True Detective: uma série edipiana sobre ser homem

Por Filipe Völz.

Em suas três temporadas, True Detective é uma série com um objetivo fixo, a investigação do significado do masculino na sociedade através de um método edipiano (onde o investigador aos poucos descobre que investiga a si mesmo, ou nos termos da Fenomenologia do Espírito de Hegel, onde o sujeito descobre que o objeto externo era na verdade ele mesmo e não um outro).

O conteúdo da série é o Masculino. A forma como esse conteúdo é apresentado e explorado é a estrutura narrativa do Édipo Rei de Sófocles.

A série explora o tema por três eixos: a violência, o trabalho e o sexo oposto. Esses são os três símbolos que compõe a divina trindade da masculinidade. A interconexão dos três e os movimentos da relação entre eles, se pudessem ser fotografados de modo a que pudêssemos ver em uma imagem (como a imagem dialética de Walter Benjamin) este movimento, revelariam um quarto símbolo, que não pode ser tão bem definido como os outros, mas que aqui vou chamar de “introspecção masculina”.

A série é sobre isso, sobre o fato de que a noção geral de “masculino” possui uma característica central que é o bloqueio às emoções: homens não podem expressá-las diretamente (com exceção da raiva), devem racionalizar e encontrar causas e explicações que possibilitem controle sobre elas, devem focar em um grande projeto que permita redimir todo o erro de uma existência emocionalmente atrofiada, devem construir coisas e perdurar no tempo, competir entre si, exercer superioridade sobre outros gêneros, etc.

A violência é o background, o que surge como causa da introspecção e ao mesmo tempo como sua justificativa: porque o mundo é ruim e violento, o homem deve ser o Leviatã de si mesmo. É ela que dá luz ao homem, nos ritos de iniciação que modelam aquele corpo sem gênero da criança em um corpo social que usa azul, não rosa.

O trabalho é o presente, é a rotina, aquilo que dia após dia nos permite subir nos degraus do grande projeto, vislumbrar a eternidade na realização histórica (a construção de monumentos à introspecção, os frutos do trabalho), uma auto-hipnose causada pela constância do ritmo das tarefas impostas pela violência e pela finalidade futura.

Esta última é ligada ao sexo oposto, o “segundo sexo” de Beauvoir, que sob a perspectiva masculina é oposto no sentido de um encaixe perfeito, a peça solta que possui um imã bem no lugar onde guarda um vazio, esperando ser preenchido pelo homem.

São, então, três linhas temporais diferentes, como na série. Por causa da violência, há o trabalho, por causa do trabalho, há o sexo oposto. E, é claro, por causa do sexo oposto há a violência.

Édipo é sobre isso. A violência: o parricídio inconsciente que acontece por motivos completamente estúpidos e aparentemente sem nenhum sentido maior. O trabalho: a investigação criminal em Tebas. O sexo oposto: a revelação do incesto, que leva de volta à violência, dessa vez contra si mesmo, na perfuração dos próprios olhos. Dramas modernos, como Macbeth, possuem uma estrutura semelhante.

True Detective começa com a ideia de ser uma meta-série policial, com a tarefa de investigar, de modo implícito a sua trama fictícia, o significado do gênero Policial, sobretudo no cinema e televisão. Porém, aos poucos ela vai mais e mais fundo no gênero, até chegar ao seu coração, o gênero masculino, e assim passa a buscar o que significa ser um homem no ocidente. Nas cidades do interior do primeiro mundo – não nas capitais – é onde se pode encontrar uma expressão mais clara desse objeto que se procura, o homem, exatamente por serem lugares onde o conservadorismo preserva essa figura simbólica de forma mais pura, em estado bruto.

Todos os personagens principais são machões violentos e silenciosos, totalmente incapazes de falar abertamente sobre qualquer emoção. É sempre um assunto espinhoso, que os debates bélicos com o sexo oposto trazem à tona e a violência coloca pra debaixo do tapete. Já o trabalho, dos três elementos que compõe o movimento de introspecção masculina, é o único eixo simbólico que muda, é o palco da transformação (que nunca acontece, já que estamos presos em um ciclo). Através da sua obra no mundo, o masculino investiga a si mesmo e consegue vislumbrar, cada vez mais, que está preso em um ciclo.

Contudo, no final a harmonia artificial com o sexo oposto sempre nos traz de volta à violência, que se torna mais forte quanto mais o trabalho nos aproxima da auto-consciência. No fim, a explosão de violência é tão intensa que todo o trabalho é destruído, a memória é apagada, o passado reescrito e voltamos à estaca zero.

Na série, o crime surge sempre como violência sem sentido, por isso atrai, a partir desse mistério que instaura. Todos queremos saber o que aconteceu, qual é o sentido por detrás, qual é a explicação, qual é a causa. A violência surge como um chamado à racionalização do mundo.

O trabalho é a construção do grande projeto, que a princípio é a racionalização do mundo. A realização do mistério no seu oposto: a descoberta. E, o mais importante, a redenção, que é a punição dos pecados e a restituição das vítimas.

A onipresença do trabalho e a dureza da violência geram a necessidade de um complemento, que é feito posteriormente – com a costela masculina. Assim surgem as mulheres na trama policial, apêndices do homem, peças que foram desencaixadas e que produzem o desejo de restituição. São também a válvula de escapa do roteiro, personagens que permitem à série explorar diretamente (de forma muito mais sofisticada que as cenas de violência ou as cenas de trabalho investigativo) o cerne de tudo, o que está por trás da própria série, aquilo que ela no fundo quer dizer, mas não pode, por ser uma série vendida ao público masculino, que precisa de sangue e da irmandade e companheirismo masculino do trabalho para ser comercializada.

Por isso que as cenas com mulheres, onde longos debates torturam o espectador num tour de force que não parece ter vínculo com tudo que realmente queremos ver – a violência e o trabalho entre meninos –, sempre parece um tanto deslocadas, despropositadas e até irritantes. Por isso os personagens femininos (com exceção da policial de Rachel McAdams, que não é coadjuvante) são sempre um pouco irritantes, um pouco histéricos demais, atrapalhando o trabalho de racionalização do mundo, irritando o homem ao tirá-lo da sua missão.

A verdade da série, porém, é bem o oposto disso. Nos debates matrimoniais, nas discussões pós ou pré coito, nos esporádicos momentos de romance meloso, quando os machões parecem quase dispostos a se ajoelhar, chorar, pedir desculpas ou trocar de posições na cama, é que se encontra o final da série, já exibido desde o primeiro episódio; o mistério já desvendado.

Quando True Detective termina, os culpados nunca são de fato pegos, a mensagem final instaura um tom de incompletude total, que na primeira temporada encantou e na segunda talvez tenha incomodado alguns. É uma série que “não cumpre o que promete”. O que às vezes funciona comercialmente e às vezes não.

A explicação óbvia pra isso é que a série aponta para uma conspiração, que é uma analogia mirabolante para significar o caráter estrutural do crime. Não se trata de um malvado aqui e outro ali, mas de uma rede de malvados. É assim que se apresenta a incompletude do final das temporadas de True Detective.

Porém, esse caráter estrutural é mais profundo do que a mera conspiração política. Ela está assentada sobre uma outra conspiração, simbólica. O crime é a introspecção masculina, a atrofia sentimental, a incapacidade de vocalizar de forma natural, espontânea, direta, como quando éramos crianças, os nossos sentimentos. É a verdade de que toda uma área da existência humana está vedada a nós, uma área em que os outros gêneros podem circular (e por isso os odiamos tanto e tão intensamente, talvez). E é também, claro, a culpa.

A série não apresenta isto como um documentário, ela faz com que nós acompanhemos o trabalho e a sua asfixiante insuficiência, o beco sem saída em que ela nos leva. É uma reprodução da experiência de possuir este sexo, neste mundo, não uma tese sobre isso. Mas, exatamente por não apresentar tese, ela permanece como apenas uma série policial. E retorna, no fim, para a violência, cumprindo seu ciclo.