Literatura e o cânone: exclusão do negro

Por Viviane Moraes.

Quando atentamos para a literatura brasileira, dita canônica, percebemos que ao negro, sobretudo até o início do século XX, não foi permitida ou divulgada a voz-consciência emancipadora de sua condição, tal qual sinaliza-nos Spivak em “Pode o subalterno falar?”, no que tange a questão da subalternidade dos sujeitos neste mundo subjugado aos valores eurocêntricos.

Desta forma, o cânone ignorou e ignora, obras como “Úrsula” de Maria Firmina dos Reis e “Trovas burlescas de Getúlio” de Luís Gama, ambas do século XIX, fundadoras de um viés afro-brasileiro de fazer da arte a escrita. Não se conhece e reconhece uma literatura genuína feita por afrodescendentes por parte de quem estipula e decide o cânone, isto é, os acadêmicos, críticos e estudiosos do assunto.

Quando, academicamente, a literatura brasileira funda-se com o Romantismo de José de Alencar e verificamos nela a tentativa de apagamento tanto dos indígenas – Peri só se estabelece neste romance para evidenciar a grandeza do “nobre” português e dos valores eurocêntricos –, quanto dos negros, uma reflexão salta-nos os olhos: a literatura canônica é eurocêntrica e apenas eurocêntrica.

O mesmo se dá com a dita fundação das literaturas africanas de língua portuguesa, pois, nela, apenas as personagens e os cenários dos romances e poesias são africanos, enquanto todo o discurso ideológico e literário transborda a Europa. Vide Nga Muturi, por exemplo, de Alfredo Troni. E não vou entrar na discussão sobre o privilégio de autores africanos brancos em relação ao cânone que autores africanos negros não gozam.

Tudo isso para refletir sobre o quanto o conhecimento do negro, tal qual sinaliza Joel Rufino dos Santos na obra “Saber do negro”, é ignorado pelas estruturas racistas de poder. A literatura é construtora de imaginário social, assim como o cinema, a pintura e as novelas, também o são. Portanto, qual é o imaginário que este país quer passar, ao ignorar que nós, negros, também fundamos a literatura brasileira?

Assim, desejo que recuperemos o que é nosso. Leiam Luís Gama e Maria Firmina dos Reis.

Asè.