A exposição Queermuseu foi bem sucedida – o Santander Cultural não.

Por Filipe Völz.

Outro dia, no horário nobre da Rede Globo, Levy Fidelix discursava em uma propaganda de seu partido, exaltando as forças armadas e atacando ferozmente os grandes bancos. A próxima propaganda fora estrategicamente colocada pela emissora: era um vídeo da própria Globo em defesa da pluralidade de gênero. Não é difícil constatar o apoio regular das organizações Globo aos bancos e a política de rentismo. De Levy, por sua vez, não se espera apoio algum à causa LGBT. Neste breve exemplo da “montagem intelectual” de que falava Eisenstein, onde o corte da edição é carregado da intenção de “dizer algo”, milhares de espectadores experimentaram, sem nada experimentar, o gosto agridoce da fricção política mais importante dos últimos anos: a crítica econômica é feita por cavaleiros templários; a crítica cultural é feita por sultões plutocratas.

Neste último grupo se encontra sem dúvida o mecenas Santander, que abrigou em seu museu a exposição Queermuseu, agora já forçadamente encerrada. Após protestos de setores conservadores, como o MBL, aliados à classe média (como sempre perdida, indo pra qualquer lugar e pra todos os lugares ao mesmo tempo) o banco fez… o que um banco faz: tomou a questão por seu viés técnico e minimizou os prejuízos.

É como uma tragédia grega: todas as partes desempenharam o papel que já se sabia que fariam. O que estava previsto se realizou, inclusive a catarse. Todo mundo está puto, inclusive eu. Qual é a solução?

“Se a Globo é contra, somos a favor, se ela é a favor somos contra”, dizia Brizola, absolutamente lúcido, mas provisoriamente certo. É necessário separar o joio do trigo, assim como a Globo das pautas que ela defende. Porém é impossível separar a Globo… da Globo. A Globo tem que fazer o que ela tem que fazer. Disso não decorre que, em vista de um princípio moral, devemos declinar do convite de Fátima Bernardes para seu programa. A questão é que por um princípio prático, a Globo e o Santander só podem dar o que a Globo e o Santander podem dar.

E a arte? Ao menos uma vez na vida o leitor deve ter ouvido falar que a arte é feita  (o leitor coloque com a imaginação as aspas) para incomodar, que ela deve instigar o espectador, que ela problematiza, desconstrói, nos tira do lugar-comum etc.

O objetivo do Santander Cultural é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia” (…) “Desta vez, no entanto, ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana.

Do Santander Cultural não se esperaria outra declaração. A arte deve promover debates, mas sem discórdia. Ela deve gerar inclusão – mas com respeito. E a estranha expressão “reflexão positiva”… pois pelo jeito existem coisas sobre as quais refletir gera prejuízos, coisas sobre as quais não devemos pensar.

A resposta da esquerda também acaba sendo tragicamente previsível: devemos lutar com todas as forças para retomar esse front imprescindível que se tornou o Santander Cultural, a Bastilha do século XXI. Mas, camaradas, não se trata de recuar, mas de avançar verdadeiramente. Abandonar o barco dos bancos em direção aos bancos das praças. Nós temos a internet, galpões abandonados, um amigo rico herdeiro de um imóvel… Mas, afinal, por que será que bancos estão sempre envolvidos com as artes? Será por que ambos fazem de ficções um mercado lucrativo?

Avançar verdadeiramente significa radicalizar o discurso e a discórdia. É impossível um discurso radical em um museu reacionário… É como plantar maconha no quintal da igreja. O que devemos nos atentar é que a exposição Queermuseu foi muito bem sucedida. Ao invés de retroceder e clamar pela liberdade de expressão de suas obras e pelo bom senso da opinião pública, devemos acelerar os pontos de diferença e tornar a nossa sociedade inconciliável com a dos cavaleiros templários. Ao mesmo tempo, é uma sociedade conciliada que os bancos, a Globo e a social-democracia (em todos os seus matizes, mesmo aqueles que não se enxergam enquanto tal) avidamente almejam.

Por isso tudo, não faz sentido dizer que os artistas e intelectuais não devem utilizar os aparatos da Globo e do Santander para promover a pauta da inclusão. Eles são o suporte perfeito para isso. A questão é que a pauta da inclusão não deve mais ser a nossa. Esclareço com um exemplo bíblico que vem bem ao caso: quando Jesus diz que os humilhados serão exaltados (Lc 19:14), ele não quer dizer que o imperador romano passará a respeitar os judeus no futuro; ele quer dizer que o reino de Deus se sobrepujará sobre este, um reino criado por mãos semitas, mesmo que para todos.

O fato é que, sem dúvida, o MBL entende de arte muito mais que o Santander e a social-democracia. Com toda a canalhice de think tank importado , o MBL conjura seus espantalhos, desta vez a zoofilia e a pedofilia. O núcleo da revolta, no entanto, é verdadeiro: que se dane a expressão da liberdade individual do artista. A arte é a bomba H. Ou a bomba Q, no caso.

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