VOLUME 04, Nº 4, 2015/2

ALGUMAS PERGUNTAS PARA A ARTE

Diversos objetos de cunho não-contemplativo – a chamada “arte primitiva” – assim como obras de arte de loucos, mendigos e demais tipos sociais estigmatizados que não se compreendiam como artistas – no sentido ocidental da palavra – são expostos, salvaguardados, vendidos e até roubados. A valorização estética ou o reconhecimento de algo como arte é fruto de uma sócio-lógica regida por diversos agentes sociais: artistas, curadores, críticos de artes, jornalistas, donos de galerias de arte, consumidores, etc. Por isso, perguntamos: “Para que a Arte”; “Arte produzida por quem?”; “Arte para quem?”.

Dialogando com essas questões, Felipe Magaldi analisa o contexto de criação e desenvolvimento do ateliê que deu origem ao Museu de Imagens do Inconsciente, situado no Instituto Municipal Nise da Silveira (antigo Centro Psiquiátrico Pedro II), localizado no bairro do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro). A intensa produção artística de pinturas e esculturas dos pacientes psiquiátricos atraiu artistas, críticos de arte e curadores, abrindo espaço para discussões sobre arte e loucura. Magaldi explora esta articulação específica de atores, saberes e instituições em relação a outros momentos da arte moderna que também trouxeram à tona questões sobre arte, alteridade e loucura – como, por exemplo, no Surrealismo. O autor ressalta que a singularidade deste caso é a influência dos interesses em jogo, que constituiu uma “estética de conversão”, influenciando o surgimento do concretismo no Brasil.

Tendo em mente essa sócio-lógica que compõe o universo da arte, Alice Noujaim baseia-se na noção de “campo artístico” de Pierre Bourdieu, na noção de “apropriação social” de Michel de Certeau e na “sociologia dos textos” de Donald Mackenzie para analisar a adaptação do Livro-obra, de Lygia Clark, a um aplicativo digital para Ipad. Noujaim almeja expor a criação do aplicativo enquanto um “novo constructo”, revelando-se mais do que um mero simulacro que, no entanto, não é autônomo em relação à proposta da artista. Trata-se de uma obra de arte participativa, que permite uma espécie de “visita guiada à obra de Lygia Clark”, através de uma interação tátil via ecran. Do Livro-obra para o aplicativo, há um aumento significativo de seu alcance, passando de 24 edições “originais” a 2.270 downloads. Essa abrangência implica em uma dessacralização da obra ao retirá-la de espaços canônonicos, ao passo legitima mais ainda a posição da artista na história da arte. “Para quem é esta arte?” é uma das questões que emergem a partir da discussão da autora sobre a relação entre “usos” e “cânone”.

Aplicando conceitos relacionados à arte à arquitetura, Lucas Ferraço baseia-se em Peter Eisenman para pensar a “arquitetura conceitual” enquanto uma conexão entre “o material e o abstrato”, entre “o pensamento e a ação”. Ao questionar “a autoridade de certos conceitos” tais como “sujeito”, “objeto” e “visão” usando autores como Roland Barthes e Michel Foucault, Ferraço propõe que a “arquitetura conceitual” tem forças que atuam politicamente. Sua reflexão sobre essa “arquitetura-política” alinha-se às questões colocadas pela chamada da Revista A! na medida em que tangencia a pergunta “Para que a Arte?” ao refletir acerca do pensamento de Eisenman na produção de um “espaço outro”. Citando o poema Interessere de Décio Pignatari, em que destacam-se os versos “Na arte interessa o que não é arte” e “Na arquitetura interessa o que não é arquitetura”, Lucas Ferraço dá um título provocante a seu artigo “Não é”.

Em “Entre a música e a poesia: Poesia sonora?”, Gabriela Marcondes traça um panorama de producões artísticas que transbordam os limites desses campos em separado, para sugerir a criação de um novo campo (ou recuperação de uma relação antiga no Ocidente) — a poesia sonora. No esteio da discussão do artigo anterior, em que o que está fora dos limites de um “campo” é justamente o que cria novas condições de possibilidades para esse mesmo “campo”, podemos pensar que a “poesia sonora”, por não ser stricto senso nem poesia, nem música, engendra um alargamento dessas categorias.

Por fim, ao analisar a obra da artista brasileira Laura Lima, Débora Salles mostra como a artista coloca em xeque a noção de sujeito a partir da “coisificação do corpo”. Mais especificamente, ao dar ênfase à forma e à “carne” como matéria, a artista distancia-se da subjetividade dos indivíduos, destituindo-os de sua identidade. Para desenvolver sua reflexão, Salles utiliza a noção de paisagem enquanto “um lugar de criação simbólica” para questionar sua construção a partir de corpos em movimentos. Essa abordagem dos corpos faz com que a autora aproxime o “organismo carnal” produzido pela artista ao conceito de “percepto” de Gilles Deleuze e Felix Guattari, dando margem à emergência de um “corpo-paisagem” – fundados “mutuamente do ponto de vista sensorial”. Posto de outro modo, trata-se de uma reflexão sobre a relaçao da artista com o percepto, uma relação mediada pela paisagem na qual o corpo é domesticado, assumindo um status de “paisagem”, aproximando-se da “escultura” ou da “instalação”. Uma reflexão, em suma, que se conecta à questão “Para que a arte?” ao expor a capacidade da artista em desconstruir dicotomias como sujeito/objeto e questionar a relação entre corpo e espaço.

“Arte Virgem: o ateliê do Engenho de Dentro e o segundo programa estético modernista brasileiro”, Felipe Magaldi.

“Livro-obra aplicativo: um novo constructo”, Maria Alice Noujaim.

“Não é: Primeiras questões sobre a arquitetura conceitual e o pensamento de Peter Eisenman, Lucas Ferraço Nassif; Otávio Leonídio.

“Entre a música e a poesia: Poesia sonora?”, Gabriela Marcondes.

“O corpo-paisagem: percepto e carnalidade na obra de Laura Lima”, Débora Gomes Salles.

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