Instagram, utopia e distopia

Por João G. Paiva.

“Quanto mais a vida do homem se torna seu produto,
tanto mais ele é separado da sua vida.”
Guy Debord

Para os primeiros hipsters o Instagram foi um distintivo de classe. Na verdade, os hipsters costumam estar na linha de frente de diversos processos sociais hoje. O hipsterismo é importante no processo de gentrificação das grandes metrópoles – por exemplo, em geral são os primeiros a pisar nos bairros ainda à margem do poder público, alugando apartamentos e aumentando o nível de consumo da vizinhança. Com a chegada dos hipsters, tem início o processo de gentrificação. No início, o Facebook era dos hipsters, o Instagram também.

Hoje o Instagram se expandiu para toda a classe média, alta e além, embora o primeiro passo, como nos bairros populares gentrificados, tenha sido hipster. Aí está o Instagram, uma rede social baseada em fotos e processos sofisticado de filtros/ cores para fotos. Quando foi criado, existia apenas para sistema iOS; ao se universalizar, gerou uma onda de protesto virtual baseado em ácida ironia dos primeiros colonos hipsters, incomodados com o fato de não serem mais tão restritos.

Quem já assistiu à última cena de Mad Men pôde intuir as origens da melhor publicidade. E a publicidade tem tudo a ver com o Instagram. A lógica do Instagram é criar uma narrativa visual sobre o seu próprio cotidiano. Mas a sua gramática é a da publicidade. Não é à toa que através dele você pode deslanchar como publicitário avulso, caso arranje uma boa rede de seguidores ao registrar sua vida. A matéria-base das imagens são mercadorias, seja numa versão explícita, como viagens, restaurantes, roupas, passeios, objetos etc., seja na versão sublimada da vida objetiva. Tudo, no Instagram, está envolto em publicidade. E isto não é uma constatação pessoal de que o imaginário de hoje costuma recorrer à forma-mercadoria para se objetivar, mas é o formato que os próprios filtros do Instagram imprimem. A chave do sucesso no Instagram – o que atraiu os primeiros colonos hipsters – foi a possibilidade de conversão imediata de qualquer fotografia em imagem publicitária. A ferramenta “filtro” se utiliza da mesma técnica dos outdoors, por exemplo, reduzindo a profundidade do plano e intensificando o efeito de cores. Procedimento derivado das técnicas pós-impressionistas que culminou na arte de vanguarda de mais de cem anos atrás. Esse filtro é a magia que dota as fotos ruins e aleatórias de certo frescor (“encanto” análogo ao da forma-mercadoria), para depois disponibilizá-las a um simulacro de venda no Feed de imagens. É normal que se repita, no perfil de influenciadores do Instagram, o comentário de fãs: “sua vida parece um filme”. Sim, verdade, com a ressalva de que estamos falando de um estilo específico de filme, amálgama de cinema e publicidade, próprio ao núcleo californiano da indústria, perfeitamente compatível com o idioma das séries de TV. O Instagram aglutina dois processos: a apropriação do mundo como mercadoria e a publicidade desse mundo na estética de uma vida desejável – ou, mais importante, portadora de marca pessoal.

Então nos deparamos com imagens da vida que, apesar da onisciência de todos sobre seu invólucro de artifício, parecem mais atrativas que a realidade ela-mesma, ainda quando só por um segundo. Da mesma maneira, as mercadorias nas campanhas de publicidade. Bem, estamos chegando ao centro teórico onde as mercadorias convertem-se em sujeitos da história, estagnadas em torno de nós e nos assistindo em curiosa suspeição. Por isso, de volta a Mad Men, o protagonista Don Draper se sente esvaziar enquanto cria, anima e confere vida aos produtos, através da publicidade, terminando seus episódios em silêncio e aterrado pelo que vem a ser sua existência. Não vamos entrar nesse recinto teórico.

Voltando no tempo, ainda no início do século XX, as vanguardas dadaístas, surrealistas, o futurismo russo etc transformaram todos os conceitos das artes. Tinham, nessa luta estética, um projeto embutido de transformação do mundo. A transformação da arte se realizou, a outra – mais importante –, não. O triunfo do capitalismo e do seu modo de vida permitiu que a publicidade absorvesse as técnicas da vanguarda, esvaziando delas a política. Esse processo ajudou em muito o desenvolvimento da publicidade e, por conseguinte, nosso Don Draper. Então, quando, na segunda metade do século, um artista como Joseph Beuys começou a defender que “todos somos artistas”, na esteira dos melhores teóricos Dada, ele já não contava com um projeto de transformação do mundo por trás. A verdade é que a existência submetida ao formato da mercadoria só tinha como gerar algo diverso de um “encantamento” do cotidiano por meio da arte. Ao contrário da emancipação, ela gerou uma linguagem que se massificaria a partir da década de 1980 e que hoje atinge certo apogeu.

Na segunda metade do século XX o experimentalismo estético já estava distante de uma luta pelo curso da civilização. A conjuntura, também, era outra. Surgiram, aqui e ali, movimentos localizados, como no cinema brasileiro dos 1960 ou como os Situacionistas na França. Em 1968 as rebeliões estudantis trouxeram reivindicações anti-status quo, enfrentando pressupostos do sistema capitalista e tudo isso. Assim, como nos primeiros anos do século, essa transformação radical do mundo também caiu por terra. Mas na hipótese de Luc Boltanski, nos dias de hoje, chegamos a um “novo éthos do capitalismo”, advindo das reivindicações de 1968. Ao invés de derrotado, o capitalismo saiu vitorioso, incorporando e regurgitando aquelas pautas. E o novo núcleo ideológico do trabalho seria derivado daquela “vida de artista”, sonhada pelos estudantes. É consistente a análise feita por Vladimir Safatle sobre esse núcleo neoliberal em O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. O antigo mundo do trabalho weberiano, “espaço da rigidez do tempo controlado, dos horários impostos, da alienação taylorista e da estereotipia de empresas fortemente hierarquizadas”, passou tendencialmente a converter-se num “modelo de ética de trabalho derivada da produção estética”, isto é, “circunstância na qual a produção não seria mais vista como produção de objetos, mas como produção de imaterial, ou seja, de serviço, ‘experiências’, valores e ‘acessos’, os trabalhadores necessitariam de ‘capacidades expressivas e cooperativas que não podem ser ensinadas, da vivacidade no desenvolvimento de um conhecimento que é parte da cultura da vida cotidiana’”, diz citando André Gorz.

A relação mundo x vida x arte, que os vanguardistas do início do século XX tentaram fundir, foi aos poucos apropriada pelo sistema. Hoje encontramos uma das engenhocas desse processo na forma do aplicativo Instagram, capaz de submeter qualquer elemento do mundo ou da vida em experiência estética potencialmente inscrita num movimento de publicidade. O Instagram não é origem, mas uma entre outras formas do processo em curso.

E assim retornamos ao mundo hipster, inteiramente conectado ao setor de serviços, free lancer, nesse modelo de trabalho derivado da produção estética, sofrendo as exigências de converter sua vida privada num mecanismo publicitário com vistas a dar prosperidade à empresa que é ele mesmo. Por isso a irritação hipster ao perder sua “marca pessoal” com a popularização dos seus gostos/ mercadorias distintivas; todo um universo que nos é familiar e que foi sintetizado décadas atrás no rótulo, já desgastado, “Não me rotule”.

Mas quem são, afinal, os hipsters? Se encontramos sua origem nos símiles de revolta produzidos pelo próprio capitalismo pós-1968, sabemos que é um processo global e que começou a se consolidar a partir do ascenso do neoliberalismo. Se fôssemos inventar uma falsa etimologia, diríamos que “Hipster” significa “Os primeiros”. O hipsterismo não está separado do processo em curso, são apenas os primeiros a chegar. Por isso todos que adentramos esse novo mundo do trabalho derivado de uma ética estética, em alguma medida, somos parte. Todos estamos integrados ao universo hipster porque ele não é uma escolha, mas uma exigência da época. O contraditório é que sua origem remete aos centros do capital, como Nova York e Berlim, e as classes que estão sintonizadas com a nova ideologia do trabalho são ainda classes privilegiadas. Imagino que mais ou menos as classes sociais que estão presentes hoje no Instagram.

Mas se os hipsters são os primeiros a chegar, onde eles chegam? Onde estão chegando agora? Esse lugar é bom? Dando continuidade àquele argumento, Safatle traça um paralelo da flexibilização do trabalho, sua desregulamentação, com o quadro de patologias psíquicas (1) que eclodiram exatamente no mesmo período (a partir dos anos 1980). Retomando a distinção entre a velha forma taylorista e essa outra, ele identifica que as antigas neuroses advindas da culpabilidade da rigidez, são substituídas por novas patologias. Uma forma de trabalho que “não é previamente mensurada, não se submete integralmente ao plano, mas que absorve o risco, a instabilidade e a indeterminação”, resulta, na hipótese do autor, no domínio desenfreado de formas depressivas, de transtornos de personalidade como as patologias narcísicas e borderline. “Atualmente nos deparamos com a crença de que cabe apenas ao indivíduo a responsabilidade pelo fracasso da tentativa de autoafirmação de sua individualidade no interior do trabalho. Pois o próprio discurso social é constituído a partir da incitação à autoexpressão de si”. No surgimento do primeiro antidepressivo, em 1956, o laboratório que o sintetizou chegou a hesitar comercializá-lo pois o mercado da depressão era insignificante. Hoje, em países como Reino Unido, 1 em cada 5 adultos sofre de depressão. Problema correlato ao novo modo de vida. Na brilhante definição de Maria Rita Kehl: “o tempo morto do depressivo funciona como refúgio contra a urgência das demandas de gozo do Outro”.

Daí que os hipsters, como forma mais bem acabada dessa apropriação pós-1968, talvez fulgurem como uma consciência infeliz, lembrança incômoda do sistema, a reviver no seu desmoronamento cotidiano que o projeto original não se realizou, a nos antecipar que a realidade deplorável do trabalho hoje, sobretudo nas periferias globais, como nossa América Latina, insuflada pelas contínuas promessas do empreendimento, de um “chegaremos lá”, distraídas pela conversa sobre ganhos com desregulação, estejam na realidade imitando o itinerário de navios, outrora dianteiros, hoje completamente fantasmáticos.

E o Instagram surge como engenhoca a absorver todo cotidiano em sua linguagem – demarcada –, pronto para fazer como Don Draper e converter as mais autênticas experiências pessoais numa peça publicitária. Assim ruma o sistema para um domínio cósmico de todos os microcosmos. O problema é que o cotidiano, irrevogavelmente, foi posto em ação. O cotidiano porque, para assombro de qualquer Thoreau, tornou-se preciso transformar o mais fundo “tutano da vida” em formas de ganhar dinheiro/ angariar capital simbólico-individual. Mas o que é o cotidiano? O lugar político por excelência. Por isso, diante das constatações, não devemos agir feito os utopistas-nomadistas do século XIX que propunham, como melhor forma de combater o capitalismo, “fugir para um país distante onde ele ainda não tenha chegado”.

As passagens menos hollywoodianas de Mad Men são as dos episódios que terminam na melancolia de Draper e nos seus olhos ocos, mirando o nada. Seja dirigindo o Cadillac 1965 ou sentado no sofá vermelho da sua varanda n. 783 da Park Avenue em Manhattan. O que esses dois olhos têm a dizer quando ficam ocos? Nem o autor da série, nem ele mesmo sabe inteiramente. São espaços indevassáveis dos elementos mais clandestinos de nós mesmos, como diria Guy Debord, da cotidianidade a um só tempo próxima e apartada de nós, facilmente explicáveis e inteiramente sem explicação. A consciência infeliz que eles trazem não se acessa a não ser historicamente, sua verdade está trancafiada e alheia a qualquer mandato de busca ou coleta de experiências. Por isso algo sobrevive à maquina regurgitante.

Desconhecemos por quais meios os planos não-sucedidos das vanguardas dos 1910’s e de 1968 irão retornar. É provável que alguma hora tentem retornar. E o Instagram, ele ou seu substituto futuro, poderia ser mais uma engenhoca na disputa do cotidiano, quem sabe nele não se extravase parte desse clandestino quando alguma coisa de fundamental no sistema entrar em disjunção. Esse clandestino que ainda não temos acesso e não sabemos. Às vezes precisamos dar confiança à frase de Brecht: “É melhor um mau presente que um bom passado”.




(1) É importante ressaltar que Safatle utiliza “patologia psíquica” no sentido de Canguilhem, contrário ao de Durkheim, já que este lê saúde psíquica pressupondo normalizações e normatizações.