Precisamos falar sobre os reptilianos

Por João G. Paiva.

Todos nós conhecemos a figura do grande vilão secreto que se repete em filmes, video-games ou séries de TV. O grande vilão secreto é o chefe por detrás de todas as hostilidades numa trama de heróis. Por exemplo, sombras se projetam na parede enquanto a voz metálica atende o telefone e designa ordens malignas contra heróis da trama. Quem será o grande vilão secreto? Pode ser um megaempresário, demônio, alienígena, pode ser o próprio herói, seu irmão gêmeo, a mãe ou o pai (adotivos) do herói, pode ser uma versão do herói vinda do futuro, um clone do herói, pode ser alguém que apareceu tortamente no final da trama sem maiores explicações. O certo é que nessas tramas baseadas no plot twist – frequentemente thrillers de ação –, existe um enigma central: um segredo cuja revelação funciona como chave-mestra para todos os acontecimentos inexplicados da trama. Enredos constituídos dessa forma são muito comuns no audiovisual contemporâneo. É o final de Lost. A identidade de A Testemunha em 12 macacos. É a ideia do quebra-cabeça e da revelação esclarecedora – deve existir um nome técnico em inglês para isso nos manuais de roteiristas de TV. Ao alcançarmos tal revelação (geralmente nos últimos episódios) o toque da razão irrompe como acontecimento nuclear tornando logicamente compreensível toda cadeia de fatos que empurrou nossos heróis até ali. É a chave-mestra capaz de abrir a verdade. Estrutura semelhante pode ser encontrada nos video-games e em outros produtos da indústria de entretenimento. Em tais enredos, portanto, a noção de verdade reside num enigma solucionável. Importante, para nós, é ter em mente que a verdade aí é racional e apreensível, mesmo quando paradoxo.

Certa vez li na internet um sujeito explicar porque nunca estudaria Ciências Sociais na universidade: “Entrar na universidade serve apenas para receber ideologias, estudo por contra própria – o que importa hoje é informação rápida e útil”. O imaginário do vilão secreto está internalizado na cultura que produziu esse discurso. A ideia de que “tendo a informação certa” (a identidade do vilão etc.) você terá acesso ao privilégio da verdade. O esquematismo das tramas na indústria do entretenimento, que imita uma estrutura de verdade racional vinda do século XVIII, tomou conta do imaginário de hoje. Esse imaginário é uma espécie de triunfo da ideologia “não-ideológica”, pois transforma as demais mediações com a realidade em “ideologias”. Para nós o que interessa é saber que tal mecanismo foi transposto para o campo das ideologias explicitamente políticas.

O discurso anti-sistema que tem aparecido na direita é um discurso que pressupõe a ruína moral e política do sistema vigente e justifica essa ruína com base numa trama de “verdades x mentiras”, típica da gramática da informação. Isto é, a origem dos problemas fica reservada à superfície do problema. Ninguém pergunta por que razão um político se corrompe, a pergunta em relação às causas se converte em pergunta sobre fatos e informações específicas, geralmente geradora de hipostasias, teorias conspiratórias etc. Uma teoria conspiratória que serve de exemplo é a dos reptilianos. Segundo essa teoria os problemas do mundo têm como causa o fato de sermos governados por reptilianos secretos (1). Eles são os verdadeiros governantes do planeta Terra. Procurando videos sobre reptilianos no youtube você encontrará diversas demonstrações e aparições de Barak Obama e Elizabeth II como reptilianos. Seguindo tal estrutura lógica, através da revelação conspiratória de que “na verdade” somos governados por reptilianos, podemos acessar a verdade de fundo sobre as razões da miséria no planeta. É a mesma estrutura dos thrillers a que nos referimos. A verdade social se reduz e se ajusta ao esquema de enredo saturado pela indústria do entretenimento. Naturalmente, não foi a indústria cultural a gênese desse modelo de raciocínio. Ele nos remete a razões pré-modernas. Isso pouco importa. Nos interessa pensar como a estrutura desses filmes, video-games e séries de TV – geralmente os produtos culturais consumidos pelos reprodutores das ideologias de direita anti-sistema – interage com as ideologias políticas. Assim, começamos a entender a centralidade que as fakenews tomaram no debate atual.

A tensão anti-sistema que pesa densamente sobre todas as instituições tradicionais da informação agora se irradia pelas redes de fakenews. No pensamento anti-sistema encontramos o pressuposto de que a mídia compõe as bases do sistema: portanto é interessada na sua manuntenção. Assim, o sentimento de enfrentamento e “procura da verdade” que leva hordas de jovens norte-americanos a acreditarem na teoria dos reptilianos, por exemplo, rapidamente autoriza as redes de fakenews a trabalharem e crescerem, desde que posicionadas no campo do anti-sistema. Chegamos, agora, no momento do colapso da imprensa tradicional: a irradiação de fakenews tomou proporções tais que podemos encontrar a informação desejada (ansiada, adequada às nossas fantasias) desde que sigamos a página certa.

As informações, expandidas pela ficcionalização irrestrita, ganham a multiplicidade disponível das mercadorias, tornando possível, hoje, que cada um consuma informações consonantes com a estrutura lógica da fantasia mental criada (seja de que somos governados por reptilianos ou de que Lula fugiu da prisão e está indo reencontrar Dona Marisa na Etiopia, seja em relação à ideias científicas – terraplanismo – etc.). A possibilidade de invenção irrestrita de informações, desvinculadas de qualquer teor de realidade, confere ao sujeito a possibilidade de confirmar suas suposições com a materialidade (fantasmática) de uma notícia de internet. A informação é destituída de ideia, ela vem a reboque das ideias.

O incorreto é procurarmos a gênese dessa leitura de mundo com base na lógica dos objetos culturais consumidos ou do regime simplificado de religiosidade ou na certidão econômica, simplesmente. É uma gramática nascida de um determinado modo de vida e abrangente em relação à diversas esferas da existência. O impulso pela posição “anti-sistema”  é um conjunto de nexos socio-culturais que não aparece nitidamente para nossos olhos de hoje. Mas podemos arriscar e inferir que o impulso desse posicionamento “anti-sistema” em se colar às ideologias de direita diz bastante sobre o capitalismo renovado pela queda do muro de Berlim e da URSS.

Por fim, voltemos nossas atenções aos candidatos de extrema-direita cotados para representar (com popularidade) os defensores das fakenews. Todos possuem em comum o fato de parecerem “francos” e “destemidos” em relação ao sistema. Ainda quando essa imagem foi explicitamente produzida – geralmente com pressa. A jornalista Eliane Brum criou a ideia de “autoverdade” para justificar o argumento desses eleitores: despreocupados com o conteúdo das falas de seu candidato, são movidos pela impressão de que ele é “transparente” e “diz o que pensa”, dando a entender, no interior de suas intuições mentais sobre o sistema, que uma pessoa capaz de dizer o que pensa, alcançando o poder, implodirá o conjunto do sistema. A sua forma de comunicação é autoimune aos seus conteúdos. E assim, afinal, se o sistema se apoia inteiramente no ocultamento da verdade e na circulação da mentira, com suporte da imprensa, esse candidato “transparente” e “corajoso” ameaçará todas os alicerces do status quo. Ele é a chave mestra capaz de causar a disjunção no sistema com ajuda da verdade.

É por isso que o novo eleitor de direita “anti-sistema” está mais preocupado com a verdade do que a paixão pelas fakenews parece sugerir. A origem dessa crise com a mídia tradicional se fundamenta em algo verídico: sim, a imprensa tradicional serve à manutenção do sistema. Sim, essa imprensa nunca assumiu sua parcialidade intrínseca. Por isso, para esse eleitor a noção de “verdade” é tão central que ele prefere uma multiplicidade de versões alucinatórias do que a “verdade imparcial” da imprensa pró-sistema. Mas a questão de fundo na política: a justiça social, a liberdade, a igualdade etc., não cabe no conceito de verdade que esse eleitor tomou para si. A verdade política não tem segredo, muito menos é secreta. É por isso que nossa luta não deve se restringir a criar fakenews alternativas ou simplesmente rede de caças às fakenews adversárias. Nossas elaborações sobre o sistema possuem uma história. Não começamos a denunciar ontem as ruínas do sistema. Estamos há mais tempo aqui (lutando contra os reptilianos).

(1) De acordo com o teórico da conspiração britânico David Icke, os humanoides reptilianos são altos, bebem sangue e mudam a forma, além de serem do sistema estelar α Draconis, agora escondidos em bases subterrâneas, são a força por trás de uma conspiração mundial contra a humanidade. Ele afirma que a maioria dos líderes do mundo estão relacionados a esses reptilianos, incluindo George W. Bush, ex-presidente dos Estados Unidos e a rainha Elizabeth II do Reino Unido. As teorias de conspiração de Icke têm apoiadores em até 47 países etc. Outro teórico da conspiração famoso é Alex Jones, também cheio de videos no youtube sobre reptilianos. Jones auxiliou na campanha de Donaldo Trump para presidente. Ver também Adam Curtis – temos uma coluna sobre ele.