Belchior, síntese de duas esquerdas

Por Filipe Völz.

O primeiro verso da primeira canção do primeiro disco de Belchior fica repetindo: “é o novo, é o novo, é o novo”, ao mesmo tempo um camelô vendendo na rua, um intelectual fazendo poesia concreta (ecoando Maiakovski) e um profeta anunciando o futuro. Defendo a ideia de que Belchior era uma síntese, nos anos 1970, das vertentes de esquerda que entraram em conflito no final da década anterior.

Pra mim, o melhor verso do Belchior é quando ele chama Caetano/Gil de “velho compositor baiano” em 1976, no seu hit mais conhecido. Se a Tropicália foi uma resposta da esquerda-desbunde (é proibido proibir, tudo é divino tudo é maravilhoso) à caduquice da velha esquerda (passeata contra a guitarra elétrica), o Belchior é a esquerda aprendendo com seus erros; ao mesmo tempo em que desmascara a libertação tropicalista fazendo sua cartografia social (zona sul do Rio), sustenta um pessimismo de classe sem medo de ouvir Beatles. Belchior era uma síntese a uma questão muito pontual – e talvez por isso a sua produção significativa tenha tido um período de vida tão curto – do disco de 1974 ao de 1979.

Outro verso singular na história da MPB é “O Nordeste não existe, o nordeste é uma ficção”, proposição que  deixaria Edu Lobo, Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo e Chico Buarque sem assunto para escrever canções. Era comum, para cantores e escritores de esquerda, passar por cima do que hoje, através do debate norte-americano, aprendemos a chamar de lugar de fala. Assim, com tranquilidade, moradores do Leblon* assumiam a persona dos parentes de seus porteiros e garçons para comporem sobre as penúrias rurais do Brasil profundo. A imagem figurativa do nordeste – que até hoje é usada pelos partidos da “grande esquerda” (aqueles em que o Chico Buarque vota) – é desmistificada por Belchior, o nordestino outsider, residente de “cabarés na Lapa”, preso ao seu RG, que deve rotineiramente mostrar aos policiais.

Por isso ele escreve, agora de volta à outra esquerda, que “a minha alucinação é suportar o dia-a-dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”. Psicodélico é o salário-mínimo. Como coloca Ferreira Gullar, “o preço do arroz não cabe no poema”. O milagre, a alucinação, não servem como tema de canção. Isso é um pressuposto ético, pois “sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”, mas também é estético, já que “viver é melhor que sonhar”. A arte é menos interessante que a vida. Ao mesmo tempo, o cotidiano não deve ser convertido, como na canção homônima de Chico Buarque, em êxtase sensual ou épico de sobrevivência. Por isso Belchior se diz “um simples cantador das coisas do porão” – porão da MPB, é claro. “Não há motivo para festa” e nada é divino ou maravilhoso: estamos vivendo em uma ditadura militar! Essas são as coisas reais de que ele falava. Ainda são reais.

Além do materialismo, Belchior se interessava por outra questão, mais filosófica. Como Tom Zé teme A Felicidade, Belchior anseia A Novidade. É tema subjacente a canções diversas, algo que explicitamente atraía o compositor. Como expressar a novidade? Como deixar o passado morrer, como se compreender a partir de algo que sequer está aí?  Das duas temáticas de Belchior, sua principal intérprete, Elis Regina, escolheu apenas a novidade (por motivos óbvios, ela não podia falar do materialismo). “Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida” são odes exclusivas ao tema. “O novo sempre vem” e “o passado é uma roupa que não nos serve mais”. Parece pura exaltação.
Contudo ainda somos como nossos pais e coisa e tal… Os hippies estavam aqui semana passada, já são velhos. O que é o novo? Uma incessante busca? Isso falariam as múmias pós-modernas, antropófagos de tudo, mas com uma predileção por intelectuais francófonos… (“quero esquecer o francês”, diria Belchior).

Para ouvir Belchior é necessário fundir materialismo e novidade… O novo é concreto, como os discípulos pirados de Heráclito, que ficavam apontando pras coisas e dizendo “vejam só, já não é mais o mesmo, já não é, já não é, já não é”, “é o novo, é o novo, é o novo”. Mas não é a filosofia, e sim “a voz ativa” que “é uma boa”. São as coisas reais, ao nosso redor, em nosso cotidiano, a novidade incessante; não as caricaturas de oprimidos distantes, mas a matéria-prima em cada esquina, atualíssima. “Olho de frente a cara do presente e sei que vou ouvir a mesma história porca.” Afinal, “o que é que pode fazer o homem comum neste presente instante senão sangrar?”.

(boa parte desses versos são de uma mesma canção, “Conheço o meu lugar”, de 1979)

* Tem algumas outras canções que fazem essa crítica, como “Ioio” e “Partido Rido” de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, “A Resposta” (que é uma resposta reacionária, mas a crítica continua lá) de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, “Forró de Ipanema”, de Odair José, “Garoto Paissandú”, de Mariozinho Rocha e gravada por Dóris Monteiro além de algo mais indireto em “Pé na Senzala”, composta por Zé Rodrix enquanto fazia parte do Joelho de Porco ou ainda no fantástico “Samba do Crioulo”, de Miguel Gustavo, gravado por Miltinho.