Três poemas de René Char

Tradução de Raphael Luiz de Araújo

René Char (1907-1988) foi um poeta de Isle-sur-la-Sorgue, vilarejo próximo a Avignon, situado no sudeste da França. Ele fez parte do grupo surrealista francês por um curto período (1929-34) junto a nomes como Paul Éluard, André Breton e René Crevel. Lutou na Resistência francesa no Exército Secreto do maquis dos Baixos-Alpes durante a Ocupação Alemã, adquirindo com isso a imagem de uma figura engajada de grande importância no pós-guerra. Ele relata essa sua experiência em uma de suas obras mais famosas, seus Folhetos de Hypnos, dedicada a um dos seus melhores amigos, o escritor Albert Camus. Com grande talento para a amizade, Char foi amigo de filósofos, escritores e sobretudo pintores, como Georges Braque, Salvador Dalí, Alberto Giacometti, Pablo Picasso, Juan Miró e Nicholas de Staël. Os três poemas seguintes passam pelas temáticas do sagrado, do amor e da criação. Trazem uma acepção cíclica do tempo, tendo como base simbólica o elemento do fogo no pré-socrático Heráclito de Efeso, tal como apresentado no primeiro poema. A chama que arde é simultaneamente macrocosmo e microcosmo, movimento e inércia, multiplicidade e unidade. Ela ilumina o mundo para nos levar a enxergar em todas as coisas seu eterno ciclo de morte e renascimento.



A chama sedentária

Precipitemos a rotação dos astros e as lesões do universo.
Mas por que alegria e por que dor?
Assim que chegamos à montanha frontal, surgem minúsculos trajados de sol e de água aqueles que chamamos de deuses, a expressão menos opaca de nós mesmos.

Não teremos que civilizá-los.
Apenas os celebraremos, bem de perto; seu abrigo está em uma chama, nossa chama sedentária.



Vassalagem

Pelas ruas da cidade anda meu amor. Pouco importa aonde vai no tempo cindido. Não é mais meu amor, todos podem lhe falar. Já não se lembra; quem mesmo o amou?

Ele procura seu par na promessa dos olhares. O espaço que percorre é minha fidelidade. Esboça a esperança e ligeiro a rejeita. É preponderante sem tomar parte.

Vivo em suas profundezas como um feliz naufrágio. Sem ele saber, minha solidão é seu tesouro. No grande meridiano onde alça seu voo, vem minha liberdade esvaziá-lo.

Pelas ruas da cidade anda meu amor. Pouco importa aonde vai no tempo cindido. Não é mais meu amor, todos podem lhe falar. Já não se lembra; quem mesmo o amou e o ilumina de longe para não tropeçar?



Presença comum

você tem pressa de escrever
como se estivesse em atraso com a vida
se for assim corteje suas fontes
corra
corra para contar
sua parcela de maravilhoso de rebelião de generosidade
de fato você está em atraso com a vida
a vida inexprimível
a única à qual você aceita se unir enfim
que lhe é recusada a cada dia pelos seres e pelas coisas
da qual custosamente obtém alguns fragmentos extenuados
ao cabo de combates impiedosos
fora dela tudo não é mais que agonia submissa fim áspero
se encontrar a morte durante seu labor
receba-a como a nuca suada se alegra com o lenço árido
inclinando-se
se quiser sorrir
ofereça sua submissão
jamais suas armas
você foi criado para momentos pouco comuns
modifique-se desapareça sem pesar
sob o desejo do rigor suave
rua após rua a aniquilação do mundo continua
sem interrupção
sem desvario

disperse a poeira
ninguém desvendará sua união.


Extraídos de CHAR, René. Œuvres complètes. Paris: Gallimard “Collection de la Pléiade”, 1983.

Contato: raphael.araujo@usp.br