Edição atual

POLÍTICA DA FORMA: PODE A FORMA SER POLÍTICA?

Um artista pinta botas de soldado, notas de dinheiro, foices e martelos, o rosto de Eduardo Cunha. A canção fala de mudança, liberdade, notícias de jornal; a melodia faz lembrar o hino de um país ou uma cantiga popular proibida. O livro tem um tema e o tema é um acontecimento histórico. Mas pode a cor ser política? Não apenas quando ela se torna alvo de violência política – como o vermelho – mas também quando não possui endereçamento simbólico explícito, como numa lata de Coca-Cola. É política a metáfora quando não é metáfora política? Se há, não no conteúdo, mas na forma, também uma política, deveríamos ser capazes de diferenciá-las.

A nova edição da A! buscou discutir a política da forma. Para além da mensagem: o modo como a mensagem foi contada. E, mais do que isso, o modo de mostrar, de revelar, de representar, de aparecer. Uma representação sem referência – a forma podendo ser, hegelianamente, seu próprio conteúdo.

As discussões literárias da edição transitam entre os séculos XIX e XX, entre Franz Kafka e Charles Baudelaire. No primeiro caso Deleuze direciona o conto “Josefina, a cantora ou O povo dos camundongos” no sentido de um além da estética, argumentando que no lugar depois da estética encontra-se a política,– tal ponto de partida permitirá a autora estabelecer uma série de nexos entre Kafka e o projeto das vanguardas europeias. No segundo caso há um retorno para o poema em prosa do século XIX, localizando a aparição dessa forma artística como derivada de problemas históricos da modernidade, o que implica numa série de compreensões sobre a natureza da arte.

Trazendo a discussão para o presente, o artigo “Para que os gestos de resistência resistam” associa imagens de junho de 2013 ao filme Je vous salue Sarajevo (1993), de Jean-Luc Godard https://www.youtube.com/watch?v=LU7-o7OKuDg. Ao dizer que as obras de arte não comunicam, Deleuze permite enxergá-las como gesto de resistência. É nesse momento que se discute a fronteira artística dos registros das manifestações de junho, cujo protagonista,– como recorda Vladimir Safatle num recente manifesto – é o ator político Ninguém. Na teoria de Rosalind Krauss, em outro artigo, a discussão se envereda para legitimidades de certas formas “impuras” de arte, trazendo discussões sobre seus extremos, a partir de conceitos como o paregorn da gramatologia, por exemplo, onde os limites do “dentro” e do “fora” são postos em dúvida.

O cinema reaparece no artigo sobre 48, de Susana de Sousa Dias, documentário que parte dos arquivos da PIDE/DGS (polícia política salazarista). A autora faz sua leitura dentro da tradição benjaminiana, aproxima teoria da história da teoria da montagem, chega às implicações políticas desse processo: “O anacronismo […] atravessa todas as contemporaneidades e implica na coexistência das durações heterogêneas”. A relação entre tempo, imagem e arquivo conecta forma e política.

Em “Quando plantas irrompem pelo concreto”, o debate é levado ao nível antropológico, perguntando se a arte não poderia nos ajudar a vislumbrar a agência política das plantas; discussão realizada no campo teórico de Bruno Latour.

Também temos a satisfação de publicar, nessa edição n.05, duas traduções inéditas no Brasil. Fernanda Drummond traduz o romance em versos Autobiografia do vermelho da poeta Anne Carson. E Renato Pardal Capistrano traduz o “Política da literatura” de Jacques Rancière, ensaio que argumenta em favor da natureza política da literatura, mesmo quando esta não guarda pretensões políticas – finalizando, dessa maneira, a atual edição.

Como se canta, para quem se canta: um limiar entre estética e política no último conto de Franz Kafka, Elis Sezana Spyker Da Costa.

Baudelaire: a subjetividade como forma, João Tavares Bastos.

Para que os gestos de resistência resistam, Maria Del-Vecchio Bogado.

Rosalind Krauss e o medium, Alessandra Bergamaschi.

A retomada política dos arquivos das prisões portuguesas no filme 48, Eduarda Kuhnert.

Quando plantas irrompem pelo concreto, João Miguel Diógenes de Araújo Lima.

Autobiografia do vermelho: Um romance, Anne Carson (Tradução Fernanda Drummond).

Política da literatura, Jacques Rancière (Tradução Renato Pardal Capistrano)

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