“O Jovem Marx”: o fetichismo da forma hegemônica

Por Filipe Völz.

Quando se soube que “O Jovem Marx” não seria distribuído nos nossos cinemas, de imediato diversos  interessados publicaram links do filme completo no youtube e no facebook. Pela baixa qualidade da imagem dos filmes upados, logo ficava evidente a vigência de um velho mal da análise estética de esquerda: o seu desprezo pela forma, paralelo a uma adoração ao conteúdo.

Essa adoração se dá através de um falso pragmatismo, a ideia de que um filme deve ser acessível, passar uma mensagem, enfim, estar apto aos cine-clubes e cine-debates engajados, capacitado a explicar um ponto de forma lúdica para os leigos.

Pois bem, um filme que conta uma estória usando os mesmos recursos de 500 outros filmes não tem como passar no teste pragmático. Ele some na cabeça do espectador, incapaz de se recordar das características de uma trama que ele já viu 1000 vezes, de um personagem raso que ele já conheceu outras 1000.

Acredita-se que um filme deve ser simples e de fácil acesso para ser “útil” (à pedagogia revolucionária ou ao lucro dos produtores) e ter sucesso. É por isso que os filmes de Hollywood têm sempre um enredo claro, personagens com personalidades pasteurizadas e óbvias, com todas as cenas espelhando essa clareza, iluminando o espectador de maneira acachapante, preenchendo-o por todos os poros com informação, por vezes tautológica (quando o personagem ou narrador diz algo que a imagem já está mostrando). Esta é uma estratégia de pouco risco, e por isso são os produtores, mais que os diretores, os grandes responsáveis por ela. O filme é um investimento, dinheiro que não pode ser jogado fora.

Contudo, ela não é uma estratégia de sucesso. A história dos filmes de sucesso, em especial aqueles que perduraram no tempo e que até hoje são referência, prova isso. Que o filme seja feito de uma forma diferente não é somente um requisito abstrato para ser ratificado ou não pelos entendedores de cinema: é uma exigência da própria experiência de ver o filme, é aquilo que diz em que grau, e como, ele é um filme divertido de ser visto, de que modo essa experiência fica grudada em nossa memória afetiva. Em resumo, não basta fazer o filme certo, com a pauta correta, que exponha as ideias e os valores que nós desejamos. É tão necessário quanto – antes de qualquer coisa – que o filme seja bom. E para ser bom o filme tem antes de tudo que aparecer como “algo”. Vejamos isso.

Uma obra produzida displicentemente na mesma fôrma que criou as obras que o espectador já cansou de ver tem seus “truques formais” já previamente bem reconhecidos pela percepção do público. Tudo o que ele espera, ele recebe. Desse modo, a experiência do filme se reduz a um encantamento masturbatório, prazeroso para alguns, mas de fato facilmente descartável depois. O filme pode até ser lembrado por um tempo, mas só por ser “o filme do Marx”. O personagem Marx, o personagem Engels, suas esposas, todos vão morrer na memória do público pouco depois dos créditos passarem. Eles não têm personalidade própria, são meros corpos cinemáticos possuídos pelo velho arquétipo de personagem comum nesse tipo de gênero, o “drama histórico”.

Vou dar dois exemplos de filmes “de esquerda” para ilustrar.

“As Sufragistas” é um filme tão ruim quanto. Proponho aos leitores a triste tarefa de rever o filme, uma tarefa importante, pois nela se esmiúça com clareza o ponto aqui tratado: esses dois filmes são no fundo o mesmo. Isso pode ser comprovado sob três perspectivas: quadro a quadro, pela personalidade dos personagens e pela estrutura da trama.

A estrutura da trama não é bem a estória que é relatada, mas os seus degraus, a posição de cada um deles: depois de uma cena de alegria, vem uma de violência, depois uma de tristeza, depois uma de esperança… As cenas são assim óbvias, pois não existem por si, mas apenas para executar uma função, a de “esclarecer” as coisas e fazer a trama andar em direção ao seu desfecho.

Já “quadro a quadro” nós colocamos uma lupa sobre essa estrutura, notando que não é apenas a sucessão dos tipos de cena, mas no interior das próprias cenas, que a repetição de formas acontece. Reconhecemos de maneira mais explícita o quanto esses filmes são produzidos seguindo esse mesmo formato de produto industrial. A mesma música meio folclórica em momentos de aventura não-tensos, ou as cordas e pianos nas cenas tristes, assim como os ângulos de câmera nos diálogos, os cortes de passagem de tempo, e por aí vai. Ver e comparar os filmes, no sentido apontado, deixa tudo isso bastante claro.

As personalidades são distribuídas de acordo com a hierarquia do protagonismo. O principal é irascível, persistente, irônico (e acredita-se que isso o torna um personagem profundo, não idealizado, quando se trata do exato oposto). O braço-direito coadjuvante, amigável e um pouco mais sensato, um contraponto que deveria dar alguma tensão dramática, mas que na verdade soa como… Nada. Soa como nada. Depois vem a esposa do protagonista (clássica figura, ausente em “As Sufragistas” por razões óbvias), às vezes crianças, e os vilões, sempre sem motivação alguma para seus atos, surgem como se brotassem da pura maldade etc.

Ninguém lembra nem de longe um ser humano. A fala é sempre clara, tudo o que eles têm pra dizer deve ser bastante inteligível e ao mesmo tempo tudo o que eles dizem é mero veículo para a exposição dos detalhes da biografia do personagem. Em “O Jovem Marx” isso é patético – personagens causam a impressão de integrarem algo como Telecurso 2000, dizendo nomes de obras e fazendo referências forçadas, violentando a dramaticidade do filme (que é aquilo que nos faz gostar dele, de fato!) para passar goela abaixo uma informação. Nessas cenas, se procuramos ouvir com atenção, pode-se escutar os lápis dos alunos de ensino médio rabiscando no caderno, se preparando para a prova.

“Eu, Daniel Blake” vai na direção oposta, pois se trata de um filme interessado em contar uma estória de maneira a nos fazer participar dela, envolvidos empaticamente com a trama, os personagens, e com cada instante (quadro a quadro) das cenas, de um modo que não notamos explicitamente: nós sentimos (aquilo que julgamos o inexplicável do gosto e que em boa parte se trata simplesmente da qualidade de artífice do diretor). É muito mais do que um grande filme: é, sobretudo, um filme de verdade.

A comparação direta dos quadros e cenas deste filme com os de Marx ou das sufragistas pode esclarecer bem melhor que estas letras pretas sobre fundo branco. Ken Loach deixa o olhar do espectador descobrir os objetos nos cenários, reduzindo os cortes à necessidade; os atores por vezes são enquadrados juntos, respondendo simultaneamente a atuação um do outro, que é contida, não usando frases de efeito, com a voz às vezes falha, às vezes crescente, estando, por fim, viva.

O que Loach fez em “Eu, Daniel Blake” não é uma fórmula para o bom filme. A questão é que não existe essa fórmula porque o bom filme se trata de algo que rasga a capa de indiferença das obras da fórmula, trazendo algo novo, não porque o novo é por si bom, mas porque é ele que atrai o olhar, que faz da experiência do filme algo que perdure na memória do espectador. Além disso, a forma nova sempre nasce de uma época diferente e por isso responde as características específicas do público que nessa época vive. A forma recorrente, no entanto, sempre retira o público de seu presente e o transporta para um outro lugar, sem relação com seu mundo e consigo mesmo.

Daqui a anos o teste do tempo vai nos dizer se o filme de Loach ou “O Jovem Marx” e “As Sufragistas” serão lembrados. Porém, agora mesmo já é possível notar os efeitos que os filmes causam na memória afetiva. O leitor que viu Daniel Blake lutar por seus direitos pode compará-lo ao Marx do filme – e, em seguida, descrever ambos para notar que não se trata de duas pessoas diferentes, mas sim de uma pessoa comparada a um manequim de vitrine.

(Há uma história do cinema marxista, desde os não-atores de Eisenstein até o cinema de Loach, que começou nos anos 60, passando pelo neorrealismo e pelo cinema novo. Há uma outra linha, mais experimental, talvez mais ligada a Vertov e Brecht, mas também devedora de Eisenstein, onde se encontram Godard, Alexander Kluge, Glauber Rocha nos anos 70 e por aí vai. “O Jovem Marx”, no entanto, está ligado a outra linha, onde se encaixam os filmes do realismo soviético da URSS e, nos EUA, o cinema social de Frank Capra. O grande predecessor do filme, contudo, é “Reds”, de Warren Beatty, Oscar de melhor diretor em 1982. Trata-se de um filme onde a História é apenas o pano de fundo para as picuinhas de um indivíduo por quem nós somos forçados a sentir empatia).

(Em resumo, “O Jovem Marx” é um filme sobre Marx, mas nem de longe um filme marxista).

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