Edição atual

CHAMADAS ABERTAS (N. 08 + N.09)

 

EDIÇÃO 08: OS OBJETOS E AS OBRAS DE ARTE
Assim como o ready-made de Marcel Duchamp, esta chamada para a ed. n.08 da A! não é sobre objetos artísticos, mas sobre objetos comuns. Nosso intuito não é perguntar o que o ready-made fez com as obras de arte, mas o que ele fez com as coisas comuns. O ready-made, ao ser ressignificado como arte, muda o estatuto das coisas. Transmite a elas o caráter que, anteriormente, pertencia às obras. Isso significará buscar em mictórios, roupas, bibelôs, hábitos corriqueiros, capas de revistas, pôsteres, filmes, novelas, comerciais de televisão, gírias, modas passageiras, no kitsch, no vulgar, no breve, no banal, enfim, nos objetos comuns, os significantes da arte – a saber: a intenção autoral, o apelo aos sentimentos e à inteligência emocional, a transfiguração de emoções, o encantamento, a contemplação, o sentido, a fonte de significância que nos faz entender a nós mesmos a partir de certos princípios gerais etc. Basta pensar: o que aconteceria se todo o objeto do mundo fosse como a Mona Lisa? Se fizesse em nós o que a Mona Lisa faz?

Naturalmente, isso também implica em uma profunda alteração de sentido – não apenas das obras –, mas no modo de perceber e interagir com obras. O mundo comum é prático, rápido, ininterrupto, contínuo e fragmentado; nele permanecemos 24 horas por dia sem poder sair, por isso estamos, sobretudo, distraídos nele. O ready-made não alimenta o fetiche do museu. Ele se configura como exato contrário do museu, como a destruição radical do museu. É exatamente nesse sentido que o ready-made fala muito pouco sobre a autoria. Ele não expressa o talento espiritual de Duchamp (para piadas), ele expressa um movimento da própria arte na década de 1910, que já vinha se desenvolvendo desde os primórdios do impressionismo. Basta olharmos para os diversos filhos do impressionismo, como eles gradativamente minam a perspectiva, expurgando a verossimilhança das artes plásticas. Os quadros ganham um caráter decorativo. O que significa decorativo? Significa que, sem a perspectiva e o realismo, o quadro não é mais aquele portal onde o espectador do museu entra – aquela ilusão que nos transporta para dentro da realidade do quadro. Os quadros não são mais feitos para serem minuciosamente analisados. Assim como os elementos do quadro, sem a perspectiva, se atiram todos para a frente do quadro, o quadro nos atira para fora dele, para o mundo ao seu redor. Os quadros agora não tem perspectiva; ausentes de realismo, são por vezes abstratos, ou seja, não são mais objetos para o museu, para a contemplação desinteressada. Agora são objetos do mundo. Se o mictório está no museu a Mona Lisa está na parede do banheiro público. Enquanto objetos do mundo, a distração interessada (útil, prática) é o modo próprio de nos relacionarmos com eles.

Quando, irritadiços, nos enfastiamos com um quadro abstrato no museu, pensando consigo, “eu poderia ter feito isto”, devemos ter em mente duas verdades: 1) esse quadro não foi feito para o museu, o erro é ele estar ali; repense aquela imagem em um outdoor ou em uma camiseta, porque a técnica que a produziu foi feita para esta configuração móvel, prática, distraída, e não para a contemplação silenciosa; 2) não é um atributo negativo que você consiga, sem talento ou técnica, produzir a mesma obra; é, muitas vezes, a única coisa de valor que aquela obra possui – e já é o suficiente.

Os artigos desta edição n.08 da A! podem refutar ou ampliar as posições deste texto. Podem também ignorá-lo, investigando, simplesmente, a relação entre obras de arte e objetos comuns, qual sua diferença e proximidade, qual a historiografia da arte capaz de trazer artistas e obras para dentro dessa linha temática etc. O prazo de envio para esta edição é 15 de setembro de 2018; o artigo deve ser enviado para o e-mail: arteedeselegancia@gmail.com, na formatação indicada em <<Submissões>>.

EDIÇÃO 09: TEMAS MARGINAIS
Seguindo a teórica Barbara Herrnstein Smith em Contingencies of Value, a (re)produção discursiva dos cânones artísticos ocidentais passa pela repetição de um “punhado de formas, obras e figuras clássicas recorrentemente invocadas justamente nesses discursos – por exemplo: escultura, tragédia, sinfonia; Homero, Rembrandt, Mozart; Rei Lear, Don Giovanni e, para indicar que também existem obras-primas modernas, Guernica)” — mas não apenas isso: há também uma iteração que afunila outros elementos do mundo da arte em direção ao mesmo, ao familiar para “audiências canônicas experimentando essas obras sob condições canônicas”, algo que se soma “à exclusão implícita de audiências não-canônicas (ou seja, não-ocidentais, não-acadêmicas, não-adultas ou não-pertencentes à alta cultura) e condições de produção e recepção não-canônicas (por exemplo: populares, tribais ou mediadas pela massa)” de modo que “não surpreende em nada que ‘experiências essencialmente estéticas’ sempre estejam em conformidade com aquelas normalmente tidas por pessoas ocidentais ou educadas no Ocidente, consumidoras da alta cultura, e que ‘propriedades essencialmente estéticas’ e ‘valores essencialmente estéticos’ sempre acabem sendo encontrados nos velhos lugares e obras-primas de sempre”.

Assim, o que pretendemos conjurar nessa edição n.09 é aquilo que escapa a esse retorno ao de sempre, aquilo que fica nas margens do cânone, ou o que habita o território amaldiçoado de uma teratologia qualquer — o que quer que possa retornar como sintoma ou assombração a partir da dimensão espectral onde encontramos o que não é imaginado positivamente (ou o que sequer é imaginado) conforme o estado atual de nossos imaginários acadêmicos. Gravuras alquímicas, quadrinhos surrealistas, sinfonias compostas por máquinas, pinturas feitas em manicômios, experiências místicas, brincadeiras de criança — queremos o estético e o artístico onde dizem que eles não deveriam estar. Há elementos estéticos em uma profecia? Decifrar símbolos herméticos é como explorar o simbolismo em um filme? Androides sonham com musas elétricas? A arte pode ser completamente transposta para mundos virtuais? As palavras e imagens veiculadas na arte ainda guardam poderes mágicos? Ficções científicas possuem utilidade quando o futuro é cancelado? Ainda devemos investir na produção poética de mitos?

Temas marginais podem ainda nos indicar algo fundamental em uma época de expectativas decrescentes — podem fazer parte de uma nova cartografia, de um outro modo de construção de instrumentos de navegação no mundo, que permitam não apenas a desconstrução, mas também os processos de construção de mundos e futuros inesperados. Passar pelo estranho para retornar ao ponto inicial a partir de outra perspectiva — assim podemos olhar criticamente para o que identificamos com o que somos com a distância permitida pela modificação de nossa sensibilidade, de nosso imaginário e de nosso aparato conceitual — fugindo do vício vanguardista da contestação pela contestação (pela distinção social), que preserva o mesmo em nome da sobrevivência de sua identidade antagônica.

O prazo de envio, para a edição n.09, é 31 de outubro de 2018; o artigo deve ser enviado para o e-mail: arteedeselegancia@gmail.com, na formatação indicada em <<Submissões>>.