Para entender Jocker

Por Filipe Völz.

Para entender Jocker, precisamos fazer o que o filme manda, ou seja, interpretá-lo pelo ponto de vista da política e do presente. As semelhanças com Taxi Driver, referidas pelo diretor na escalação de Robert De Niro para o filme, são muitas, mas é a época a principal e a mais significativa dessas proximidades. No caso de Joker, é uma época passada, mas que está referida ao presente. Também se vive, hoje, na América e em boa parte do mundo (incluindo o Brasil), um momento de crise do capitalismo, assim como na década de 1970.

O Estado de Bem-Estar tem por única função “lubrificar” a ação intrusiva e violenta do estado nos corpos dóceis que todos nós somos, tornando uma experiência, se não agradável, ao menos suportável, a vida sob o domínio de oligarquias. No nosso momento, que é a década de 1970 de Taxi Driver, referida em Joker, essa função está comprometida, por conta da própria estrutura do nosso sistema, que vive de suas crises cíclicas, provocadas pela sua essência desigual.

É impossível, sob qualquer aspecto, conciliar o lucro do patrão (que não consiste na conservação estacionada de bens, mas no movimento contínuo e progressivo do acúmulo, consumindo todo o mundo ao redor) e o “bem-estar social”, quer dizer, a dignidade e até a sobrevivência dos hoje chamados “99%”. Esta verdade indesviável, a qual, no entanto, esquerda e direita institucionais rotineiramente simulam a inexistência, ressurge nos períodos de crise acentuada do capital. No nosso caso, o dilúvio de 2008.

Se observamos Joker por um viés psicológico, parece apenas a estória de um incel terrorista, típico dos nossos tempos. Contudo, sob perspectiva histórica e política, Joker é sobre um tempo de crise em que se desmascara o princípio de desigualdade que rege a nossa sociedade. E assim, ricos e pobres se encontram em estado de tensão, como que prestes a entrar em conflito. Vêm à luz do dia aquilo que fingiamos não ver. A sujeira pula para fora do tapete, o Elefante na sala se torna arredio e incontornável. No plano das ideias, emerge o fascismo, com seu ódio às minorias, e movimentos extremos, polarizações, palavras de ordem, etc. Mas no plano da matéria, que é o lugar onde se mora, o dinheiro que se ganha, as condições em que se vive, a luta é entre classes, não entre ideias (a luta de ideias é como que a vibração da matéria em movimento).

O Coringa é caos do ponto de vista do pensamento, mas, do ponto de vista da matéria, ele é ordem. Ele não defende discurso, ele não postula novos mundos possíveis, ele não milita, ele não age por nenhuma força interna que possa ser mensurada. No entanto há uma força interna. A questão é que essa força não adentra o terreno do discurso, mas vigora em um estado de permanência hermética, repetindo-se, como se fosse uma força da natureza. Essa força é a luta de classes. Essa força vem de uma realidade muito além da psique de um Arthur Fleck. Ela é a expressão material da crise. A matéria é o fato de que existem ricos e existem pobres, a matéria apenas nos informa, repetidamente, que existe um desiquilibro natural, que existe uma relação de parasitismo, que jogamos a nossa vida no lixo, trabalhando 8h por dia (ou mais), 5 dias por semana (ou mais), 11 meses no ano (ou mais), não para nos realizar, mas meramente para sobreviver, e paralelamente, ao mesmo tempo, permitir a realização pessoal de outros, que são exatamente aqueles engajados em manter esse estado de coisas.

A matéria não fala, ela simplesmente subsiste, simplesmente é, e apenas repete o seu ser sempre que olhamos para ela. Não tem discurso, não tem opinião. O Coringa parece louco, nonsense, mas é apenas um resultado dessa crise material que não pode ser expressa pois não se adequa à linguagem produzida por um sistema que se estrutura única e exclusivamente para o mascaramento das condições materiais da sociedade, ou seja, um sistema que foi concebido para não expressar a materialidade das nossas relações sociais (por si mesma desigual); ela aponta para a sua superação, para um novo estado de coisas, para o qual ainda não possuímos linguagem.

Esse novo estado, visto do presente, só pode possuir a forma do delírio. Porém, esse é um delírio que surge de uma maneira lógica: se as condições são desiguais (Capitalismo), mas entendemos que nenhum ser humano é superior ao outro (Democracia), a igualdade se impõe com força de necessidade. O Coringa delira nesse exato sentido, o de efetuar mentalmente um ajuste na materialidade da vida e do mundo ao seu redor, aparando as arestas, dando uma “arte-final”, criando harmonia onde não tem. Achamos que ele faz isso para se auto beneficiar, mas na verdade a sua satisfação pessoal é efeito, e não causa, da harmonização do mundo. Não é para ser feliz que o Coringa cria um mundo perfeito, uma utopia pessoal; é por criar essa utopia que ele encontra satisfação. E a criação da utopia surge como um ajuste necessário na desigualdade material.

Qual é a forma do delírio do Coringa? Ele monta as peças de um quebra-cabeça, ele apara as arestas da realidade, une a protuberância e seu oposto simétrico, a cavidade. É o tipo de satisfação que as crianças têm abrindo e fechando tampas, colocando e tirando objetos de recipientes. Uma mulher bonita o cumprimenta, ele une as peças: são namorados agora. Surge a hipótese de seu pai ser o bilionário Wayne: são pai e filho agora. Ele é violentamente agredido; violentamente agride de volta. Não há caos no Coringa, mas um excesso de ordem.

Nada disso, no entanto, pode ser compreendido de fato se cismamos em entender o filme sob um ponto de vista psicológico, isto é, literalmente do ponto de vista de Arthur Fleck, do Coringa. E o filme nos dá repetidas pistas de que devemos interpretá-lo sob a perspectiva da coletividade. Por exemplo, a massa agressiva se mascara toda de palhaço, num estilo V de Vingança/Anonymus, Além disso, quase todos os personagens tem uma vida difícil e de insatisfação, como a de Fleck: a mãe, que delira de forma parecida com o filho, harmonizando a realidade; a pseudo-namorada, mãe solteira em uma das piores épocas para se ser mãe solteira; os outros palhaços, todos freaks desajustados; as crianças delinquentes que o atacam no começo do filme; a mulher assediada no metrô; o anão que não consegue abrir a porta; as crianças em estado terminal no hospital; o comerciante dono da placa quebrada, apenas mencionado, que está indo à falência; por fim, a assistente social que vocaliza a quase universalidade da situação existencial vivida por Fleck (ao dizer algo como: “eles não ligam para nós”).

Fica evidente que todos os personagens, com a exceção simbólica dos ricos, como De Niro e os Wayne, estão na mesma situação que o Coringa (apenas em níveis menos radicalizados). O filme não é sobre ele, o incel bobo que surta quando cortam sua medicação – essa seria uma trama no mínimo medíocre.

A própria forma do filme corrobora com isso, mesclando a cidade e o corpo do Coringa. Ele está fundido à cidade de Gotham (Nova York), a fotografia nos faz percebê-lo dessa maneira, com a cabeça apoiado melancolicamente no vidro do ônibus. E o final do filme, com a cidade tomada de palhaços, de coringas, termina com qualquer dúvida quanto à chave interpretativa que o próprio filme propõe. Wayne chama a todos os cidadãos de palhaços; Fleck assassina três playboys estilo Partido Novo; Pai e Filho engendram o  Espírito Santo, que toma as ruas, levando o reino de deus ao reino dos homens, indicando que para mudar um homem é necessário mudar um mundo, e para salvar a si, é necessário salvar o mundo. A história de Fleck não é sua, mas de Gotham. Ele é um particular que espelha em si o universal.

Se diria que o filme possui uma visão pessimista, mas não tem nenhum pessimismo aí. É uma fotografia de um tempo. Um tempo que já passou e que também é o nosso (a década de 1970 e de 2010 ou este presente de crise e o nosso futuro próximo). O filme não apresenta soluções políticas – mas nós, aqui no mundo real, temos essas soluções? Vivemos exatamente o momento em que estamos empacados na história, presos às formas institucionalizadas de “resistência” (“reformência” seria um termo melhor). O filme apresenta esse tempo de crise: não mais do momento de emergência da crise em si, mas no seu estágio avançado, em que já aponta para um horizonte novo, ainda não claro.

É também o momento em que o fascismo nos amedronta mais. Entretanto é também um momento de uma sagrada exaustão, no qual o medo já não é capaz de nos fazer apelar às velhas formas de “reformência”, pois elas perderam sua segurança. Não tem mais pra onde correr. Isso nos assusta. Estamos expostos e podemos perder o pouco que temos a qualquer momento. Olhamos para trás e os políticos em quem buscávamos abrigo na esquerda não nos parecem mais fortes do que nós mesmos. Eles também não sabem o que fazer e atuam num circo patético, todo dia postando uma pequena vitória diferente nas redes sociais, ou se limitam a apontar pro fascismo e falar obviedades.

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No Tarô o Coringa seria o Louco, a carta zero, talvez. É a carta que mais expressa a abertura para possibilidades. É o antes-do-começo, o impulso para o começo, o zero que vem antes do 1, do eu, do ego, do indivíduo isolado. Todo um mundo está em potência, e apenas em potência, no Louco. Segundo Jodorowsky, o Louco é a carta o Mundo, a última carta e que significa a realização total, o Real completo (aquilo com o que Arthur Fleck delira), mas em um estado de pura potencialidade, não-realizada. O Coringa aparece para nós como caos, vilão, incel, negação, zero à esquerda (literalmente). Mas ele é o mundo por vir, mesmo que pareça um caos ameaçador segundo a nossa percepção.

Joaquim Phoenix matou seu pai sufocado em Gladiador, no longínquo ano de 2000. Este foi o filme que elevou Phoenix ao primeiro escalão de Hollywood. Em Joker, ele mata sua mãe da mesma maneira.

Todd Philips dirigiu Se Beber Não Case e Um Parto de Viagem, onde Zach Galifianakis faz personagens parecidos entre si e com o Coringa. São excluídos sociais com hábitos bizarros e uma dificuldade enorme de se relacionar com o mundo e de seguir suas instruções. É interessante que um diretor de comédias plásticas faça um filme sobre o Coringa.

Bernie Sanders é um candidato com chances reais, e altas, de chegar à Casa Branca na próxima eleição americana. Ele derrota Trump no segundo turno, segundo pesquisa da trumpista Fox News. E seu discurso, potencializado pela base eleitoral jovem que é o coração da sua campanha, tem uma radicalidade nunca antes observada, nem de perto, em qualquer candidato à presidência da história dos EUA, do lado democrata (assim como Trump, do lado republicano). Ele abertamente mostra os bilhões de impostos que as super-empresas americanas irão pagar sobre seu novo plano tributário; tweeta que bilionários não deveriam existir; se autodenomina socialista. Sabemos que Bernie é um político de centro-esquerda, empurrado pelas circunstâncias para uma posição mais extremada. Mas os sintomas disso são importantes demais para serem descartados. Está em jogo uma nova forma de tratar a questão da riqueza na nossa sociedade. Joker é bonito porque a beleza é apenas a verdade, mostrada sem subterfúgios, sem conceitos; a beleza é a experiência da verdade.