que postar fotos de si mesmo é uma atitude egoica. Nós, para sermos espertinhos, temos que nos precaver contra isso. Também sabemos que fotos clickbait são um fenômeno associado aos nossos inimigos, que eu vou denominar como os OQNLD (os que não leram dostoievsky), pessoas que falam “top” sem a nossa característica finesse irônica, e que ostentam a tríade mmm (músculos, meritocracia e medo de morrer) que nós ridicularizamos/invejamos. Por isso, inventamos um meio de neutralizar a aproximação com os OQNLD em cada selfie e em cada foto séria onde acreditamos que exalamos beleza. Assim como os personagens de 13 Reasons Why, jogamos junto de cada postagem certo subtexto, em que fica claro ao visualizador nossa consciência de que se trata de uma foto ridícula, de que fazemos uma pose, de que desejamos atenção, e acreditamos seriamente, agora sem ironia, que essa exposição pública de nossa auto-consciência purga qualquer paridade entre nós e os OQNLD, que essa auto-consciência do nosso ato ridículo, ao se tornar ativa, acaba destruindo o que havia de ridículo no ato, e se tornando consciência vazia, de nada, pois não há nada ridículo em postar fotos fazendo pose e selfies, desde que elas estejam acompanhadas de uma declaração de que é uma pose, é uma piada, eu só estou fazendo troça, eu não sou como eles etc.

A declaração não precisa ser direta. Basta escrever algo como “primeira selfie do dia” e pronto. Todos agora sabem que você sabe que se trata de uma selfie. Que você não é um incauto. Às vezes legendamos com “selfie só porque gostei do meu cabelo” ou “nossa minha barba está horrível” ou “aquela cara de quem preferiria estar dormindo” acompanhada de uma selfie no trabalho.

Eu digo “no trabalho” e fica nítido que não são espertinhos muito novos. São pessoas já mais maduras, diplomadas. Porque elas se comportam como os adolescentes de 13 Reasons Why, uma série cansativa de se ver exatamente porque foi feita para o olhar frenético dos adolescentes educados socialmente por vlogueiros?

Para isso, basta buscar no Google quais são os vídeos mais assistidos da história do Youtube. Na casa das bilhões de visualizações. Talvez o leitor se surpreenda, talvez não: são quase todos video-clipes, quase todos para adolescentes. Os adolescentes são a vanguarda da internet, já há muito tempo. Eles tem mais tempo livre, eles amadurecem junto com a internet, um artefato já para eles bastante natural. Com a torrente de conhecimento da internet, eles amadureceram – ao menos no modo de falar, na quantidade de informação armazenada no cérebro – de maneira mais veloz que a gente, na nossa época. É claro que não é um amadurecimento de fato, é algo como os diálogos de 13 Reasons Why: uma capa superficial de recursos linguísticos para sugerir inteligência e, acima de tudo, superação da ingenuidade. Ser ingênuo não é mais um atributo meigo; é ser como o OQNLD do primeiro episódio, o primeiro dos treze, o playboy que joga basquete: é um ser tosco, que não tem nada para dizer sobre nada, e, pior de tudo, não apresenta auto-consciência sobre si.

A verdade é que, como vanguarda da internet, os novos adolescentes estão ditando as regras de conduta no meio. Apesar de aparentar um grande espírito, os adolescentes do tipo espertinho-alternativo de classe média são só crianças querendo chamar atenção. O resultado é que, como vanguarda, eles aos poucos tornam todas as faixas etárias e sociais da internet como eles. Aos poucos a internet vai sendo tomada por crianças cada vez mais jovens e talvez a tendência seja uma vanguarda de bebês no futuro. Os mais velhos legendarão “gugudadá” em cada selfie. Talvez seja melhor: bebês não tem auto-consciência.