Uma teoria geral para além do fracasso

Por Aza Njeri (Viviane Moraes).

O livro de Hamilton Borges Walê, conhecido militante pan-africanista da Reaja Organização Política surpreende. A surpresa se coloca já na escolha literária – poesia – que Hamilton se propõe. Conhecido pela dureza de olhar e de fala, foi com espanto que as pessoas, ao abrirem a obra intitulada Teoria Geral do Fracasso, receberam versos repletos de metáforas dissonantes e imagens de casa/família, rua/Exu, violência/sobrevivência. Isso se deu, talvez, pela expectativa de um livro sobre luta política e seus fracassos nela, talvez, pela descoberta de um lado lírico de um homem de Ogun fechado em batalhas.

Revelando uma dicção cortante, a obra, dividida entre casa e rua, nos convida a entrar em ambos espaços íntimos do poeta. Na casa, revela-se traquino como Exu, o orixá das encruzilhadas e comunicação, fertilidade e confusão, que, tal qual guia, caminha desde o nascimento do sujeito lírico – “Era um Exu aquele moleque preto como eu / sou agora/ Exu toda hora ria quando minha mãe me / carregava na barriga (…)” até as suas andanças pelo território inóspito e violento de um brasil genocida.

Na casa, conhecemos sua avó, que caminha pelas páginas e versos como ancestral protetora, guia, cuja mensagem fortalece e encoraja o sujeito da escrita. Ela é o porto seguro, aquele que lhe trouxe ao mundo e a que retorna em poesia para remarcar sua origem e ancestralidade.

É um livro de celebração ao matriarcado africano que se estabelece, desde a dedicatória às diferentes mães que atravessam o caminho do poeta, passando pela filha que de corpo e afeto ausente se instala em palavras, até as mães que em ruas se mostram Oniras, fortaleza e tempestades em lágrimas ao verem carregar seus filhos de morte presente nos rabecões da cidade.

A rua é espaço inóspito. É espaço em que o sujeito poético se cria. Seja em versos, músicas ou melodias. Seja em massa, frangalhos, dores. A rua é a porta para o encarceramento e para a morte matada. Nessa dualidade, o cárcere se apresenta como espaço de acolhimento por meio do pano úmido que “vai limpando o sangue de minha carne / amolecida”, tanto pelo cobertor oferecido, quanto leitura do “salmo triste”, ou tranquilidade do adormecer sabendo-se “bem cuidado”.

A morte se apresenta no amanhecer partido de uma cidade violenta que mira os territórios pretos as suas escopetas bandidas, se mostra nos amigos mortos em alma e solidão e nos torturadores pálidos fardados ou não que encaminham essa lógica de nada que cruza o livro.

É uma obra para ser lida com vontade de adentrar ao espaço da dor. Pensando sempre que nem todas as dores são ruins.