O chorume do twitter. Sobre o final de Game of Thrones .

Por João G. Paiva.

Eu não tenho twitter. Mas o chorume do twitter chegou até mim. Milhões de fãs inflamados de decepção (e de lágrimas indignadas) pelo desfecho da série Game of Thrones na hashtag #GameOfThrones. O argumento mais recorrente que pude analisar nos memes é de que os novos roteiristas (emancipados dos livros) teriam estragado a série. O final coroou o estrago e uma maravilhosa série foi arruinada, dizia o twitter. Qual o problema do final? Antes precisamos pensar nas bases e no desenvolvimento do enredo.

É certo que Game of Thrones recrutou seu exército de fãs a partir de um tipo de desenvolvimento da narrativa que soube distribuir seus núcleos (o Norte, o além-da-muralha, king’s landing, Essos) como universos próprios e, ao mesmo tempo, com uma promessa de cruzamento futuro entre esses núcleos. A sua trama anunciava que um dia os mortos chegariam na muralha. Um dia Daenerys atravessaria o mar até Westeros. Mais forte ainda: um dia os dragões da Dany se encontrariam com o gelo dos mortos do Rei da Noite. Enquanto isso o crescimento do exército dos mortos provocava noturnos arrepios (“O que vai ser do mundo quando eles chegarem na muralha?”). As pessoas passaram anos empolgadas com o crescimento dos dragõezinhos, temporada a temporada. O que o trono de ferro vai fazer quando Daenerys atravessar o mar? A verdade é que a força de Game of Thrones sempre esteve ligada à expectativa gerada por esse desenvolvimento.

Todo o vigor da série sempre esteve na sua enorme capacidade de produzir expectativas e continuar alimentando-as exponencialmente. Quando você assistia um episódio, não estava simplesmente assistindo aquele episódio, mas sentia também toda a força dos encontros por vir, do futuro anunciado ali naqueles arcos certamente bem longos: a série soube tensionar cada arco antes do Desfecho. Um movimento do Rei da Noite ou de um dragão em Essos fazia arquear toda a estrutura da  trama em conjunto, já que eles possivelmente se encontrariam antes do fim. O poder de excitar tantos núcleos ao mesmo tempo não é simples de manipular e manter aceso. Esse poder faz parte do sucesso da série.

Lembro de um meme do twitter que dizia algo como: “Eu fiquei adiando gozar esse tempo todo e foi só para isso?”. Nada mais sincero do que esse meme, incapaz de compreender que o seu gozo imaginado seria impossível. Os motores da trama estavam todos na dianteira (como, aliás, é o mais comum na indústria do entretenimento), a urgência em assistir um episódio estava no quanto ele conseguia prometer um desdobramento impressionante no futuro. O verdadeiro reino da trama era o imaginário dos fãs, navegando sobre as especulações do que viria a acontecer. Bem mais do que isso, na verdade. As especulações ainda eram pouco em comparação ao sentimento difuso de medo, curiosidade e empatia pelo destino dos heróis, móveis como placas tectônicas. É assim que o roteiro começou a conquistar uma certa originalidade no quadro da indústria. Ele começou a matar os seus heróis. Ele sabia da expectativa que havia conseguido construir no espectador e esse poder era revertido nessas mortes, aprendendo a sacrificar alguns heróis ao Deus Assista-o-Próximo-Episódio, para que a intensidade da trama não se perdesse. Também permitia que os espectadores se entediassem menos com eles, na medida em que a sobrevivência deles não era garantida pela “carteirinha de herói” tradicional. A vida dos personagens era mais intensa, dado que poderia acabar a qualquer momento.

O problema é que depois de algumas temporadas isso ficou previsto e o tédio com as mortes começou a surgir. Os bolões sobre a identidade do próximo personagem a ser assassinado tornavam a própria ideia da morte uma coisa diluída. Morrer perdeu tanto a importância que, na última temporada, nenhuma morte poderia ter qualquer força se comparada às mortes do início. Tudo, na verdade, se diluiu, como era fatal que ocorresse. E então, assistir, finalmente, o Esperado (a Grande Batalha, o Encontro dos mortos com os vivos etc.) tornou-se protocolar. Esse é um defeito da forma específica da indústria do entretenimento, que possui uma estrutura de mercadoria ̶ é sempre mais importante desejar uma mercadoria do que possuí-la. Nesse sentido o final não foi ruim, mas apenas o desfecho da sua própria forma.

Sabemos que grande parte da revolta dos fãs (o “chorume do twitter”) foi impulsionado no episódio em que a heroína Daenerys cometeu o genocídio, traindo a sua trajetória de rainha libertadora. Um dos argumentos de maior predominância foi a suposta “incoerência” da personagem, estragada pelos novos roteiristas. Essa crítica é reveladora da inteligência estética predominante: a ideia um tanto adolescente de que os personagens não podem se desenvolver. Os personagens precisam ser adolescentes, como o principal público da série, estratificados em um esteriótipo. Nada mais distante de uma verdadeira narrativa. A natureza do personagem pode se desenvolver e pode trair a si mesma. Uma limitação importante da forma “séries de tv” é que a trama só conhece a trama, ela só se desdobra objetivamente em ações (alguém faz algo, viaja, morre, mata, é traído). Estilo que também podemos chamar de “intriga”. Naturalmente, narrar é algo que vai muito além da intriga, só que isso cabe muito pouco na forma “série de tv”. Assim, a dívida impossível (o gozo impossível) de Game of Thrones, foi prometer, com sua rede bem articulada de intrigas, ao longo de anos, um desfecho através da intriga e à altura da promessa. Não seria possível.

Para além da fatal frustração estética, no entanto, o final da série funciona como sintoma político de nosso tempo, na medida em que os roteiristas teriam de fazer uma escolha política para o problema dos reinos.

O genocídio da Daenerys e o desdobramento da personagem foi um episódio importante e revelador. Ele foi importante porque conseguiu superar a previsibilidade (o tédio) das mortes individuais, com a destruição de toda uma cidade pelas mãos de uma protagonista, foi um salto que recuperou o “estatuto da surpresa”. Certamente a “virada” da Daenerys estava entre as fortes teorias disponíveis, mas a imagem de destruição impetuosa dos inocentes registrou uma força que outros plots não alcançavam mais. Nessas imagens os diretores decidiram cortar a empatia com a protagonista: as cenas de destruição eram vistas pela ótica dos cidadãos desesperados, de baixo para cima, enquanto o dragão incendiava tudo, como o próprio Mal nos enredos de fantasia: uma força inexorável. Esse plot que permitiu transformar a empática heroína, germinada anos a fio nos sonhos e no afeto dos espectadores, em uma força inexorável de destruição  ̶  tal qual os próprios White Walkers foram por longo tempo  ̶  embaraçou um determinado conjunto de sentidos morais que a trama tinha elaborado. O mal-estar causado pela virada da Daenerys revelou que o fundo moral da série era meio oco, na medida em que ele representou, exemplarmente, a ruína de uma moralidade muito reiterada (nas cenas e discursos libertários da heroína), igualando a destruição gratuita causada pelos Walkers à destruição gratuita da libertadora de escravos. Quantas vezes os fãs não imaginaram a capital king’s landing devastada pela cegueira destrutiva dos zumbis? Afinal, quem cumpriu esse papel, em idêntico papel, foi a heroína.

Podemos dizer que a força dessa imagem é simplesmente uma representação estética do niilismo, pois enquanto a cidade era incendiada e o genocídio se expandia, ocorria uma suspensão de sentido, uma sensação de desorientação de sentidos: de desvalorização de qualquer valor previamente dado. Esse fundo niilista da série pode ter sido fomentado pelos novos roteiristas (não sabemos se essa virada foi sugestão de R. R. Martin), mas a sua possibilidade é reveladora sobre como, no fundo, a prática do autor em matar ou esfolar seus heróis, se apresentava como um prenúncio desse mesmo niilismo que assombrava a trama. O fato é que o último episódio decidiu reverter todo niilismo ao recuperar a autoridade dos grandes valores. O final triunfante para os Stark é um final triunfante para os valores tradicionais: o leal e o verdadeiro. Tais são as características da casa Stark e ela deu a última palavra na série, reintegrando a fábula tradicional.

O desfecho, assim, permitiu reconciliar os espíritos perturbados pelo niilismo cru do penúltimo episódio. E nisso eu posso dar razão ao chorume do twitter: a série não soube realizar um desfecho consequente após ter ensaiado a perda completa de sentido de todas os valores. Ela escolheu um caminho fácil e improvisado ao tornar Bran o Rei dos Tronos, permitindo uma reconciliação apaziguadora. Ao invés de assumir seu niilismo ou de avançar um passo além do niilismo (isto é, criar novos valores a partir da ruína dos velhos), os roteiristas miraram no justo e o tiro pegou de raspão, pois a série compreendeu que não seria mais possível o bom herói John Snow alcançar o trono. Seria justo demais e não estamos mais na década de O Senhor dos Anéis. Somos muito mais cínicos do que isso. Ao mesmo tempo a decisão pelo final conservador percebeu que Bran estava ali, logo a alguns passos de John Snow, dividindo com ele alguma de suas características (sendo a principal o “não quero ser rei”). A escolha foi improvisada e desengonçada. Mas John Snow seria uma melhor solução? Cersei? Sansa? A verdade é que nenhum ocupante do trono seria satisfatório ou menos improvisado no interior de uma expectativa produzida em lances tão altos. Apenas Cersei e Daenerys não seriam rainhas de improviso. Cersei como um clichê da vilã de novela que soçobra e triunfa. Daenerys como a escolha amarga de aprovação moral do genocídio por parte dos autores. Entre essas alternativas, optou-se pelo improviso conservador. O trono foi ocupado por Bran Stark na tentativa de um final conciliatório, um final onde o bem prevalece. Mas, assim como a eleição de Macron na França, esse final apaziguador não acalmou os fãs. Pelo contrário, ele nutriu ainda mais a revolta dos memes no twitter.

Interessante foi a última cena: John Snow caminhando para além-da-muralha com o Povo Livre e talvez alguns integrantes da Patrulha da Noite, os únicos grupos de organização democrática. Foi uma sugestão de futuro: a democracia. Democracia = a destruição da roda do poder naquele contexto. Foi a escolha de John, herdeiro autêntico do trono. Mas a democracia ainda virá a hibernar sob longo inverno histórico nas geleiras do norte-norte. Os autores preferiram reservar a ela esse destino político de exílio. Tudo o que pudemos assistir foram suas pisadas lentas de cavalo rumo ao interior das árvores geladas.